quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Posseidon e o poder das emoções





 Por: Hellen Reis Mourão

Na mitologia grega, Posídon também conhecido como Possêidon, assumiu o estatuto de deus supremo do mar, conhecido pelos romanos como Netuno possivelmente tendo origem etrusca como Nethuns. Também era conhecido como o deus dos terremotos. Os símbolos associados à Posídon com mais freqüência eram o tridente e o golfinho.
A origem de Posídon é cretense, como atesta seu papel no mito do Minotauro. Na civilização minóica era o deus supremo, senhor do raio, atributo de Zeus no panteão grego, daí o acordo da divisão de poderes entre eles, cabendo o mar ao antigo rei dos deuses minóicos.
Um dos filhos de Cronos e Reia, foi regurgitado pelo pai Cronos juntamente com seus irmãos Héstia, Deméter, Hera, Zeus e Hades.
Tinha como representantes o cavalo e o touro, simbolizando instintos, a sexualidade e a fertilidade (todas as investidas sexuais dele geraram filhos).
Possêidon representa o arquétipo da vingança e do ressentimento (vide a perseguição de dez anos contra Odisseu). Possêidon era implacável quando contrariado, onde ele mostrava sua face destrutiva e regressiva.
Deus dos mares, dos navegantes e dos maremotos. Tinha, assim como o mar, um temperamento instável e vingativo. Sendo, portanto, o representante do inconsciente, vasto, misterioso e imprevisível.
Possêidon é também o arquétipo das emoções, possuindo a capacidade de penetrar no reino do inconsciente onde se localizam os nossos afetos mais profundos e aterrorizantes.
A lenda do Minotauro ilustra bem isso. Após assumir o trono de Creta, Minos passou a combater seus irmãos pelo direito de governar a ilha. Rogou então a Possêidon pedindo que lhe enviasse um touro branco como a neve, como um sinal de aprovação ao seu reinado. Uma vez com o touro, Minos deveria sacrificá-lo em homenagem ao deus, porém decidiu mantê-lo devido a sua imensa beleza. Como forma de punir Minos, a deusa Afrodite fez com que Pasífae, mulher de Minos, se apaixonasse perdidamente pelo touro. Pasífae pediu então ao artesão Dédalo que lhe construísse uma vaca de madeira na qual ela pudesse se esconder no interior, de modo à copular com o touro branco. O filho deste cruzamento foi o monstruoso Minotauro.
Parsífae cuidou dele durante sua infância, porém eventualmente ele cresceu e se tornou feroz; sendo fruto de uma união não-natural, entre homem e animal selvagem, ele não tinha qualquer fonte natural de alimento, e precisava devorar homens para sobreviver. Minos, após aconselhar-se com o oráculo em Delfos, pediu a Dédalo que lhe construísse um gigantesco labirinto para abrigar a criatura, localizado próximo ao palácio do próprio Minos, em Cnossos. O Monitauro foi posteriormente morto pelo herói Teseu.
Mais uma vez aqui vemos o caráter vingativo e rancoroso do Deus. Entretanto, o que chama a atenção é que Possêidon representa, por meio do touro e do Minotauro a instintividade mais crua e mais escondida no ser humano. Aquela que não ousamos nomear, nem falar e que escondemos em nossos labirintos.
No Tarot Mitológico, de Liz Greene e Juliet Shaman-Burke, a lâmina A Torre, é representada pelo labirinto do Minotauro e um Posseidon irado destruindo-a. Sobre ela vale a pena destacar o seguinte comentário.
“A Torre partida pelo deus retrata a destruição de antigos padrões. Ela é a única estrutura construída pelo homem presente nos Arcanos Maiores, e exatamente por isso representa as estruturas tanto internas como externas que construímos para servirem de defesa contra a vida e como esconderijo para os aspectos negativos e menos agradáveis de nossa personalidade.
De um modo geral, a Torre é a imagem das fachadas socialmente aceitáveis que adaptamos para esconder nossa fera interior. Ela é a estrutura dos falsos valores ou daqueles já superados, daquela postura diante da vida que não se origina do ser como um todo, mas que vestimos como a roupa de um determinado personagem de uma peça, apenas para impressionar a platéia. A Torre também representa as estruturas que construímos no mundo externo para completar o nosso eu incompleto.”
Portanto, quando esse arquétipo é ativado em nossa psique, pode trazer a tona afetos reprimidos inundando a consciência e tomando o ego. As emoções, representadas pelo mar de Posseidon podem ser destrutivas, mas também podem trazer a tona sentimentos profundos reprimidos para que possam ser trabalhados à luz da consciência, expandindo nossa visão sobre nós mesmos e nos tornando mais humildes e humanos.

Cronos e a passagem do tempo




 Por: Hellen Reis Mourão
 Cronos é a divindade suprema da segunda geração de deuses da mitologia grega, correspondente ao deus romano Saturno.
Deus da agricultura e também símbolo do tempo.
Filho de Urano, o Céu estrelado, e Gaia, a Terra, é o mais jovem dos Titãs.
Casou-se com sua irmã Réia e com ela teve seis filhos: Deméter, Héstia, Poseidon, Hades, Hera e Zeus.
Seu pai Urano, tão logo nasciam os filhos, devolvia-os ao seio materno, pois tinha medo de ser destronado por um deles. Gaia, então resolveu libertá-los e pediu aos filhos que a vingassem e libertassem do esposo. Todos se recusaram, exceto Cronos, que odiava o pai. Gaia, então lhe entregou uma foice e quando Urano se deitou, à noite, sobre a esposa, Crono cortou-lhe os testículos e os jogou no mar.
Com isso, após expulsar o pai, Cronos toma seu lugar.
Temendo uma profecia segundo a qual seria tirado do poder por um de seus filhos, ele passa a engoli – los ao nascerem. Assim comeu todos seus filhos exceto Zeus, que Reia conseguiu salvar enganando Cronos.
Grávida de Zeus, Réia fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Dicta, deu à luz o caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança, e o deus, de imediato, a engoliu.
Quando Zeus cresceu, iniciou uma longa e terrível guerra contra seu pai Cronos, solicitando para esse feito o apoio de Métis - a Prudência - filha do Titã Oceano. Esta ofereceu a Cronos uma poção mágica, que o fez vomitar os filhos que tinha devorado.
Zeus, então o expulsou do Olimpo, banindo-o com seus titãs aliados para o Tártaro, lugar de tormento, depois de uma guerra de dez anos que ficaria conhecida como titanomaquia. E assim como o pai simbolizava o tempo, ao derrotá-lo, Zeus tornou os deuses imortais.
Como arquétipo, Cronos representa a passagem do tempo, a velhice, as tradições. Nele encontramos as limitações da vida mortal.
É natural que um soberano com a idade seja substituído por um de seus filhos, entretanto Cronos não aceita bem a passagem do tempo e a perda da fertilidade e do poder, por isso engole seus filhos.
Ele somente encontra a sabedoria na velhice, quando é inevitavelmente expulso por Zeus e se torna um deus agrário. Porém isso ocorre de uma forma amarga.

Cronos, portanto representa o corpo físico, que envelhece de forma inexorável e ao mesmo tempo se rebela contra seu destino fatal.
Esse arquétipo nos diz que devemos aceitar nossa condição mortal e isso se dá por meio da separação dos pais e da infância. Aceitar a maturidade nos traz sabedoria. Somente assim podemos parar de fantasiar que virá alguém como num passe de mágica transformar a nossa vida em um aconchego eterno. E então, passamos a assumir a responsabilidade dos nossos atos e escolhas. A maturidade do espírito faz com que diminuamos as projeções.
Nosso lado adolescente, que não quer “crescer” irá se rebelar, porém, se aceitarmos isso poderemos evitar muitas amarguras e descontentamentos e então iremos encontrar a sabedoria.

As Moiras e o destino humano




 Por: Hellen Reis Mourão
Na mitologia grega as três Moiras, são as Deusas do Destino. Elas são personificação do destino individual de cada ser humano neste mundo e dos deuses também.
São originalmente, filhas da Noite (Nix) e concebidas sem pai.
Eram em número de três e se chamavam Cloto, Láquesis e Átropos, tendo cada uma função específica.
Cloto era a fiandeira, Láquesis a mediadora e Átropos a cortadora.
Dentro de uma caverna elas teciam o fio da vida de cada homem em uma roda e nenhum outro deus poderia interferir em seu trabalho, nem mesmo Zeus ousava se colocar entre elas.
As voltas da roda posicionam o fio do indivíduo em sua parte mais privilegiada (o topo) ou em sua parte menos desejável (o fundo), explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte de todos, sem exceção.
Conforme Junito Brandão no livro Mitologia Grega, vol1:
Originariamente, cada ser humano tinha a sua moîra, a saber, "sua parte, seu quinhão", de vida, de felicidade, de desgraça.
Impessoal e inflexível, a Moîra é a projeção de uma lei que nem mesmo os deuses podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem.

No Tarô Mitológico, de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene, o trunfo da Roda da Fortuna é representado pelas três Moiras.

A Roda da Fortuna é uma carta que simboliza os ciclos sucessivos da vida humana, como o movimento de ascensão e de queda. Assim como os pares de opostos presentes na existência humana como o bem e o mal, alegria e tristeza, vida e morte, o negativo e o positivo.
É uma carta de movimento, de mudança brusca de vida. Mudança essa desconhecida pelo sujeito.
Existe uma lei misteriosa que atua dentro de cada indivíduo que, por sua vez, determina as súbitas mudanças de vida tanto positivas como negativas, alterando todo o padrão de vida de cada um. E nem os deuses possuem o controle sobre isso (lembrando que nem Zeus ousava desafiá-las!).
Portanto, esse arquétipo vem nos lembrar que nós não possuímos controle sobre tudo em nossas vidas e muitas vidas uma tragédia nos acomete sem nenhuma explicação. É simplesmente o destino. Estamos na posição mais baixa da roda.
Para o ego, acostumado a buscar explicações para tudo, é extremamente desconfortável admitir isso, pois somente nos damos conta de sua atuação por meio dos elementos externos, que chamamos de destino.
Esse arquétipo, portanto, nos remete à vivência de um outro que mora dentro de nós e que escolhe ir em direção a várias situações, pessoas e caminhos.

Aceitar esse outro e lembrar que ele faz parte de nós mesmos nos trará paz mediante as mudanças súbitas que se configurarão em nossas vidas. Afinal o destino não vem ao nosso encontro, somos nós que vamos ao encontro dele!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Roda da fortuna e o processo de individuação



 
O trunfo número X do Tarot, conhecido como a Roda da Fortuna, na versão mais antiga do Tarot de Marselha, mostra uma roda de seis aros (ou seja, em forma de mandala), sendo girada por duas figuras não humanas e com outra figura, que se assemelha a uma esfinge, sentada em seu topo, aparentemente imóvel.

A Roda se move incessantemente, com uma das figuras voltada para cima e a outra para baixo, simbolizando pares e opostos.

Portanto é uma carta que simboliza os ciclos sucessivos da vida humana, como o movimento de ascensão e de queda. Bem como os pares de opostos presentes em nossa existência humana como o bem e o mal, alegria e tristeza, vida e morte, o negativo e o positivo.

É uma carta de movimento, de mudança brusca de vida. Mudança essa desconhecida pelo sujeito

Portanto esse é o trunfo que simboliza o destino humano.

No Tarot Mitológico a Roda da Fortuna é representada pelas três Moiras, que são as Deusas do Destino na antiga Grécia. Sendo a personificação do destino individual, de cada ser humano neste mundo.

Conforme Brandão vol1 Petropolis 1986, ed Vozes
Originariamente, cada ser humano tinha a sua moira, a saber, "sua parte, seu quinhão", de vida, de felicidade, de desgraça.
Impessoal e inflexível, a Moira é a projeção de uma lei que nem mesmo os deuses podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem

São originalmente, filhas da Noite (Nix) e concebidas sem pai.

Eram denominadas Cloto, Láquesis e Átropos, tendo cada uma função específica. Cloto era a fiandeira, Láquesis a mediadora e Átropos a cortadora.


Dentro de uma caverna elas teciam o fio da vida de cada homem e nenhum outro deus poderia interferir em seu trabalho, nem mesmo Zeus ousava se colocar entre elas.

Portanto, a Roda da Fortuna representa uma lei misteriosa que atua dentro de cada individuo que, por sua vez, determina as súbitas mudanças tanto positivas como negativas, alterando todo o padrão de vida do indivíduo.

Somente nos damos conta da atuação da Roda da Fortuna por meio dos elementos externos, que denominamos destino.

Em uma análise psicológica, essa carta em sua potencialidade como arquétipo, pode ser associada a uma mandala com um centro fixo.

As mandalas foram objeto de estudo de Jung, sobre as quais ele diz:
“Como já foi dito, mandala significa circulo. Há muitas variações do tema aqui representado, mas todas se baseiam na quadratura do circulo. Seu tema básico é o pressentimento de um centro da personalidade, por assim dizer um lugar central no interior da alma, com o qual tudo se relaciona e que ordena todas as coisas, representando ao mesmo tempo uma fonte de energia.”

A figura da Roda da fortuna remete, portanto, ao processo de individuação.

Isso pode ser notado uma vez que, Jung descreve a individuação como um processo de Circumambulação do Self como o centro da personalidade.

Conforme o dicionário crítico Circumambulação:
“Significa não somente um movimento circular, mas também a marcação de uma área sagrada em torno de um ponto central. Psicologicamente, Jung a definia como uma concentração em um ponto, e a ocupação deste, concebido como o centro de um círculo.”

Ainda mais sobre a circumabulação.
Circumambulatio era um termo alquímico também usado para uma concentração no centro ou lugar da mudança criativa. O círculo definido ou temenos é uma metáfora para a contenção necessária durante a análise, a fim de se resistir às tensões produzidas pelo encontro de opostos e evitar uma ruptura e desintegração psicóticas conseqüentes.”

A Roda da Fortuna também nos mostra, por meio das duas figuras que sobem e descem que vivemos no mundo das dualidades, dos opostos.

Para ilustrar um pouco mais o pensamento da Roda e o processo de individuação, recorro ao exemplo da roda do Samsara do budismo tibetano.

Samsara pode ser descrito como o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos. E ela mostra que estamos presos ao mundo das ilusões.



No Budismo Tibetano, portanto, é a perpétua repetição do nascimento e morte, desde o passado até o presente e o futuro, através dos seis ilusórios reinos: Inferno, dos Fantasmas Famintos, dos Animais, Asura ou Demônios Belicosos, Ser humano, dos Deuses e da Bem-Aventurança. A menos que se adquira a perfeita sabedoria, ou seja, iluminado, não se poderá escapar desta roda da transmigração, ou Roda da Samsara. Aqueles que estão livres desta roda de transmigração são considerados lamas, iluminados (ou budas, em sânscrito).

Este ciclo de morte e renascimento da Roda do Samsara pode ser descrito, em termos psicológicos, como morte e renascimento do ego, levando a uma ampliação da consciência. O iluminado, portanto seria aquele que individuou, ou seja, ele ser já possui todos os opostos integrados dentro de sua psique, estando em um estado de transcendência

Portanto, o ego no processo da Roda da Fortuna deve se render a uma força maior que ele que é o Self. Ele não pode controlar o destino. As três Moiras, fiandeiras, estão a tecer a nossa vida e nem mesmo Zeus ousou desafiá-las.

O Self é o princípio unificador, a autoridade central e dono do destino humano. Ele é o centro e a circunferência.

Portanto, quando chegamos neste estagio da jornada onde encontramos a Roda da Fortuna a vida vai nos exigir que o Self seja integrado, reconhecido, realizado. Num processo de relação ego-Self incessante.

Referências
NUNES, M. F.R.C – Magia do Tarô – Livro da Autodescoberta. 4 edição Ed Rowena 2001 Rio de Janeiro
SHAMAN-BURKE, J. & GREENE, L. – O Tarô Mitológico. 27 edição Ed. Arx. São Paulo 2003.
Dicionário Crítico de Análise Junguiana: http://www.rubedo.psc.br/dicjung/aprerubd.htm