sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Frozen





 Por: Hellen Reis Mourão

Nesse fim de ano resolvi escrever sobre o conto de fadas moderno que tem mexido com a psique das meninas (e dos adultos também) em todo mundo: Frozen.
O filme é levemente baseado no conto de fadas A Rainha da Neve, o qual já analisei aqui no Blog, e relata a história de duas irmãs filhas do rei de Arendele: Elza e Anna.
As duas possuem personalidades diferentes. Anna é alegre, extrovertida e busca encontrar o amor de sua vida; Elza é comedida, introvertida e quer aprender a lidar com seus medos.

As duas irmãs do filme apresentam atitudes bem marcantes e opostas que exemplificam claramente aquilo que Carl Jung denominou de introversão e extroversão.
Conforme Carl Jung (1991), extroversão e introversão mostram tipos gerais de atitudes, e elas se distinguem pela direção de interesse e movimento da libido, ou seja, da energia psíquica. Em outras palavras, a atitude da consciência será determinada pela direção de interesse em relação ao objeto.
Por objeto, entendemos tudo aquilo que não é o sujeito e que não se liga a pessoa e seu mundo interior, seus desejos e seus medos, incluindo pessoas e estímulos externos.
Os introvertidos são aqueles que hesitam, recuam e enxergam o contato com o objeto com receio e como se fosse algo pesado, massacrante. O mundo externo os desgasta e isso faz com que ajam de forma a atribuir ao objeto um superpoder.
Já os extrovertidos partem rápido e de forma confiante ao encontro do objeto. Aparentemente o objeto tem para ele uma importância enorme, mas no fundo o objeto não tem tanto valor assim e por isso é necessário aumentar a sua importância.
Resumindo, conforme Silveira (1981) na extroversão a libido fui sem embaraços ao encontro do objeto. Na introversão a libido recua diante do objeto, pois este parece ter sempre em si algo de ameaçador que afeta intensamente o individuo.
Anna é extrovertida, jovial, se intromete em tudo e vive em busca relacionamentos, principalmente com sua irmã a introvertida Elza para qual o mundo externo é assustador. Sua personalidade é mais grave e desconfiada que a de Anna. Seus medos a assolam levando-a a reclusão. Ela busca se precaver de qualquer dispêndio de energia e acredita que o mundo externo enxerga seus dons como malignos.
Esse filme também vem ilustrar bem o que Jung diz sobre o fato das atitudes em relação ao objeto serem funções de adaptação. Cada uma das irmãs se adaptou ao meio em que vivia forma particular e individual.
Além disso, o fato das duas virem da mesma família mostra que as atitudes em relação ao objeto não são escolhas conscientes, mas inconscientes e instintivas.
Elza possui um dom especial – o de congelar tudo a sua volta. Apesar de ser poderosa, ela não possui controle sobre seus poderes o que a torna perigosa para quem convive com ela, principalmente para sua irmã Anna.
Mediante esse fato os pais da menina decidem isolá-la do mundo.
Os pais de Elza fazem aqui o que a maioria dos pais diante de um filho “diferente” faz. Mesmo com boas intenções, muitos preferem isolar a criança ao invés de auxiliá-la com seus dons.
Essa atitude fez com que Elza reprimisse quem ela é realmente, o que a tornou mais perigosa ainda, pois seu poder não está sob controle.
Quando os pais das meninas morrem, Elza por ser a mais velha deve assumir como o trono como rainha.
Nesse instante a moça que esteve trancafiada tem de sair e enfrentar seus temores.
A morte dos pais mostra um aspecto simbólico importante para o desenvolvimento da psique. Enquanto as leis e normas impostas pela família e sociedade não morrerem dentro de nós, não é possível atender o chamado da própria alma.

Elza então de vê diante de seus poderes incontroláveis e o medo toma conta de seu ser. Diante disso, ela foge para as montanhas e ganha a liberdade. Entretanto ela não está livre, pois ainda não tem controle sobre seus poderes.
A verdadeira liberdade só ocorre quando assumimos a responsabilidade por nós mesmos, pelos nossos dons e defeitos.
É claro que a solidão nos auxilia a confrontar nossos medos e a entrar em contato com nosso eu mais profundo. Todavia, no processo de individuação devemos nos tornar nós mesmos, mas sem se isolar do mundo. O individuo deve colocar seus dons individuais a serviço do coletivo.
E nesse instante surge Anna se intrometendo e perturbando a aparente paz da irmã. Ela é seu aspecto sombrio, extrovertido, que a chama para a responsabilidade e que a tira do seu papel de vitima.

A vítima sempre possui dentro de si o algoz. Enquanto Elza se coloca como vitima perseguida, seu algoz interno acaba machucando aqueles que ama.
Elza além de introvertida se assemelha as deusas virgens da Mitologia Grega. Por virgem se entende que a deusa era completa em si mesma e não busca relacionamentos amorosos para se completar. São elas: Atena, Ártemis e Héstia.
Por ser introvertida, podemos aproximar Elza de Héstia, o que é muito interessante, pois Héstia é uma deusa do fogo, da lareira e do lar.

Mas como uma princesa que produz gelo pode se assemelhar de uma deusa do fogo?
Bem somente pelo fogo provocado pelo amor incondicional pela sua irmã que Elza aprende a controlar seus poderes. É indo para o oposto que ela encontra o equilíbrio. Entrando em contato com sua Héstia interior, ou seja, seu fogo, seu calor, que ela consegue derreter o gelo em que seus sentimentos se encontravam.
Mas a característica mais marcante nesse filme e que o diferencia dos demais contos de fadas com heroínas, é que a redenção de Elza e Anna ocorre quando ambas demonstram amor verdadeiro uma pela outra.
Em nossa sociedade infelizmente existe um estereótipo de que as mulheres não são companheiras. A metáfora de Frozen não serve apenas para irmãs de sangue, mas também para irmãs de coração. Anna é traída pelo seu primeiro amor e Elza é julgada pela sociedade por ser diferente e poderosa. Seus próprios pais foram incapazes de ajudá-la a lidar com seus dons e a incentivaram a ser normal e adaptada a uma sociedade preconceituosa. Sua irmã é a única que não a julga e não a teme e devido esse amor e aceitação plena da forma de ser uma da outra que ocorre a salvação delas e do reino.

Bibliografia:
BOLEN, J. S. - As Deusas e a Mulher, São Paulo: Paulus, 1990
JUNG, C. G. Tipos Psicológicos 8. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.
SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 7 ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1981.



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Mágico de Oz - o conto



Por: Hellen Reis Mourão

Os contos de fadas apesar de serem hoje vistos como entretenimento ou como algo infantil, nos mostram em sua estrutura e em seu significado mais profundo algo de uma seriedade impar: o processo iniciatório.
Na obra O Mágico de Oz do escritor norte-americano L. Frank Baum, a heroína Dorothy passa por uma séria de provas iniciatórias onde irá passar da imaturidade da infância para a vida adulta.
O conto começa nos mostrando a órfão Dorothy morando no Kansas com seus tios. O lugar é apresentado como triste e cinzento, sendo somente Dorothy feliz com seu cachorrinho Totó. Até que um dia um ciclone atingiu sua casa e a levou com casa e tudo para o mundo de Oz.

O ciclone é uma força da natureza extremamente destrutiva. Nesse caso podemos afirmar de forma simbólica que Dorothy foi alçada para o mundo simbólico do inconsciente. Ela está em uma sublimatio, observando tudo de longe de forma a observar as múltiplas possibilidades de sua vida.
Quando observamos o desenvolvimento de uma criança vemos que a primeira função a ser desenvolvida por ela é a sensação. Ela avalia o mundo com os cincos sentidos: ela toca, cheira e coloca tudo na boca. Após certa idade a criança entra em contato com o mundo da fantasia, da imaginação e é ai que a função intuição começa a se manifestar.
Dorothy está em contato no mundo de Oz com a intuição e as possibilidades que a sua vida pode tomar. Nesse mundo ela entra em contato com figuras arquetípicas e instintos ainda desconhecidos.
Ao chegar a Oz ela descobre que matou uma das bruxas más acidentalmente. Nesse mundo há quatro bruxas: as do Leste e Oeste são más e as do Norte e Sul boas. Ou seja, é uma totalidade feminina em um equilíbrio entre bem e mal, mas que não possui a contraparte masculina.
Dorothy se encontra com as quatro bruxas nos quatro pontos cardeais em uma espécie de busca da totalidade. Um símbolo da totalidade materna, com seus aspectos bons e maus, do qual temos que entrar em contato para compreendê-lo e superá-lo.
Tomo a liberdade de não seguir a narrativa e me deter apenas nos aspectos simbólicos do conto, por isso não me deterei na ordem dos acontecimentos.
Ela mata a primeira bruxa a do Leste acidentalmente e fica com os seus sapatos, que lhe cabem perfeitamente. O calçar os sapatos que servem somente a determinada pessoa é um tema conhecido dos contos de fadas. Vemos isso em Cinderela.
Os sapatos mantêm nossos pés aquecidos e protegidos para que possamos seguir nossos caminhos. Isso significa que Dorothy deverá seguir um caminho que só pertence a ela. No processo de individuação devemos viver a porção que nos cabe e que é somente nossa e aceita-lo como uma realidade. Entretanto não costumamos a aceitar nosso quinhão tão facilmente como Dorothy, questionamos, reprimimos e assim desenvolvemos sintomas neróticos.
O fato de herdar da bruxa má significa que aspectos sombrios foram incorporados a sua psique. Em contos como o de Vasilisa, a heroína herda algo da bruxa má (Baba Yaga) que no final acaba lhe ajudando, mostrando que a dimensão sombria incorporada lhe auxilia agora com astucia e diminui a ingenuidade da heroína.
Dorothy também se encontra com alguns anões e com a Bruxa Boa do Norte. Os anões foram libertados com a morte da Bruxa Má do Leste, isso psicologicamente significa que os impulsos criativos de Dorothy, representados pelos anões, estão livres de um complexo que os aprisionava.
Além disso, ela ganha da Bruxa Boa um beijo mágico que irá protegê-la em seu caminho. Ou seja, aspectos da imagem arquetípica da boa mãe lhe protegem do mal.
Dorothy após se encontrar com o Mágico na cidade das Esmeraldas sai em uma jornada onde destrói a Bruxa Má do Oeste e também se encontra com a Bruxa Boa, Glinda.
É digno de nota a forma como ela mata a bruxa: com água. Nos contos de fadas é comum termos a redenção de algum personagem amaldiçoado pelo banho. Psicologicamente o banho e a água significam um retorno ao inconsciente, a fim de purificar certos aspectos sombrios (Von Franz, 1985). A bruxa morre ao ser banhada pela água, ou seja, ela retorna ao inconsciente a fim de perder seu aspecto destrutivo e ser renovada. Um complexo destrutivo ao morrer simbolicamente, transfere a libido (energia psíquica) para outros aspectos da psique, ativando partes ainda desconhecidas nossas e impulsionando para um maior desenvolvimento.
Sobre Glinda, falarei ao final do texto.
Bem, durante a jornada Dorothy juntamente com o seu cão Totó se encontram com alguns personagens muito importantes para o desenvolvimento a psique da jovem.
Primeiramente ela se encontra com um boneco de palha que deseja ter um cérebro. A palha é um elemento extremamente leve, seco e frágil e o boneco feito dela é comumente usado para espantar corvos das plantações. Ou seja, ele é útil para espantar pensamentos nocivos da mente.
O fato de desejar um cérebro e de ser feito de um objeto seco significa que Dorothy está entrando em contato com a função pensamento.
Após alguns anos, já na adolescência, o indivíduo entra em contato com a função pensamento e começa a desenvolver a lógica e a discriminação entre as coisas.
Por ultimo, o indivíduo entra em contato com a função sentimento, no livro simbolizado aqui pelo homem de lata, que deseja ter um coração e a voltar a sentir e a amar assim como fazia quando era humano.
Dessa forma Dorothy desenvolve todas as funções e cada uma delas ocupará seu reino em Oz. Entretanto devemos lembrar que Dorothy é uma heroína, uma figura arquetípica que mostra o funcionamento de um ego ideal em consonância com as demandas do Self. Na realidade, nós humanos entramos em contato com as funções, mas desenvolvemos uma, no máximo delas e no processo de individuação temos que dar espaço e lugar as menos desenvolvidas para que possamos ampliar nossa consciência e nos tornarmos mais completos.
Após encontrar essas figuras, Dorothy se depara com um leão sem coragem. No simbolismo alquímico o leão é o sol inferior, uma representação do principio masculino, um impulso egocêntrico do poder. Além disso, ele é um animal nobre, o rei da selva. Aqui Dorothy se encontra com um principio instintivo ainda, de sua consciência. Podemos cair em tentação de analisar o leão como o animus de Dorothy, mas assim reduziríamos demais sua interpretação.
Dorothy como pré-adolescente está em pleno desenvolvimento de seu ego e sua consciência. Seus instintos estão em pleno vapor e nesse ponto da vida ela está buscando coragem para encarar o mundo externo e suas demandas, o que é típico da primeira fase da vida do ser humano.
A menina está sempre acompanhada de seu cão. O animal que acompanha e auxilia o herói ou heroína nos contos é um tema recorrente. E aqui o animal é símbolo não só de instintos, mas também da lealdade que Dorothy tem ao seu processo de iniciação.
Em sua jornada Dorothy também se depara com vários desafios e problemas que são solucionados com a colaboração do grupo formado pela menina, o cachorro, o leão, o homem de lata e o espantalho.
Em uma dessas aventuras é ajudada por ratos. Os ratos são símbolos da alma dos mortos e das bruxas. No caso do conto eles são positivos e prestativos, mostrando que os aspectos repugnantes e perigosos da psique podem também nos auxiliar. Pois justamente aquilo que somos pode nos curar, e o que somos também possui aspectos deprimentes e horríveis.
Dorothy chega a Cidade das Esmeraldas para encontrar o Mágico que lhe ajudará a voltar para sua casa no Kansas. Entretanto ela descobre que ele não tem poderes e que é uma farsa.
Em nossas vidas, quantas vezes depositamos esperanças mágicas em seres humanos para posteriormente descobrirmos que são apenas humanos?
Aqui há uma retirada das projeções mágicas que a menina faz em pessoas mais velhas e com posições de poder. E isso é um processo importantíssimo a qual devemos passar. O amadurecimento está em retirarmos a projeção mágica e infantil do nosso poder pessoal de outro e assumirmos a responsabilidade por nossas vitórias e fracassos.
Por fim, Dorothy deve buscar a ajuda de Glinda, a outra Bruxa Boa, que lhe diz que os sapatos que ela calça são mágicos e que podiam o tempo todo levá-la de vota para casa. Além disso, ela dá ao leão, ao espantalho e ao homem de lata um reino para governar, estabelecendo o local adequado de cada função e arquétipo.
O fato de somente descobrir no final que os sapatos poderiam levar Dorothy de volta mostra que muitas vezes a solução de nossos conflitos e problemas está conosco o tempo todo, mas que antes de poder alcançá-la devemos percorrer um caminho de amadurecimento. Uma vez que saber a solução antes da hora pode atrasar nosso desenvolvimento. Por essa razão é que não se deve apressar um processo de psicoterapia, tudo deve ocorrer ao seu tempo e o terapeuta deve ter a sensibilidade para saber a hora correta de apontar a solução e a saída do conflito.
Dorothy então regressa para casa onde nota que sua realidade mudou. Agora ela pode enxergar as coisas a sua volta com mais maturidade, tendo agora mais ferramentas para observar os aspectos bons e maus de sua vida. 

Bibliografia:
EDINGER, E.F. – Anatomia da psique: O simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix: 2006.
SILVEIRA, N. – Jung: Vida e Obra. Silveira – 7 ed.– Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.
        VON FRANZ, M. L. O significado psicológico dos motivos d redenção nos contos de fadas. Cultrix. São Paulo: 1985.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Rainha da Neve - O conto que inspirou Frozen





Por: Hellen Reis Mourão
Esse é um conto de Hans Christian Andersen, publicado pela primeira vez em 21 de dezembro de 1844. Pouco conhecido no Brasil, esse é o conto que inspirou levemente o filme Frozen.

O conto se inicia com um maldoso anão (ou feiticeiro, ou demônio em algumas versões) que vivia em uma nuvem e que cria um espelho o qual piora os defeitos de todos os que nele se mirassem. O anão então resolve quebrar o espelho e envia seus pedaços pelo mundo para assim provocar a discórdia. Dois deles foram para uma sacada onde brincavam dois amigos, Gerda e Kai.
Kai, o menino, havia um dia antes pergunta para sua avó se a Rainha da Neve poderia vir até eles (uma lenda que a avó costumava contar). Ela diz que sim, e Kai então faz um "desafio" ao vento para a Rainha, duvidando de que ela conseguisse chegar até ali, porque o garoto não acredita que ela realmente exista. Entretanto, à noite, enquanto Kai se prepara para dormir, vê pela janela que a neve forma uma forma humanoide e, finalmente, forma uma rainha, inteira de neve. Ela olha para Kai, sorri, e se desfaz.
Dois fragmentos de vidro penetram nos olhos e no coração do menino que, a partir daquele momento, se transforma no pior garoto da cidade.
Um dia, Kai passeando pelas ruas cobertas de neve, montado em seu pequeno trenó, viu um grande trenó branco, que corria velozmente. Enganchou o seu naquele e, desse modo, fez-se arrastar na vertiginosa carreira. Por fim, o trenó se deteve e dele desceu a Rainha das Neves, completamente vestida de branco, que se inclinou para o menino, beijando-o. Ao sentir aquele beijo, Kai adormeceu. A fada tomou-o nos braços e levou-o ao seu longínquo país.
Os dias passavam e Gerda em vão esperava Kai, que não regressa. Afinal, resolve ir procurá-lo. Ela então acaba chegando a um jardim cheio de flores, onde havia uma velha, que a acolhe carinhosamente e a conduz a uma pequena casa feita de vidros coloridos. Ali a velha a penteia com um pente mágico que faz a menina esquecer-se de todos os problemas. Um dia, entretanto, ela vê umas rosas, que lhe recordam o roseiral que plantava com Kai e voltou-lhe à mente a lembrança do irmão desaparecido. Ela foge, chegando a um bosque onde encontra uma menina, que mora em uma casa meio em ruínas.
A desconhecida descobre o paradeiro de Kai e dá a Gerda um magnífico cervo, dizendo ao animal: "Devolvo-te a liberdade, mas, em troca, leva esta minha amiga ao palácio da Rainha das Neves, que se acha em teu país." Gerda parte em disparada, chegando à Finlândia, onde estava situado o castelo da rainha.
Gerda vê caírem a seu redor grandes flocos de neve, que se juntaram, procurando afogá-la. Mas a menina orou com fervor e, imediatamente, tudo se acalmou. Então, a menina entra no castelo, onde encontra Kai, que estava só e não a reconheceu. Gerda abraçou-o, chorando e suas lágrimas, ao penetrarem no coração do menino, fazem sair o fragmento do espelho, que nele se havia encravado. Kai também chora e, desse modo, o outro fragmento que havia penetrado em seus olhos, também sai. Os dois fogem daquela prisão gelada. O cervo esperava-os lá fora para levá-los de volta ao seu país. Quando o jovem casal finalmente retorna unido à terra natal, descobre que o tempo passou e já se tornaram adultos.

Esse é um conto extremamente interessante que foge um pouco dos padrões dos contos femininos. Aqui a heroína não é passiva como em outros contos, e é ela quem resgata o masculino, que aqui é mais passivo.
O conto começa com um anão. O anão é uma figura comum nos contos onde o herói é uma mulher. São ótimos mineradores, artesões e metalúrgicos.
Eles costumam representar impulsos criativos inconscientes. Simbolizam aquela primeira intuição súbita vinda do inconsciente, a qual se não dermos atenção pode voltar a se esconder novamente. Por serem pequenos consideramos às vezes esses lampejos de boas ideias banais e os desprezamos.
Na Mitologia Grega alguns anões escoltavam a Grande Mãe e eram chamados dactilos (dedos). Alguns como em Branca de Neve, trabalham no interior da terra como mineradores, ou seja, trabalham dentro do útero feminino.
Portanto, podemos supor que eles servem ao feminino arquetípico, aqui no conto representado pela Rainha da Neve. Ou seja, podemos supor que o anão está a serviço dela.

No caso do conto, o anão é negativo e geralmente essas figuras não costumam ser. Isso ocorre quando a mulher não da vazão ao seu espírito criativo e vive em função das normas vigentes e do ego. Ela deixa de ser criativa e passa a viver em um espírito de intriga. Quantas vezes não vemos mulheres sendo dominadas pela fofoca e pela intriga. Isso costuma acontecer bem menos entre os homens, entretanto pode ocorrer com eles também.
O anão cria um espelho que mostra o lado negativo da pessoa que o mirar.
O espelho reflete nossa imagem e é um instrumento de autocontemplação. Um símbolo ambíguo, pois pode mostrar a verdade como pode mostrar uma imagem deturpada. Ligado ao mito de Narciso podem simbolizar a vaidade, mas também pode simbolizar a sabedoria e o conhecimento.
O espelho do anão mostra a sombra de cada um. Ou seja, ele não é de todo ruim, pois é através da sombra que podemos chegar à verdade sobre nós mesmos.
Se analisarmos a figura do anão em relação à heroína Gerda, veremos que o ato de quebrar o espelho e espalhar os cacos pelo mundo significa que os aspectos criativos do inconsciente feminino que foram reprimidos agora se voltam contra a consciência. Tudo o que é reprimido se transforma em sombra.
Os cacos simbolizam a atitude por vezes agressiva da mulher pode que pode ferir com palavras. Se analisarmos o anão como uma representação do animus de Gerda veremos que Gerda se utiliza de alfinetadas e de agressividade típicas do animus para chamar a atenção. Ela quer ser reconhecida como individuo, quer que seu aspecto criativo e feminino tenha reconhecimento.
Na verdade Gerda sofre e seu sofrimento se manifesta em agressividade que penetra como cacos de vidro.
Os cacos então penetram no coração e olhos de Kai. O ato de enxergar e ver simboliza o conhecimento. O olhar sobre uma questão nos ajuda a compreendê-la. E Kai agora não enxerga mais, ele perde sua capacidade de analisar e compreender o mundo e a si próprio, ele está cego em seu próprio narcisismo. O coração é fonte do sentimento e ao ser ferido significa que ele perde sua capacidade de sentir, de ter empatia e de amar.
O coração também se assemelha a um triângulo invertido, que na Índia é associado à Shakti, a energia feminina da existência. Ou seja, o coração é um símbolo feminino universal.
Portanto, podemos afirmar que o conto trata de um resgate da energia feminina, e dos aspectos criativos provindos desse feminino.
O fato do anão morar em uma nuvem é algo que denota isso, pois seu habitat natural é a terra, as cavernas. Essa energia criativa precisa ser devolvida a ao seu domínio natural.
Kai então cego é levado pela Rainha da Neve. E aqui a ação começa a se desenrolar.
Do ponto de vista de Kai podemos analisar que o ego masculino entrou em um estado de regressão ao colo da Mãe e só pode ser resgatado e entrar em contato novamente com os sentimentos por meio do desenvolvimento de sua anima, representada por Gerda.

Se analisarmos Kai como outra manifestação do animus de Gerda veremos que seu aspecto masculino em um estado de regressão retornou ao inconsciente.
Muitas vezes a mulher deve abrir mão da verborragia, da intriga e da fofoca para poder entrar em contato com aspectos do seu feminino interior, para que depois sim possa se relacionar novamente com o aspecto masculino de sua psique.
No mito Eros e Psique a heroína, se submete a Grande Mãe Afrodite e passa por algumas provas para poder novamente se reunir ao seu grande amor.
No campo amoroso isso significa que a mulher deve abrir mão do ardil para conquistar um homem e saber esperar por aquele que será o “homem certo”. Ela deve saber esperar pelo amor provindo do Self e não de desejos egóicos.
Antes então de falar sobre a jornada de Gerda é importante falar um pouco sobre essa figura A Rainha da Neve.
A Rainha é uma figura arquetípica, um feminino ligado a natureza (a neve). Ela representa de forma bem especifica uma estação do ano, o inverno.
Na Mitologia temos algumas deusas ligadas a estações do ano. Um exemplo marcante é a grega Perséfone, que quando estava com sua mãe simbolizava a primavera e o verão e quando descia ao Hades o inverno cobria a terra a essa se tornava improdutiva obrigando as pessoas a se recolherem.
A neve também simboliza a água sublimada. A água congelada que cai do céu com um aspecto numinoso. A água representa na alquimia a solutio, onde há a dissolução do ego e a renovação em uma nova forma renascida. Portanto a neve é a água condensada que provem do céu.
No nível psicológico tudo isso significa que as emoções estão se condensando e trazendo uma nova realidade sem a ação da vontade do ego. Sem essa transformação e renascimento não é possível que nada floresça e a consciência se mantém em um estado de regressão a conteúdos do inconsciente, de ordem materna. Ou seja, ela volta aos braços da mãe.
Gerda em sua jornada para resgatar Kai entra em contato com uma figura e uma velha em uma casa de vidros coloridos com um jardim florido. A velha tenta segurar Gerda por meio de pentes mágicos que a fazem esquecer o mundo e os problemas.
Isso significa que Gerda deve lutar contra o paraíso materno e sair dele. O paraíso materno é aprisionante e transforma o individuo em uma eterna criança e não se desenvolve psicologicamente nem consegue se afirmar no mundo externo.
Gerda se lembra de Kai ao ver uma roseira. As rosas são símbolos de Vênus, Afrodite, e isso significa que Gerda se lembra que precisa resgatar seu amor Kai.
Após esse encontro com a vela, Gerda encontra uma menina que lhe diz onde está Kai e lhe da um cervo que a leva a Finlandia onde está o palácio da Rainha.

O cervo como animal é símbolo dos instintos e também da liberdade. Ele é um animal associado a Artemis grega, outra deusa que simboliza a Grande Mãe.
Ou seja, aqui Gerda começa a ser auxiliada pelo aspecto feminino. Ela começa a confiar em seus instintos e a se deixar ser guiada por eles. Artemis é uma deusa da lua, do inconsciente, o que mostra que Gerda agora passa a confiar nas mensagens de seu inconsciente. Ela adquire sua liberdade e pode enfim se encontrar com seu masculino interior.
Gerda chega ao castelo e encontra Kai sozinho. Ambos ao se reencontrarem choram e as lagrimas ajudam os cacos de vidro a saírem dos olhos e coração de Kai.
A lágrima é o símbolo da dor e da sabedoria. A lágrima contém sal que na alquimia é um principio do Eros. Seu principio é feminino e nos mostra que somente no âmbito dos sentimentos podemos encontrar a sabedoria. A dor, o amargor, o desapontamento nos faz crescer.
O contato com o plano dos sentimentos e das emoções traz a cura a Kai.
Kai e Gerda então retornam ao seu país e se dão conta que são adultos. Ou seja, Kai e Gerda estão amadurecidos no plano dos sentimentos e a heroína agora pode expressar seu potencial criativo.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Introversão e Extroversão – Limpando conceitos




Por: Hellen Reis Mourão
O médico suíço Carl Gustav Jung, criou em 1921 com sua obra Tipos Psicológicos os termos extroversão e introversão.
Hoje esses termos se tornaram jargões usuais. É comum definirmos pessoas como extrovertidas e introvertidas, pois todos nós conhecemos pessoas fechadas, ariscas, difíceis de conhecer (introvertidos) e pessoas abertas, sociais, joviais e que sempre estão se relacionando (extrovertidos).
 Mas será que sabemos do que estamos falando quando nos referimos a alguém dessa forma?
Por essa razão vamos analisar o que é extroversão e introversão.
Conforme Carl Jung (1991), extroversão e introversão mostram tipos gerais de atitudes, e elas se distinguem pela direção de interesse e movimento da libido, ou seja, da energia psíquica.

Em outras palavras, a atitude da consciência será determinada pela direção de interesse em relação ao objeto.
Por objeto, entendemos tudo aquilo que não é o sujeito e que não se liga a pessoa e seu mundo interior, seus desejos e seus medos, incluindo pessoas e estímulos externos.
Os introvertidos são aqueles que hesitam, recuam e enxergam o contato com o objeto com receio e como se fosse algo pesado, massacrante. O mundo externo os desgasta e isso faz com que ajam de forma a atribuir ao objeto um superpoder.
Já os extrovertidos partem rápido e de forma confiante ao encontro do objeto. Aparentemente o objeto tem para ele uma importância enorme, mas no fundo o objeto não tem tanto valor assim e por isso é necessário aumentar a sua importância.
Resumindo, conforme Silveira (1981) na extroversão a libido fui sem embaraços ao encontro do objeto. Na introversão a libido recua diante do objeto, pois este parece ter sempre em si algo de ameaçador que afeta intensamente o indivíduo.
Para exemplificar as duas atitudes, vejamos as heroínas do conto de fadas moderno da Disney, o filme Frozen.

As duas irmãs do filme apresentam atitudes bem marcantes e opostas. Anna é extrovertida, jovial, se intromete em tudo e vive em busca relacionamentos, principalmente com sua irmã a introvertida Elza para qual o mundo externo é assustador. Sua personalidade é mais grave e desconfiada que a de Anna. Seus medos a assolam levando-a a reclusão. Ela busca se precaver de qualquer dispêndio de energia e acredita que o mundo externo enxerga seus dons como malignos.
Esse filme também vem ilustrar bem o que Jung diz sobre o fato das atitudes em relação ao objeto serem funções de adaptação. Cada uma das irmãs se adaptou ao meio em que vivia forma particular e individual.
Além disso, o fato das duas virem da mesma família mostra que as atitudes em relação ao objeto não são escolhas conscientes, mas inconscientes e instintivas.
Entretanto, a despeito de ser algo natural e de adaptação inconsciente essas atitudes também mostram um mecanismo de defesa do ego em relação ao inconsciente. A atitude oposta assusta e é motivo de desconfiança.
Mas vejamos como isso ocorre.
O inconsciente sempre visa à compensação da atitude consciente, e nesse movimento de compensação, um movimento inconsciente de introversão ocorre naqueles cuja personalidade consciente é extrovertida, e um movimento inconsciente de extroversão naqueles cuja personalidade consciente é introvertida (Silveira, 1981).
Nesse caso, podemos dizer de forma simplificada que o inconsciente do extrovertido é introvertido e vice-versa. Por essa razão é comum nos apaixonarmos pelo tipo oposto, mostrando que buscamos a completude pela projeção.
Mas a consciência tem a tendência a se defender e temer aquilo que é desconhecido, que lhe é inconsciente. A consciência tende a se manter na zona de conforto. Contudo, toda atitude radical é prejudicial e pode gerar neurose.
E dessa forma podemos compreender que o que o introvertido teme é o mundo externo e os objetos. Ele teme porque supervaloriza. Ele teme porque pode se perder ali, e sair do controle. E o extrovertido teme seu mundo interno, teme ficar sozinho e entrar em contato com seu mundo subjetivo, suas emoções e mais ainda teme se definir com sujeito.
E dentro desse dilema, é saudável que cada um busque colocar em sua vida um pouco da atitude oposta. É claro que isso deve ocorrer dentro do limite de cada um, pois uma mudança de tipo pode ser extremamente desgastante e afetar o bem estar psicológico e fisiológico do indivíduo. Por ser algo tão delicado, é importante então que se faça esse processo dentro da psicoterapia, com o auxilio de um profissional, que irá auxiliar o indivíduo a assimilar aos poucos e dentro do seu limite seu lado oposto. 

Bibliografia: 
JUNG, C. G. Tipos Psicológicos 8. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. 
SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 7 ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1981.