terça-feira, 17 de setembro de 2013

O animus



Por: Hellen Reis Mourão



A literatura junguiana, apresenta muito material sobre a anima, mas pouco material sobre o animus.
Como se trata de um assunto empírico e polêmico, vou primeiramente apresentar aquilo que Jung entendia como o “lado masculino da mulher” e depois apresentarei minha vivência e meu embate com o animus. Não pretendo esgotar o assunto, até porque na época de Jung os papéis femininos e masculinos eram mais claros e definidos que hoje. Mas acho que esse estudo vale para uma reflexão, pois apesar de Jung muitas vezes ter sido acusado de ser um porta-voz de pontos de vista estereotipados sobre as diferenças entre homens e mulheres, em alguns pontos ele estava adiante de seu tempo, possuindo certa razão em sua teoria.
Para iniciar o estudo, é válido lembrar que todos nós carregamos uma quantidade pequena de hormônios do sexo oposto em nosso organismo.
Consciente disso, Carl Jung teve a percepção de que todos nós carregamos em nossa psique nossa contraparte sexual, e nelas estão encerradas as qualidades inerentes ao sexo oposto, mas que não são conscientes. Jung percebeu também que conforme os traços psicológicos de cada indivíduo, as tendências do sexo oposto vão sendo reprimidos e se acumulando no inconsciente.
Carl Jung definiu então dois termos para designar essas partes reprimidas do sexo oposto em nossa psique. Ele os denominou de anima e animus. Sendo a anima a contraparte feminina da psique do homem e animus a contraparte masculina na psique da mulher.

Mesmo após ter tido esse insight Jung notou que não era nada fácil conceituá-los. Em O eu e o inconsciente ele apresenta claramente essa dificuldade:
“A anima, sendo feminina, é a figura que compensa a consciência masculina. Na mulher, a figura compensadora é de caráter masculino e pode ser designada pelo nome de animus. Se não é simples expor o que se deve entender por anima, é quase insuperável a dificuldade de tentar descrever a psicologia do animus.”
Apesar da anima e do animus fazerem parte da personalidade eles são dois arquétipos, que possuem suas raízes no inconsciente coletivo.
Em se tratando do animus, pode-se afirmar então que se trata da personificação do inconsciente feminino, representando a imagem coletiva que a mulher tem do homem
É o arquétipo que encerra as experiências que as mulheres trazem em si com o sexo oposto através de toda a história da humanidade.
Uma forma de reconhecer a manifestação do animus no comportamento da mulher é por meio de uma convicção secreta e sagrada e por meio de opiniões.
Sobre isso, Carl Jung discorre em sua obra O eu e o inconsciente:
“As opiniões do animus apresentam muitas vezes o caráter de sólidas convicções, difíceis de comover, ou de princípios cuja validez é aparentemente intangível. Se analisarmos, porém, tais opiniões, logo depararemos com pressupostos inconscientes que deveriam ser provados, de início; em outras palavras, as opiniões foram concebidas como se tais pressupostos existissem. Na realidade, essas opiniões são totalmente irrefletidas; existem prontinhas e são mantidas com tal firmeza e convicção pela mulher que as formula, como se esta jamais tivesse tido a menor sombra de dúvida a respeito.”
Outra característica do animus, que difere da anima, é se apresentar como uma pluralidade de pessoas.
Geralmente o animus vai aparecer nos sonhos femininos como um grupo de homens, ou como um tribunal. Isso significa que o animus possui um caráter mais coletivo e impessoal, diferentemente da anima que impele o homem ao que é pessoal e à intimidade. Por isso é comum, em mulheres quando dominadas pelo animus, falarem de forma geral, criando generalizações (principalmente em relação aos homens) descabidas.
Outra forma de manifestação do animus é por meio da escolha amorosa. É o animus que provoca as paixões nas mulheres, por meio da projeção. Ela irá se sentir atraída justamente por aquele homem que corresponda a sua masculinidade inconsciente e que irá acolher essa projeção.

De acordo com Carl Jung, o animus, apresenta quatro estágios de desenvolvimento. O primeiro estágio é a personificação do homem que é apenas força física e agilidade — um exemplo é o atleta, o cowboy. Jung exemplifica com o personagem Tarzan. O segundo estágio é o "homem de ação", aqui o animus possui iniciativa e capacidade de planejamento, no sentido de que dirige sua força para algo útil — pode ser representado pelo herói de guerra, pelo caçador. No terceiro estágio ele é o condutor, o "verbo" — exemplo, o professor, o grande orador político ou o clérigo. E por fim no quarto estágio ele é o “sentido”. É o sábio guia que leva à verdade espiritual e intermédia a consciência da mulher e seu inconsciente — o deus grego Hermes é uma boa representação desse estágio.
O animus se desenvolve através desses quatro estágios, e ele precisa se tornar o psicopompo, para que faça a ponte entre o consciente e inconsciente da mulher, porém os outros estágios não desaparecerão. Eles continuarão presentes na psique feminina. Entretanto a mulher no processo de individuação deve aprender quando usar cada forma de expressão de seu animus. Por exemplo, a força física é necessária para a sua defesa,  o homem de ação leva a mulher a se tornar uma empreendedora e a se firmar no mundo. O verbo a ajuda a desenvolver seu pensamento lógico e a distanciá-la quando necessário das emoções para que possa refletir. E por fim, no quarto estágio, que dificilmente é alcançado, a mulher irá adquirir uma firmeza espiritual e um invisível amparo interior, que compensam a sua brandura exterior. Nesse estágio ela não precisa mais “bater o pau na mesa”, ela não precisa mais ser agressiva, competitiva, sua feminilidade é amparada e bem cuidada.
Como foi dito anteriormente, uma das funções do animus é a de psicopompo.
Psicopompo é uma palavra que tem origem no grego psychopompós, junção de psyché (alma) e pompós (guia) e designa um ente cuja função é guiar ou conduzir a percepção de um ser humano entre dois ou mais eventos significantes.

Portanto, a sua função, da mesma forma que a anima, é a de se tornar uma ponte entre o ego feminino e o Self.
Em Animus e Anima, Emma Jung esclarece essa função:
“Dentre esses arquétipos há sobretudo dois investidos de grande significado, pois, pertencendo por um lado à personalidade, e por outro estando enraizados no inconsciente coletivo, eles constroem uma espécie de elo de ligação ou ponte entre o pessoal e o impessoal, bem como entre o consciente e o inconsciente. Estas duas figuras - uma é masculina,a outra feminina - foram denominadas de animus e anima por Jung. “
Outra função do animus, semelhante a anima, é a compensatória.
Mas essa compensação tem sido muitas vezes interpretada erroneamente. É comum ouvirmos por ai que o animus e anima fazem oposição à sombra, mas para Carl Jung, essas instâncias psíquicas formam um par de opostos com a persona.
Para exemplificar em Animus e Anima, Emma Jung diz:
“Ele entende aí um complexo funcional que se comporta de forma compensatória em relação à personalidade externa, de certo modo uma personalidade interna que apresenta aquelas propriedades que faltam à personalidade externa, consciente e manifesta. São características femininas no homem e masculinas na mulher que normalmente estão sempre presentes em determinada medida, mas que são incômodas para a adaptação externa ou para o ideal existente, não encontrando espaço algum no ser voltado para o exterior.”
A persona é uma atitude habitual que o ego adota para se relacionar com o mundo externo. É uma máscara que o cada indivíduo usa para se adaptar ao meio em que se encontra. Sem ela o convívio social seria impossível.
Já a anima e o animus são complexos funcionais que se concentram na adaptação do ego com o mundo interior, ou para ser mais exata com o inconsciente coletivo.
Portanto, a persona é a ponte entre o ego e o mundo externo, assim como anima e animus são pontes entre o ego e a psique mais profunda. Formando assim um par de opostos.
Entretanto, apesar de anima e animus possuírem semelhanças em suas funções existem diferenças estruturais entre eles.
Para uma melhor distinção entre o papel da anima e do animus está em Animus e Anima, onde Emma Jung diz,
“O papel de transmitir conteúdos inconscientes, no sentido de torná-Ios visíveis, recai acima de tudo sobre a anima. Ela ajuda na percepção de coisas que de outra maneira permanecem no escuro.”
“No animus, entretanto, a tônica não se encontra na percepção pura e simples - como foi dito, isso já foi concedido ao espírito feminino desde sempre -, mas sim, de acordo com o ser do logos, no conhecimento e especialmente na compreensão. O que o animus tem a transmitir é mais o sentido que a imagem.”
Um dos riscos de qualquer componente psíquico é o da possessão. E isso não é diferente com o animus, que por sua vez pode sobrepujar a consciência da mulher e dominar o seu ego.
Essa problemática gerada pela possessão do animus é pouco explorada na literatura por Carl Jung. Esse conceito foi bem desenvolvido posteriormente, por Emma Jung em sua obra Anima e Animus e também por Marie Louise Von Franz em seus estudos dos contos de fada. Esses estudos vão ser apresentados logo abaixo.
No momento que a mulher passa a ser “possuída” por seu animus ela irá apresentar um “problema de animus”. E quando isso ocorre à mulher ela se torna irritante para aqueles com quem convivem. Pois seu animus apresenta o caráter de um homem inferior o que a torna arrogante e prepotente, mesmo que ela não queira transparecer isso.
Em O mapa da alma, Murray Stein, diz:
“Por mais que ela possa querer ser receptiva e íntima, não consegue sê-lo porque o seu ego está sujeito a essas invasões de energias demolidoras que a transformam em tudo, menos na pessoa amável e gentil que gostaria de ser.”
 Portanto, o animus leva a mulher a ter opiniões insensatas e obstinadas, ela fica cheia de lugares comuns. Suas opiniões não exprimem o essencial, só conceitos vazios e destituídos de sentido. É como se estivesse tomada por um juiz arbitrário, e tentar convencê-la de que suas opiniões não possuem fundamento é apenas dar murro em ponta de faca.
O animus representa o inconsciente da mulher. Não que o inconsciente possua essas características irritantes, porém na personificação do animus essas características desagradáveis irão aparecer na consciência da mulher.
Além disso, um ponto importante é que ao contrario da anima que invade o homem com humores e uma sentimentalidade baixa, a mulher é dominada pela frieza. Um caráter masculino inferior a torna brutal, rude. Ela se torna determinada, porém não de uma forma positiva, mas de uma forma obsessiva.
Em, O caminho dos sonhos, Von Franz descreve:
“Quando uma mulher fica possuída pelo animus, o caráter feminino do seu rosto desaparece, seus olhos e a expressão de sua boca tornam-se rígidos. Noto que quando caio no animus levanto os ombros como quem se prepara para um combate. Quando faço isso, digo para mim mesma: "Opa; ôpa, pare e relaxe."”

Outra característica do animus é que ele costuma levar a mulher a desvalorizar tudo o que provém do inconsciente, ocasionando uma vida consciente muito pobre, obrigando-a, assim, a viver de uma maneira bem abaixo de sua real capacidade.
Na verdade, nessa mulher, a arrogância e a humilhação irão se entrelaçar. Quanto mais humilhada, mais arrogante ela se tornará.
Em O Homem e seus símbolos, vemos essa descrição:
“Uma estranha passividade, uma paralisação de todos os sentimentos ou uma profunda insegurança que pode levar a uma sensação de nulidade e de vazio é, às vezes, o resultado de uma opinião inconsciente do animus. No mais intimo de uma mulher murmura o animus: "Você não tem salvação. Para que lutar? Não vale a pena realizar nada. Não adianta querer fazer alguma coisa. A vida nunca há de mudar para melhor."
Esse aspecto paralisante do animus é reforçado pelo fato de o animus muitas vezes ser representado como um arauto da morte tirando toda a vida produtiva da mulher e afastando-a da existência humana.
Aspecto do animus é muitas vezes é apresentado nos contos e nos mitos como o caçador e o guerreiro, ou seja, aquele que possui a propensão a matar. Ou seja, o animus pode matar a vida interior e produtiva da mulher.
Heatthcliff - exemplo na literatura de um animus negativo

Além disso, a mulher dominada pelo animus possui uma atitude jocosa e critica em relação aos homens, afastando qualquer possibilidade de relacionamento.
Outro fato digno de nota é que o animus, em geral, vê as coisas tortas e muitas vezes de forma imprecisa. Cegando a mulher para os tesouros do inconsciente e envenenando as opiniões dela.
Essas opiniões vão diretamente ao inconsciente das pessoas, infectando o ar com uma nuvem de veneno. A mulher, então se torna intoxicante para os que convivem com ela.
Em, A Interpretação dos contos de fada temos um panorama dessa situação:
“Dificilmente podemos contradizer uma opinião do animus porque em geral é uma opinião certa; no entanto, raramente enquadra-se numa determinada situação individual. É uma opinião que parece razoável, mas que está fora de propósito.”
Essa atmosfera intoxicante leva a mulher a atrair hostilidade para si mesma que ela julga ser gratuita.
Não há escolha para essa mulher, é extremamente doloroso para ela viver sendo hostilizada, por isso ela começa a questionar a irritação das outras pessoas e a questionar-se. Só se questionando ela poderá reconhecer que parte de sua personalidade ainda está inconsciente e não desenvolvida.
Mas a irritação das pessoas ocorre, pois essa mulher alterna ora entre atitudes agressivas e ora em um estado de extrema passividade, se tornando distraída e adormecida para a vida, parecendo que não está conectada com o que está acontecendo ao seu redor.
De acordo com Marie Louise Von Franz, “tais mulheres fazem viagens maravilhosas com seu animus-amante e vivem submersas nesse amor com o animus, numa espécie de "sonhar-acordado", sem ter disso clara consciência”.
Outra característica de mulher possuída pelo animus é a de se remoer em remorso. Ela se culpa por suas falhas, por suas omissões e pelo que podia ter sido feito. Navegando em um mar de falsos sentimentos de culpa e de completa esterilidade. Mergulhada em um sentimento desesperador de ter destruído, os próprios projetos e de ter perdido sua vida por completo.

Outro enfoque pertinente nessa problemática do animus se refere a solidão, a pobreza e a fome. Conforme apontado por Von Franz em A Interpretação dos contos de fada:
“(...) Solidão, pobreza e fome são enfocados, típicos estados resultantes da possessão do animus. A atitude de uma mulher, em grande escala, condiciona os eventos que ocorrem com ela.
(...) A fome também é típica. A mulher necessita da vida, de relacionar-se com pessoas e de participar numa atividade significativa. Parte de sua fome advém da intuição que ela tem de suas atitudes adormecidas e não utilizadas. O animus contribui para a sua inquietude e então ela nunca está satisfeita; é preciso sempre fazer mais por uma mulher possuída pelo animus. Não percebendo que o problema é interior, tais mulheres acham que se elas somente pudessem sair mais, pudessem gastar mais dinheiro ou, ainda, se tivessem mais amigos, sua sede de vida seria saciada.”
E essa pobreza e fome podem significar a fome da alma, mas também podem ser literais. A mulher pode realmente passar fome.
Agora se pode imaginar o quanto é difícil se relacionar com uma mulher nesse estado. E quanto mais possuída por seu animus, mais ela irá afastar as pessoas do seu convívio. Principalmente os homens, diante dos quais ela se sente estranha, pois seu animus não permite que sua feminilidade natural flua, levando a mulher a relações afetivas sem paixão genuína. Ela pode ser vista apenas como um objeto descartável, pois o animus constantemente degrada sua feminilidade.
Se ela consegue estabelecer uma relação será extremamente reivindicativa, levando o homem à loucura.
Outra característica que a afasta de qualquer contato humano é o fato de tal mulher nunca pensar que se passa algo errado com ela, ela tem certeza que todos os outros estão errados, pois suas convicções são absolutas, valiosas, necessárias e ela se apega a isso com unhas e dentes. Não há como mudá-las. E assim se afasta do contato humano, se tornando cada vez mais o homem inferior que habita seu inconsciente.
A falta de definição em seus propósitos mais importantes de vida também faz parte dessa problemática. A mulher nesse estado, mesmo sendo extremamente detalhista, quando confrontada a respeito de seus objetivos mais profundos simplesmente não consegue defini-los. Um estado de dormência a apodera e a intuição e projeção para o futuro não flui em sua psique. Ela está presa ao seu animus naquilo que não é essencial para a sua vida e seu desenvolvimento.
Esse aspecto de prisão e morte se manifesta também em outro comportamento extremamente irritante que é o da curiosidade mórbida, principalmente quando se refere aos processos do inconsciente.
É sabido que durante o processo de análise, muitos conteúdos precisam de tempo para se tornar conscientes. Uma conscientização prematura pode atrapalhar todo o processo. Mas um espírito espezinhador e inquisitivo toma conta da mulher se expressando em uma curiosidade selvagem e a levando a fazer aquilo que é desnecessário.
Em A Interpretação dos contos de fada, temos um quadro mais claro desse estado:
“Aqui também aparece o tema do perigo de uma iluminação prematura. Não se pode querer saber intelectualmente tudo o que ocorre na psique nem querer definir e categorizar a qualquer custo todos os acontecimentos interiores; é preciso dobrar a própria curiosidade e simplesmente esperar.
Somente uma pessoa forte é capaz de controlar a própria impaciência e deixar o jogo se desenrolar sem olhar; por outro lado, uma consciência mais fraca quer ler o sonho interpretado imediatamente, pois teme a incerteza e a obscuridade da situação.”

O caráter de “homem inferior” se deve ao fato da mulher ter ignorado o seu inconsciente e não devido ao fato de ser feminina. Estudar, trabalhar e fazer atividades ligadass ao que se costuma denominar “masculino” não garante que a mulher não será dominada por essa figura do inconsciente.
O animus é o seu inconsciente e aparece muitas vezes “contaminado” pela função inferior da mulher. Portanto ele pede para ser ouvido, pois ele possui uma riqueza inestimável que foi ignorada.
O que ele quer é lealdade. Mas uma lealdade com os processos psíquicos. Ele quer vir para a realidade, ele pede algo à mulher. Ele quer viver e a mulher deve reconhecê-lo e permitir que ele viva na realidade.
Durante a primeira parte da vida a mulher buscará com seu ego feminino suas realizações no mundo. Sejam elas o casamento, a maternidade, o trabalho. Mas uma hora esse ego será confrontado por essa figura, seu inconsciente lhe enviará o recado de que é necessário ouvi-lo.
Se não houver esse confronto o processo de individuação ficará bloqueado, e a ponte para o inconsciente, representada por esse masculino será interditada. A vida se tornará vazia e sem sentido.
Von Franz, em O caminho dos sonhos exemplifica:
“O efeito da pressão do animus pode levar a mulher a uma feminilidade mais profunda, fazendo com que ela aceite o fato de que está possuída pelo animus e que empreenda algo a fim de trazer o seu animus para a realidade. Se ela lhe fornece um campo de ação — ou seja, se ela assume algum campo de estudo em especial ou faz algum trabalho masculino — isto pode mantê-lo. Ao mesmo tempo seu sentimento será revivificado e ela se voltará às atividades femininas.”

Não me refiro aqui à feminilidade estereotipada, até porque o feminino não se limita apenas a maternidade e a maternagem, mas a uma grandeza de sentimentos. Devido às oscilações hormonais, o feminino sempre possuiu uma sabedoria e uma compreensão do corpo que o masculino não compreende. A mulher sempre esteve em um contato maior com o irracional e com as emoções do que o homem.
Esse campo de ação é muitas vezes uma atividade que Jung definia como atividade do espírito. É comum as mulheres nesse momento crucial de embate com o inconsciente voltarem a estudar, por exemplo. No meu caso, me voltei para a escrita e a colocação dos meus pensamentos na realidade, para dar forma ao espírito que habita meu inconsciente.
O grande perigo, em qualquer situação vinda do inconsciente, é não reconhecer essa realidade. O não reconhecimento do animus implica em domínio da consciência e despersonalização da mulher. Ela deixa de ser ela mesma.
Quando há esse reconhecimento e a mulher o deixa participar do seu mundo dando a possibilidade consciente de expressão na realidade, a possessão acaba e o animus pode tornar-se um companheiro interior precioso que vai contemplá-la com uma série de qualidades masculinas como a iniciativa, a coragem, objetividade e a sabedoria espiritual.
Não que a mulher não possua essas qualidades em si. Mas essas qualidades irão se manifestar de forma mais assertiva, sem trazer os transtornos decorrentes da inconsciência.
A mulher passa a deixar a vida fluir e passa a ter confiança no processo da vida. Essa autoconfiança passa refletir em sua personalidade e ela se torna um exemplo para os outros devido a sua sabedoria, sem a “verborragia” anterior causada por sua possessão, mas com uma sabedoria que transcende as palavras.
Não é processo fácil. Pelo contrário, ele é um processo doloroso que exige sacrifício. A mulher deve sacrificar sua necessidade de controle, suas opiniões e convicções. Somente quando o ego reconhece que existe uma força superior a si é que ele pode entrar em contato com seu inconsciente e permitir que a vida flua. Assim, no caso especifico da mulher, o animus pode fazer seu papel de psicopompo trazendo ao ego as informações necessárias para o seu desenvolvimento.
Hermes - Deus grego psicopompo

A mulher, então, se torna receptiva as ideias criativas e empreendedoras de seu lado masculino. Ela terá audácia para novos empreendimentos que nem imaginava anteriormente em sua vida. Uma coragem tranquila e segura fará parte de sua personalidade, sem querer mais impor sua vontade ao mundo e aos outros. Ela simplesmente sabe que será amparada e que está de acordo com o fluxo da vida. É ai que reside a sua profundidade espiritual.
Em A interpretação dos contos de fada, Von Franz aponta uma saída para o confronto com o animus:
“Quando uma pessoa com uma consciência desenvolvida sente que o animus nela contido está pleno de uma atividade muito significativa, é inútil tentar fugir ou mesmo procurar compreender intelectualmente o seu significado. Ao invés disso, a pessoa deveria usar a energia proveniente do animus de uma maneira adequada, empreendendo alguma atividade masculina, tal como o trabalho intelectual criativo; se assim não for, a pessoa é dominada e possuída pelo animus.”
Ela se torna enfim flexível, suas opiniões não são mais absolutas. Ela compreende que não há certezas na vida, ela começa a questionar o que anteriormente ela tomava com verdade absoluta. Suas bases são abaladas.
É nesse momento que se torna apta a aceitar e a bancar a sua subjetividade sendo capaz de receber as manifestações do Self e acolhe-las, pois seu animus agora é capaz de auxiliá-la na compreensão dessas manifestações e do sentido de sua existência.



Bibliografia
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______ Psicologia e religião, Petrópolis: Vozes, 1978.

JUNG, C., VON FRANZ, M. L., HENDERSON, J. L., JACOBI, J. & JAFFÉ, A. O homem e seus símbolos, 23 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.

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STEIN, M. O mapa da alma. 5 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. São Paulo: Paulus, 2005.

VON FRANZ, M. L; BOA, F. O caminho dos sonhos. São Paulo: Cultrix, 1988.