segunda-feira, 27 de maio de 2013

A função sentimento




Por: Hellen Reis Mourão
 



A função sentimento é uma função racional, ou seja, de julgamento, de avaliação. Entretanto não é uma um julgamento linear, cartesiano, próprio da função pensamento. É uma lógica mais abstrata, de valores.
Não é apenas o gostar ou não gostar, mas algo intrínseco dos valores pessoais, familiares e culturais, que nos levam a busca de um julgamento baseado em algo mais complexo que a simples dinâmica atração - repulsa.
James Hillman em sua obra A função Sentimento - A Tipologia Junguiana nos alerta quanto à redução da função sentimento a um simples gostar.

“O sentimento registra a qualidade e o valor especifico das coisas É a função do sentimento fazer essa exploração e amplificação de nuances e tons, que são o oposto da redução.”

É fácil confundirmos sentimento com as sensações. Mas a sensação nos diz que algo apenas existe. Por exemplo, a sensação nos diz, quando vemos uma flor, que existe algo e que possui um cheiro uma cor e uma textura. Mas é o sentimento que dará o valor aquela sensação.
Portanto, é com ela que avaliamos pessoas, objetos, momentos, experiências e os valoramos, conforme um complexo sistema de valores pessoais.

É nela que se encontram todo o tipo de rituais. Não apenas os rituais religiosos. Mas podemos encontrar ritos em nosso dia a dia, como cultivar uma horta, cultivar o corpo em academia, acordar no mesmo horário, fazer sempre as mesmas coisas. Portanto, é fácil enquadrar a patologia aqui. Quando muito unilateral o individuo pode desenvolver Transtorno Obsessivo Compulsivo. O chamado TOC.
É uma função que nos remete ao passado, as bases de nossa infância. E o tipo sentimental apresenta preferência pelo passado, pois é lá, na memória sentimental, que estão os primeiros fragmentos do desenvolvimento dos valores do indivíduo.
Outro alerta importante é o de não confundirmos sentimento com emoção. Jung deixa bem definidos, esses dois conceitos, em sua obra Tipos Psicológicos. Lembrando que ele entende que afeto e emoção são sinônimos.
“(...) o afeto se distingue do sentimento pelas inervações corporais perceptíveis, enquanto faltam ao sentimento, na maioria dos casos, essas inervações ou são de intensidade tão pequena que podem ser detectadas por instrumentos muito delicados, por exemplo, pelo fenômeno psicogalvânico. Ao afeto se acrescenta a sensação das inervações corporais por ele liberadas.”

Em uma sociedade como a atual, competitiva e com uma noção de valores confusa, essa função é muitas vezes negligenciada e banalizada. Entretanto sem ela não teríamos a cultura, a poesia, a busca pela harmonia do ambiente e os movimentos sociais.
 

Referências
JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.
HILLMAN, J. A Tipologia de Jung – A função sentimento. 7. ed.  São Paulo: Cultrix, 2007.
SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 20. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006.