terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Roda da fortuna e o processo de individuação



 
O trunfo número X do Tarot, conhecido como a Roda da Fortuna, na versão mais antiga do Tarot de Marselha, mostra uma roda de seis aros (ou seja, em forma de mandala), sendo girada por duas figuras não humanas e com outra figura, que se assemelha a uma esfinge, sentada em seu topo, aparentemente imóvel.

A Roda se move incessantemente, com uma das figuras voltada para cima e a outra para baixo, simbolizando pares e opostos.

Portanto é uma carta que simboliza os ciclos sucessivos da vida humana, como o movimento de ascensão e de queda. Bem como os pares de opostos presentes em nossa existência humana como o bem e o mal, alegria e tristeza, vida e morte, o negativo e o positivo.

É uma carta de movimento, de mudança brusca de vida. Mudança essa desconhecida pelo sujeito

Portanto esse é o trunfo que simboliza o destino humano.

No Tarot Mitológico a Roda da Fortuna é representada pelas três Moiras, que são as Deusas do Destino na antiga Grécia. Sendo a personificação do destino individual, de cada ser humano neste mundo.

Conforme Brandão vol1 Petropolis 1986, ed Vozes
Originariamente, cada ser humano tinha a sua moira, a saber, "sua parte, seu quinhão", de vida, de felicidade, de desgraça.
Impessoal e inflexível, a Moira é a projeção de uma lei que nem mesmo os deuses podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem

São originalmente, filhas da Noite (Nix) e concebidas sem pai.

Eram denominadas Cloto, Láquesis e Átropos, tendo cada uma função específica. Cloto era a fiandeira, Láquesis a mediadora e Átropos a cortadora.


Dentro de uma caverna elas teciam o fio da vida de cada homem e nenhum outro deus poderia interferir em seu trabalho, nem mesmo Zeus ousava se colocar entre elas.

Portanto, a Roda da Fortuna representa uma lei misteriosa que atua dentro de cada individuo que, por sua vez, determina as súbitas mudanças tanto positivas como negativas, alterando todo o padrão de vida do indivíduo.

Somente nos damos conta da atuação da Roda da Fortuna por meio dos elementos externos, que denominamos destino.

Em uma análise psicológica, essa carta em sua potencialidade como arquétipo, pode ser associada a uma mandala com um centro fixo.

As mandalas foram objeto de estudo de Jung, sobre as quais ele diz:
“Como já foi dito, mandala significa circulo. Há muitas variações do tema aqui representado, mas todas se baseiam na quadratura do circulo. Seu tema básico é o pressentimento de um centro da personalidade, por assim dizer um lugar central no interior da alma, com o qual tudo se relaciona e que ordena todas as coisas, representando ao mesmo tempo uma fonte de energia.”

A figura da Roda da fortuna remete, portanto, ao processo de individuação.

Isso pode ser notado uma vez que, Jung descreve a individuação como um processo de Circumambulação do Self como o centro da personalidade.

Conforme o dicionário crítico Circumambulação:
“Significa não somente um movimento circular, mas também a marcação de uma área sagrada em torno de um ponto central. Psicologicamente, Jung a definia como uma concentração em um ponto, e a ocupação deste, concebido como o centro de um círculo.”

Ainda mais sobre a circumabulação.
Circumambulatio era um termo alquímico também usado para uma concentração no centro ou lugar da mudança criativa. O círculo definido ou temenos é uma metáfora para a contenção necessária durante a análise, a fim de se resistir às tensões produzidas pelo encontro de opostos e evitar uma ruptura e desintegração psicóticas conseqüentes.”

A Roda da Fortuna também nos mostra, por meio das duas figuras que sobem e descem que vivemos no mundo das dualidades, dos opostos.

Para ilustrar um pouco mais o pensamento da Roda e o processo de individuação, recorro ao exemplo da roda do Samsara do budismo tibetano.

Samsara pode ser descrito como o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos. E ela mostra que estamos presos ao mundo das ilusões.



No Budismo Tibetano, portanto, é a perpétua repetição do nascimento e morte, desde o passado até o presente e o futuro, através dos seis ilusórios reinos: Inferno, dos Fantasmas Famintos, dos Animais, Asura ou Demônios Belicosos, Ser humano, dos Deuses e da Bem-Aventurança. A menos que se adquira a perfeita sabedoria, ou seja, iluminado, não se poderá escapar desta roda da transmigração, ou Roda da Samsara. Aqueles que estão livres desta roda de transmigração são considerados lamas, iluminados (ou budas, em sânscrito).

Este ciclo de morte e renascimento da Roda do Samsara pode ser descrito, em termos psicológicos, como morte e renascimento do ego, levando a uma ampliação da consciência. O iluminado, portanto seria aquele que individuou, ou seja, ele ser já possui todos os opostos integrados dentro de sua psique, estando em um estado de transcendência

Portanto, o ego no processo da Roda da Fortuna deve se render a uma força maior que ele que é o Self. Ele não pode controlar o destino. As três Moiras, fiandeiras, estão a tecer a nossa vida e nem mesmo Zeus ousou desafiá-las.

O Self é o princípio unificador, a autoridade central e dono do destino humano. Ele é o centro e a circunferência.

Portanto, quando chegamos neste estagio da jornada onde encontramos a Roda da Fortuna a vida vai nos exigir que o Self seja integrado, reconhecido, realizado. Num processo de relação ego-Self incessante.

Referências
NUNES, M. F.R.C – Magia do Tarô – Livro da Autodescoberta. 4 edição Ed Rowena 2001 Rio de Janeiro
SHAMAN-BURKE, J. & GREENE, L. – O Tarô Mitológico. 27 edição Ed. Arx. São Paulo 2003.
Dicionário Crítico de Análise Junguiana: http://www.rubedo.psc.br/dicjung/aprerubd.htm