quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Perder ou não perder o controle?


 por Hellen Reis Mourão


Quando nascemos nosso ego leva muitos anos para se formar, e é imprescindível para o processo de individuação, que durante o que Jung chamou de primeira etapa da vida, nosso ego se desenvolva e se firme no mundo. Uma atitude egóica é necessária nesse momento, pois quando atingimos o nosso ápice do crescimento e quando nosso corpo funciona a todo vapor precisamos começar a segurar as rédeas de nossa vida e assumir o controle dela, mesmo que isso seja ilusório. Temos uma necessidade imperiosa disso. As escolhas profissionais e amorosas devem ser feitas. Casar ou não casar? Com quem e quando? Qual profissão seguir? E se não fizermos essas escolhas conscientemente a vida vai nos cobrar posteriormente.
Mas após as escolhas terem sido feitas, após sentirmos que nossa vida está em nossas mãos, surge uma nova etapa.
Algo em nós muda. Nosso corpo já começa a diminuir o seu vigor. Em alguns pode até surgir alguns cabelos brancos. Começamos a perder entes queridos como mãe, pai, avós. E nesse instante tudo parece desmoronar.
Então, no que Jung denominou segunda metade da vida, onde começa o questionamento do sentido da vida, é necessário um sacrifício. O sacrifício de nossa necessidade de controle e surge a imperiosa redenção a um poder maior, que é o poder do Self. Precisamos reaprender a aprender, mas agora com o inconsciente.
Essa segunda metade da vida atualmente ocorre em épocas diferentes para as pessoas. Não há uma fórmula. Para algumas pessoas pode ocorrer aos 30 ou 40. E não necessariamente todos chegam a ela. Algumas pessoas com 50, 60 anos podem nunca entrar nessa etapa. Elas estão ainda fixadas em realizações mesmo que seu corpo já lhe diga ao contrário.
Nosso ego é corporal. Quando nascemos o espírito que nos anima encarna em nosso corpo animando um ego. Quando morremos esse corpo irá desaparecer juntamente com esse ego. Ele nunca mais voltará a existir. Por isso Jung diz que cada ser humano é único e é por esse motivo que quem sofre o processo de individuação é o ego.
Então, pelo fato de que um dia deixará de existir, o ego possui uma necessidade enorme de controle. Nós temos muito medo de perder o controle, pois sabe que vai morrer desaparecer.
O corpo envelhece, mas nosso espírito é atemporal. E isso gera muita dor e desapontamento. Entretanto, se não aceitamos esse destino inevitável corremos o risco de nos tornarmos Dorians Grays perdidos e desesperados na busca da eterna juventude e beleza. O espírito precisa aprender com esse corpo e esse ego, nessa vida.
Quando desencarnamos o espírito (ou alma, não importa a designação), retorna ao todo levando o aprendizado. Esse espírito irá reencarnar ou não, dependendo da necessidade. No todo não há opostos, não há bem e mal, não há masculino e feminino. Portanto lá deixaremos de ser homem ou mulher e estaremos na totalidade.
Carl Jung, em Cartas, 01-02-1945, Vol. I relata sua experiência de quase morte. Nesse relato podemos ter um retrato da totalidade e do que podemos encontrar no pós vida. É quase impossível colocar em palavras essa experiência, mas algo pode ser apreendido pela sua leitura. Coloco a seguir alguns trechos.

“Esta experiência me deu uma sensação de extrema pobreza, mas ao mesmo tempo de grande plenitude. Não havia mais nada que eu quisesse ou desejasse. Eu existia de forma objetiva, eu era o que eu tinha sido e vivido. No início, a sensação de aniquilação predominou, de ter sido assaltado ou saqueado, mas, de repente, aquilo não teve nenhuma conseqüência.
Tudo parecia ter passado; o que restou foi um “fato consumado”, sem qualquer referência ao que tinha sido. Não havia mais qualquer arrependimento de que algo havia sido subtraído ou tirado. Pelo contrário: eu tinha tudo que eu era, e isso era tudo.”

 “Vista de fora e enquanto estivermos do lado de fora, a morte é a coisa mais terrível. Mas, uma vez dentro, experimenta-se um sentimento tão forte de totalidade, paz e realização que não se deseja voltar. Realmente, durante o primeiro mês após a primeira visão, sofri de negras depressões porque sentia que estava me recuperando. Era como se estivesse morrendo. Eu não queria viver e retornar a esta vida fragmentária, restrita, estreita e quase mecânica, onde se estava sujeito às leis da gravidade e coesão, preso num sistema tridimensional, turbilhonado com outros corpos na torrente impetuosa do tempo. Lá havia plenitude, significando satisfação, movimento eterno (não movimento do tempo).”

E ai nos perguntamos, se vamos morrer mesmo qual é o sentido de existirmos? Porque estamos aqui? Qual o sentido disso tudo?
Talvez não haja resposta, ou talvez simplesmente não tenhamos que saber a resposta.
O que devemos apenas lembrar é que o Self precisa desse mundo tridimensional para se desenvolver. Sim, por mais paradoxal que pareça, o Self se desenvolve por meio da vida humana.
E o ego em sua pequenez deve aprender a viver cada momento sem querer controlar os acontecimentos. Ele deve se tornar flexível e aberto ao aprendizado vindo do inconsciente. Afinal de contas é a sua única existência, mesmo a despeito da pluralidade de encarnações, esse ego não irá mais existir.
Levando novamente ao tema do sacrifício. Isso é o que o Self exige de nós para que a nossa vida terrestre tenha mais plenitude. Quanto mais o ego tenta controlar os acontecimentos, menos vida ele tem, e o tempo cronológico passa rápido. Quando nos damos conta é hora da morte e vivemos uma vida incompleta.
Quando deixamos de querer controlar tudo, deixando de querer que as coisas aconteçam do nosso jeito, a vida flui.
Claro que até atingirmos esse estado de fluidez e conexão com a vida, sofremos muito. Não é fácil deixar o controle, principalmente em nossa sociedade pautada em realizações egóicas. E também não pretendo com isso dizer que devemos entrar em um estado de passividade e não fazer mais nada.
Na realidade esse é um estado de estar em sintonia com a vida. Com vontade de aprender. Continuar fazendo as coisas rotineiras, mas em estado de receptividade para o aprendizado do Self. Fugir da realidade também não é a saída.
É o estar presente, corpo e mente no agora. A ansiedade é geralmente causada porque nós nunca estamos presentes em nós mesmos. Nosso corpo está no aqui agora, mas nossa mente navega para o passado e futuro.
E sair do controle é estar presente. O minuto que passou já não volta mais e o futuro é uma incógnita.
Controle é quando queremos mudar o passado e tentar prever nosso futuro. Mas a vida só acontece no agora. E o ego só acontece no presente. Ele não está nem no passado, nem no futuro. O Self sim é atemporal, não tem tempo nem espaço. Mas pretender se igualar a ele leva a inflação e a conseqüente derrota humilhante, isso quando ele não nos destrói.
Existem vários exemplos desse comportamento na mitologia, o mito de Ícaro é o mais famoso deles. Pretendendo chegar ao sol ele se queimou. Voou alto demais, não se manteve na realidade do presente.
Ter paciência nesse estado é imprescindível, uma vez que aos poucos o Self vai revelando sua intenção e o sentido. De repente o quebra – cabeça se monta. Mas você só saberá quando ele se revelar quando estiver presente.
Como diz Eckhart Tolle: "As soluções sempre aparecem quando saímos do pensamento e ficamos em silêncio, absolutamente presentes, ainda que seja só por um instante".