sexta-feira, 24 de maio de 2013

A casa 12 astrológica como arquétipo do aprsionamento



Por: Hellen Reis Mourão

Me encontro nessa posição porque quero. Fui eu quem cortou os ramos. Eu libertei as minhas mãos do desejo de agarrar, de me apropriar das coisas, de retê-las. Sem abandonar o mundo, eu me retiro. Comigo você pode encontrar a vontade de entrar na condição em que não existe mais a vontade. O estado em que as palavras, as emoções, as relações, os desejos e as necessidades não importam mais. Para desligar-me, eu cortei todos os galhos, exceto o que me conecta à Consciência.
Jodorowsky LA VIA DEI TAROCCHI




 

A casa 12 é uma casa complexa, regida por Netuno é uma casa de conclusões.
Por isso é tão difícil de compreendê-la e de assimilá-la.
Em um mapa astrológico representa misticismo, inconsciente, traumas, medos, reclusão, confinamento, abnegação, meditação, isolamento, inibições, obstáculos mentais, internações, hospícios, hospitais, manicômios, seminários e conventos, mosteiros, prisões, cárceres, exílio, armadilhas, traumas, tramas, calúnias, inimigos ocultos, atividades secretas, desejos e emoções secretas, sofrimentos ocultos e resignados, doenças psíquicas e desprendimento.
Por ser a última casa, representa o fim de um ciclo. Cortando tudo aquilo que está no passado, nos preparando para sermos o que somos, ou seja, a representação da casa 1.
Representa o sacrifício, a purificação, a transfiguração e o retirar-se do mundo.
Por isso, pode-se trazer algum resíduo do passado que valha a pena, que está sendo conservado para que seja aperfeiçoado em um novo ciclo.
Aqui colhemos os louros do sucesso ou amargamos a derrota.
A casa 12 trata da arte de desfazer-se da existência material e terrestre e transfigurar-se através de experiências espirituais. Isto é, deixar algo por algo maior.
Mostra, também, as nossas adversidades, a perseguição, os inimigos ocultos, os segredos, a clandestinidade, o trabalho atrás das cenas, os defeitos de caráter, os vícios, os escapismos, os enganos e as traições.
É a casa da saúde psíquica, em oposição a casa 6, que representa a saúde física. Bem como das fantasias, da abstração, do escapismo, e da busca da transcendência do corpo e da vida cotidiana (assuntos da casa 6).
Também representa o suicídio, as tentações, o carma acumulado, as doenças crônicas, a renúncia, o roteiro, a privacidade.
É uma casa mal interpretada, mal compreendida, mas que pode ser de um imenso valor para quem se dispõe a entendê-la.
Não é coincidência que esta casa tenha esse número. O numero 12 abrange uma porção de coisas. As doze horas do dia e doze da noite (aproximadamente), os doze meses do ano, etc.
O 12 pode ser o 4 vezes o 3. Ou seja, é um número que liga a trindade do espírito á quaternidade da Terra, do corpo, da vivência humana.
A casa 12 também é considerada a casa do inconsciente e dos inimigos secretos.
E não seriam os nossos piores e mais secretos inimigos os nossos defeitos? Não seriam os nossos piores inimigos nossa própria sombra? Tudo aquilo que renegamos em nós mesmos e projetamos no outro?
Como e uma casa oculta, imagina-se poder esconder nossas misérias. Porém alguns trânsitos poderosos podem ativar essa casa, fazendo com que os conteúdos reprimidos venham à tona, trazendo os nossos casos não-resolvidos, nossas neuroses ou até mesmo psicoses. 



Em uma análise do ponto de vista da psicologia analítica, veremos que a Casa 12 remete a arquétipo do aprisionamento.
Conforme Jung os arquétipos representam protótipos, modelos de comportamento ligados aos instintos, e possuem caráter universal. Eles aparecem nos mitos, nos sonhos, nas religiões, nos contos de fadas e nos delírios dos doentes mentais. Porém, nos sonhos, o que aparece realmente são as imagens arquetípicas. São padrões instintivos de comportamento, que transcendem o inconsciente pessoal de um individuo, tendo, portanto, uma forma de existência independente.
O arquétipo é uma entidade hipotética, pois não é representável em si mesma. É somente em sua manifestação que se torna evidente. Os arquétipos, assim como os instintos, possuem uma forte carga de energia, que pode cegar o indivíduo para a realidade, e passa a agir contra qualquer razão e vontade. O ego é possuído e sobrepujado, pois a experiência da imagem arquetípica é percebida como algo extremamente significativo.
Meditando sobre os significados da casa 12 podemos associá-la ao arcano 12 do Tarot, O Enforcado. Que também nos apresenta um sacrifício no aprisionamento.
No referido arcano vemos um jovem rapaz pendurado de cabeça para baixo por um dos pés. Tem se a impressão de não estar ferido, mas, pelo menos de momento, está completamente desamparado e mesmo assim ele não parece se importar com isso, sua expressão é de calma e paciência.
Portanto, é notável que esse não é um arcano de fácil “digestão” para a nossa sociedade ocidental capitalista, que visa o movimento e a realização externa. Onde o ter e o parecer prevalecem sobre o ser. É difícil para nós ocidentais, tolerar a inatividade forçada.
Não é a toa que tanto o arcano quanto a casa estudada apresentam o mesmo numero, pois ambos representam um sacrifício por algo que não se sabe o que é.
O abrir mão do que já se conquistou por algo maior. O resgate de tudo o que ficou escondido, sua sombra mais profunda. Não é a toa que esse é um ponto do mapa conhecido como a “lata de lixo” do horóscopo.
Por isso os trânsitos nessa casa são tão difíceis.
Entretanto, a carta do Enforcado nos da a saída para não sofrermos tanto durante um trânsito penoso na casa 12.

O Enforcado sugere uma aceitação, a fé, a calma e a serenidade. A aparência externa de imobilidade esconde o desenvolvimento de uma liberdade interior.
Sua figura mostra uma inversão de posição muito utilizada pelos iogues. Nessa posição invertida o cérebro é irrigado pelo sangue, oxigenando-o, possibilitando o individuo a ter novas visões e percepções. É o individuo sendo alimentando como uma árvore, digerindo sua seiva. Nutrição necessária para quando a mudança vier.
A árvore, por sua vez, tem uma simbologia interessante. Ela é o símbolo universal da Grande Mãe. O ser representado na figura está com a cabeça voltada para o ventre materno, representado pela mãe natureza.
Simbolizando o individuo que julgou anteriormente que seu intelecto era superior ao inconsciente e os seus instintos, gerando uma inflação de seu ego. Superestimando a força humana em detrimento dos deuses. Entretanto, os deuses desprezam a hubris.
Faz-se, portanto, necessário um sacrifício. O sacrifício da nossa imagem centrada no ego.
Quando o Enforcado aparece em uma leitura de Tarot, o inconsciente lhe oferece a oportunidade de uma mudança de pontos de vista. De observar a vida sob uma nova perspectiva, de mudar um olhar já viciado e deixar de insistir em padrões que não funcionam.
Outro arquétipo semelhante encontra-se na mitologia grega, na forma do mito de Prometeu.
Na mitologia grega, Prometeu é um titã, filho de Jápeto, neto de Urano e Gaia e irmão de Atlas, Epimeteu e Menoécio. Algumas fontes citam sua mãe como sendo Tétis, enquanto outras apontam para Ásia, também chamada de Clímene, filha de Oceano.
Prometeu criou os homens do limo da terra. O filho de Jápeto, bem antes da vitória final de Zeus, já era um benfeitor da humanidade. Essa filantropia, aliás, lhe custou muito caro. Foi pelos homens que Prometeu enganou a seu primo Zeus por duas vezes. Numa primeira, em Mecone (nome antigo de Sicione, cidade da Acaia), quando lá "se resolvia a querela dos deuses e dos homens mortais". Essa disputa certamente se devia à desconfiança dos deuses em relação aos homens, protegidos pelo filho de um dos Titãs, que acabavam de ser vencidos por Zeus. Pois bem, foi em Mecone que Prometeu, desejando enganar a Zeus em benefício dos mortais, dividiu um boi enorme em duas porções: a primeira continha as carnes e as entranhas, cobertas pelo couro do animal; a segunda, apenas os ossos, cobertos com a gordura branca do mesmo. Zeus escolheria uma delas e a outra seria ofertada aos homens. O deus escolheu a segunda e, vendo-se enganado, "a cólera encheu sua alma, enquanto o ódio lhe subia ao coração". O terrível castigo de Zeus não se fez esperar: privou o homem do fogo, quer dizer, simbolicamente dos nûs, da inteligência, tornando a humanidade anóetos, isto é, imbecilizou-a.
Novamente Prometeu entrou em ação em favor da humanidade, roubando urna centelha do fogo celeste, privilégio de Zeus, ocultando-a na haste de uma férula a trouxe à terra, "reanimando" os homens. O Olímpico resolveu punir exemplarmente os homens e o seu benfeitor.
Contra os primeiros puni-os para sempre por meio de uma mulher, a irresistível Pandora. Já Prometeu foi acorrentado com grilhões no meio de uma coluna. Uma águia enviada por Zeus lhe devorava durante o dia o fígado, que voltava a crescer à noite. Héracles, no entanto, matou a águia e libertou Prometeu.
De uma forma simplificada, o mito de Prometeu nos apresenta uma figura que foi um defensor da humanidade, conhecido por sua astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Zeus e dá-lo aos mortais. Zeus o puniu pelo crime, deixando-o amarrado a uma rocha durante toda a eternidade enquanto uma grande águia comia, durante todo o dia, o seu fígado - que crescia novamente no dia seguinte. O mito foi abordado por diversas fontes antigas (entre elas dois dos principais autores gregos, Hesíodo e Ésquilo), nas quais Prometeu é creditado por ter desempenhado um papel crucial na história da humanidade.
Esse mito vem nos mostrar novamente o quanto os deuses abominam a hubris.
Conforme Brandão (1986): “(...) a dedicação ao trabalho e à justiça assegura a prosperidade nesta vida e a recompensa na outra. Ao revés, os que se deixam dominar pela hýbris, pela "démesure", pelo descomedimento, serão implacavelmente castigados nesta e no além.”
É disso que trata o mito. Do castigo por meio de um sacrifício por um bem maior. Sacrifício, este realizado por meio de um acorrentamento (aprisionamento) doloroso.

Considerações finais

O mito de Prometeu, juntamente com o trunfo 12 do Tarô, torna muito mais claro o objetivo da casa 12 astrológica.

O tema do sacrifício embutido na casa astrológica não se refere a um sacrifício qualquer, mas a um castigo imposto por uma vontade superior ao ego.
Em Jung (2008):
Uma vez que a natureza humana não é constituída apenas de pura luz, mas também de muita sombra, as revelações obtidas pela análise prática são às vezes penosas e tanto mais penosas (como é geralmente o caso) quanto mais se negligenciou, antes, o lado oposto. (...) Enquanto o otimismo de alguns torna-os presunçosos, o pessimismo de outros torna-os excessivamente tímidos e desanimados. Estas são as formas do grande conflito, em escala reduzida.
Parece grotesco descrever tais estados como "semelhantes a Deus". Mas como ambos, a seu modo, ultrapassam as proporções humanas, possuem algo de "sobre-humano", podendo ser expressos figuradamente como "semelhantes a Deus". Se quisermos evitar o emprego desta metáfora, poderíamos falar de inflação psíquica. Tal definição me parece correta, pois o estado a que nos referimos envolve uma "expansão da personalidade" além dos limites individuais ou, em outras palavras, uma presunção.
No mito de Prometeu, o ato de roubar o fogo dos deuses e o entregar a humanidade simboliza, a tomada de consciência da humanidade, a capacidade de raciocínio, uma vez que o fogo é símbolo da consciência e do pensamento. E isso tornou o homem semelhante aos deuses.
Se analisarmos o trunfo 12 do Tarô veremos que ele é precedido pelo trunfo A Força. Nele vemos uma mulher segurando a boca de um leão com muita naturalidade. Os seja, vemos o domínio dos instintos, o homem vencendo e dominando a sua natureza animal.
Vencer o leão ou roubar o fogo dos deuses resulta em uma expansão da personalidade, há um acréscimo na consciência. E é neste momento que o ego passa a confiar em sua própria força ocorrendo uma inflação.
Essa inflação é punida com um castigo. A vida do indivíduo é virada de cabeça para baixo para que o Self, a imagem arquetípica de Deus, possa assumir o controle novamente. O ego precisa sair do centro, para que um novo ciclo se inicie com um novo centro diretor, surgindo uma vida melhor.
Após um ciclo inteiro de 11 casas astrológicas, desenvolvendo e estruturando o ego, chega um momento em que um novo centro deve surgir e o ego deve passar a respeitá-lo.
A proposta da casa 12, com o isolamento e a purificação, como nos mostram os mitos tem como finalidade o amadurecimento do indivíduo, uma mudança de ponto de vista, para que um novo ciclo possa se iniciar, sem mais vícios anteriores.
Entretanto alguns cuidados devem ser tomados durante trânsitos na casa 12. Essa também é a casa da dissolução, onde há o perigo eminente de uma psicose aflorar.
Nela residem nossas emoções secretas, nossos sofrimentos ocultos e enfrentar tudo isso sozinho pode ser extremamente doloroso para o ego e sem uma ajuda especializada o indivíduo pode adquirir novos vícios como forma de escapismo ao invés de tratar os antigos.
Entretanto, é durante as crises que acessamos os recursos ocultos que possuímos e que desconhecemos, mesmo que ainda não acreditemos neles.
Mas se pudermos agir tanto como o Enforcado, quanto Prometeu, aceitando esse destino como inevitável. Se pudermos aceitar que existe uma força superior ao ego e mantermos a calma e a serenidade em meio a essa adversidade, sabendo que se trata de algo temporário vamos ter a certeza de que o sacrifício não foi em vão, mas sim para um bem maior.
E não há bênção maior que a de colaborar com os deuses.


Bibliografia

BRANDÃO, J. S. – Mitologia Grega – vol I. Petrópolis: Vozes 1986.

JUNG, C. G. Arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1976.

JUNG, C. G. O eu e o Inconsciente, 21. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

MARCH, D.M e McEVERS, J. Curso básico de Astrologia – Principios Fundamentais, São Paulo: Pensamento, 2001.

NICHOLS, S. Jung e o Tarot – Uma jornada arquetípica. São Paulo: Cultrix, 2007.

RIBEIRO, A. M. C. Conhecimento da Astrologia – Manual Completo.