segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Iansã e o domar das emoções



Por: Hellen Reis Mourão

Iansã ou Oya é um Orixá muito famoso e popular no Brasil.
Oya-Iansã foi mulher de Xangô, juntamente com Obá e Oxum.
É a deusa das tempestades e dos relâmpagos. Rege os ventos, o fogo e as paixões.
Iansã é saudada como a deusa do rio Níger. E mesmo estando relacionada à água pelo rio e pela tempestade, ela também está relacionada com o fogo e com o ar (furacões, ventania). Isto indica a união de elementos contraditórios e conflitantes, o que vai influenciar diretamente a personalidade da deusa.
Domina o mundo dos mortos (Eguns), sendo o único orixá capaz de enfrentá-los e dominá-los. Para isso utiliza um instrumento litúrgico chamado Eruexim, uma chibata feita de rabo de um cavalo atado a um cabo de osso, madeira ou metal.
No Brasil foi sincretizada com Santa Bárbara.
Oya é uma Orixá guerreira. Representante da força feminina e das mulheres que querem se firmar em um mundo masculino. Seu temperamento é ardente, impetuoso e transgressor. E essa tendência transgressora lhe permitiu ampliar ainda seus conhecimentos. Em Orixás, de Pierre Verger:
“Conta uma lenda que Xangô enviou-a em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz. Oya, desobedecendo às instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder.”
Seus seguidores a saúdam gritando: “Epa Hey Oya!”.
Representante da sensualidade desenfreada e das paixões avassaladoras, seus sentimentos são intensos. Não há meio termo com ela, ama e odeia com a mesma intensidade. Demonstrando seu amor e alegria da mesma forma desmedida com que exterioriza sua cólera.
Iansã, apesar de ser feminina e vaidosa se aproxima mais dos terrenos consagrados tradicionalmente ao homem. Em sua mitologia está sempre presente em campos de batalha e em caminhos onde riscos e aventuras se misturam.
Enfim, não é o feminino apregoado pela cultura vigente. Não aprecia afazeres domésticos, e está sempre longe do lar.
Mesmo assim, é extremamente sensual e fogosa. Tendo muitos amores e verdadeiramente se apaixonando por eles (ela foi casada com quase todos os Orixás, adquirindo seus poderes com eles). Todavia, a fidelidade dela não está necessariamente relacionada a um homem, mas às suas convicções e aos seus princípios.
Em uma de suas lendas, Iansã usava uma pele de búfalo, relacionando a deusa com antigos cultos agrários africanos ligados à fecundidade. Os chifres de búfalo, um de seus símbolos a liga à virilidade e à caça.
Em suas lendas, Iansã não é dada a picuinhas, mostrando que nada nela é medíocre ou discreto.
Iansã é aquela mulher que quer um homem ao seu lado para ser seu companheiro e não para dominá-la, nem sustentá-la.



Enquanto figura arquetípica Iansã revela-se cheia de nuances.
Ela pode ser associada à grega Afrodite, a suméria Inanna e a romana Vênus, enquanto deusa das paixões, do erotismo e do arrebatamento. Lembrando que Afrodite, assim como Iansã não possui pudores, sendo fiel ao principio do amor e da paixão.
Enquanto deusa ctônica e senhora dos mortos, tece paralelos com a grega Perséfone e com a suméria Ereshkigal.
Perséfone era responsável por receber os mortos e encaminhá-los, assim como Iansã, que juntamente com Obaluaye servia de guia para as almas.
Isso confere um caráter de psicopompo a Iansã, ou seja, de guia para as almas.
Em seu aspecto guerreiro, Iansã se aproxima da hindu Durga, que é uma Deusa Guerreira, por excelência.
A Grande Durga é extremamente bela, nascida da fusão da cólera de todos os deuses. Em alguns contos, possui 8 braços, em outros, 10, 12 ou até 18. Sempre segurando armas sagradas e realizando mudrás (gestos simbólicos com as mãos), montada em um leão, ou tigre, feroz.
Assim como Iansã é representada com a cor vermelha, que simboliza movimento, ação, fogo, destruição, sexualidade.
Iansã, assim como Durga e suas armas, com sua espada está sempre em prontidão para combater o mal e a dominar os aspectos sombrios da psique.
Durga matou o búfalo-demônio Mahishasura, outra ligação com Iansã, que utilizava pele de búfalo para se disfarçar.
O búfalo simboliza o aspecto viril, instintivo e combativo, representa também o elemento terra, sendo dominado pelo feminino.
Além disso, Durga aparece representada montada em um leão ou um tigre. Iansã também se liga ao leão, por meio de Xangô, que foi seu marido.
Essa ligação com as feras, como o leão, remete ao simbolismo do arcano 11 do tarô, a Força.
E aqui o arquétipo de Oya-Iansã pode ser aprofundado e melhor compreendido.

Essa lâmina do tarô apresenta uma mulher abrindo, com as duas mãos, as mandíbulas de um leão, tem como significado o domínio sobre as emoções instintivas, poderosas e selvagens.
Note que a dama não mata o leão, ela o doma; portanto o simbolismo consiste em não desprezar o inferior, em não aniquilar o que é bestial, destrutivo, mas sim aprender a utilizá-lo.
A dama faz isso, de modo a conter a fera preservando o instinto criativo e instintivo presente no leão. O leão é um animal ligado a realeza, é o rei dos animais. E representa um aspecto infantilizado da psique, o egocentrismo, o “eu primeiro”, extremamente destrutivo se mal canalizado.
Essa carta, então representa a coragem e a disciplina necessárias para dominar a raiva e usá-la a seu favor.

Para concluirmos esse estudo, Oya-Iansã, então representa a energia criativa do feminino. Ela destrói, por meio dos raios, para criar nova vida. Remetendo a outra lâmina do taro, o Arcano 16, A Torre.
Energia que rompe padrões pré-estabelecidos. Quando a estrutura egóica está ultrapassada e cristalizada.
Iansã, em termos arquetípicos, representa também a perda do controle, por isso ela é considerada o Orixá do arrebatamento.
A paixão nos toma como um relâmpago, com a força de um furacão e retira o chão de nossos pés. O ego perde totalmente seu controle. A paixão é experimentada como uma morte do ego.
A perda do controle, por meio de uma paixão por alguém, ou por algo, ou por um ideal, é um baque para o ego, que muitas vezes se amedronta e foge. Entretanto, tão necessária para o processo de individuação.
Iansã é a quebra dos limites impostos pelas normas, que impedem o desenvolvimento da psique. Ela avança, de forma dinâmica, em direção aos aspectos regressivos, trazendo a uma nova vida aquilo que estava morto.
Esse arquétipo, quando constelado, pode trazer a coragem para quebrar paradigmas e romper com limites já desgastados.
Pode ser conflitante e estranho o fato da deusa das paixões ser a que doma os instintos, mas somente um encontro genuíno e franco com esse aspecto instintivo pode levar a um entendimento e compreensão dessas forças. O que remete a frase de Carl Jung “O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera.”
Iansã, portanto, quando constelada, nos ajuda a atravessar nossas paixões, mantendo a lealdade a nós mesmos, levando-nos assim a alcançar a sabedoria e a força de nosso guerreiro interior.






quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Oxumaré - A dinâmica psíquica

Por: Hellen Reis Mourão




Oxumaré é um Orixá complexo, suas funções são múltiplas.
Na Mitologia iorubá é considerado o Orixá dos movimentos e de todos os ciclos.
Senhor da mobilidade e da atividade, é representado pela cobra e pelo arco-íris, por isso é considerado o senhor de tudo o que é alongado, como, por exemplo, o cordão umbilical.
Em sua mitologia é filho mais novo e preferido de Nanã. É irmão de Omulu, Ewa e Ossain.
Representado por uma serpente que morde a própria cauda, se mostra como símbolo da continuidade e permanência.
Ao mesmo tempo em que representa a movimentação e mobilidade da Terra, com seus movimentos de rotação e translação, segundo Verger, Oxumaré enrola-se em volta da terra para impedi-la de se desagregar. Se perdesse as forças, isso seria o fim do mundo. Portanto ele controla os movimentos, para que não sejam nem rápidos nem lentos demais.
Seus domínios estão nos movimentos regulares, que não podem parar, como a alternância entre chuva e sol, dia e noite, frio e calor, positivo e negativo.
O arco-íris, a grande serpente colorida, representa a comunicação entre o céu e a terra, um elo entre os dois. A ligação entre o velho e o novo, entre os homens e seus antepassados é assegurada pelo cordão umbilical.
Ainda sobre Oxumaré, Verger em Orixás diz:
“Oxumaré é, ao mesmo tempo, macho e fêmea. Esta dupla natureza aparece nas cores vermelha e azul que cercam o arco-íris. Ele representa também a riqueza, um dos benefícios mais apreciados no mundo dos iorubás.”
É o Orixá da tese e da antítese.
Oxumaré é então um Orixá ambíguo. Macho e fêmea, belo (arco-íris) e perigoso (serpente), céu e terra, exprime, portanto a dualidade, a união dos opostos.
A vida se expressa por meio do conflito entre os opostos, estar vivo é estar em meio aos opostos, dia e noite, sofrimento e prazer, calor e frio.
Podemos afirmar, então, que Oxumaré exprime a vida humana, encarnada.
Arquétipo, onde está sintetizada a duplicidade humana, seu corpo mortal e seu espírito imortal.
A imagem da serpente que engole a própria cauda, enrolada ao redor do planeta pode ser comparada ao trunfo XXI do tarô, O Mundo.
Neste trunfo, está representada a Ouroboros, símbolo da eternidade, dos ciclos da vida, a espiral da evolução, a dança da morte e ressurreição.
A Ouroboros está ao redor de uma figura metade macho, metade fêmea, simbolizando os opostos, o negativo e o positivo. E também aparece rodeada por quatro animais, que simbolizam os quatro elementos.
Esse trunfo, assim como Oxumaré, nos remete a um universo ordenado, em harmonia com os ciclos da vida e em consonância com o Self. É então, a totalidade, a harmonia, o equilíbrio, mas também o início de uma nova jornada, não mais centrada no ego.
Outro paralelo está na mitologia judaico-cristã, onde a serpente simboliza o mal, a queda do homem, Satanás. E no arco-íris, símbolo da aliança de Javé com o seu povo, após o dilúvio.
Oxumaré é uma imagem ideal. Como seres humanos, essa totalidade raramente é encontrada. Mas como arquétipo Oxumaré mostra a necessidade de movimento e de transformação. Ele é o movimento psíquico, a dinâmica entre o inconsciente e o consciente, a relação entre ego e Self.
Sem esse arquétipo, a vida psíquica se torna estagnada e o processo de individuação paralisado.
Esse arquétipo, representado por Oxumaré, quando ativado na dinâmica psíquica do individuo, leva a descoberta dos opostos dentro de si. Negá-los é negar a vida. A dualidade é condição humana e aceita-la é o princípio da individuação. 
E assim é a caminhada humana, sempre mudando, crescendo, sempre em movimento. Em estado de renovação, sem nunca alcançar o centro, o Self, mas sempre em direção à totalidade.

 


ZACHARIAS, J. J. M. Zacharias. Oriaxé – A dimensão arquetípica dos Orixás. São Paulo: Vetor, 1998.
VERGER, P. F. Orixás. Círculo do Livro.
BARCELLOS, M. C. Os orixás e a personalidade humana. de Janeiro: Pallas, 2010.
NUNES, M. F.R.C – Magia do Tarô – Livro da Autodescoberta. 4 edição Ed Rowena 2001 Rio de Janeiro.
 SHAMAN-BURKE, J. & GREENE, L. – O Tarô Mitológico. 27 edição Ed. Arx. São Paulo 2003.
 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Oxum – A Afrodite afro-brasileira






Por: Hellen Reis Mourão
Pouco se tem escrito, em termos psicológicos, sobre os mitos africanos. Uma pena, já que esses mitos permeiam uma religião tipicamente brasileira, a Umbanda e vieram a fazer parte da nossa cultura via os escravos.
Um trabalho relevante, na área da psicologia analítica, é o do prof. José Zacharias, com seu livro A Dimensão Arquetípica dos Orixás.
A Mitologia Yorubá é composta pelos Orixás, que são deuses da natureza e que representam arquétipos já conhecidos nossos, mas com uma roupagem diferente.
O primeiro Orixá que vou descrever é Oxum, a senhora do Amor africana.

Oxum é a Deusa das águas doces e frescas, divindade do rio Oxum, na Nigéria.
É o orixá do ouro, do mel, da beleza, do amor e da gestação.
Exú é o orixá responsável pela fecundação. Quando ocorre a fecundação, a regência passa a Oxum, que protege o feto durante esse processo. Após o nascimento a regência passa a Iemanjá.
A ela pertence o ventre da mulher (lembrando que o feto se desenvolve dentro de uma bolsa d’água). Regente também da menstruação, da gravidez e do parto. E desempenhando, assim importante função nos ritos de iniciação, que são a gestação e o nascimento.
As mulheres que desejam ter filhos costumam se dirigir a ela.
Uma lenda interessante sobre ela é:
“Quando todos os orixás chegaram a terra, organizaram reuniões onde as mulheres não eram admitidas. Oxum ficou aborrecida por ser posta de lado e não poder participar de todas as deliberações. Para se vingar, tornou as mulheres estéreis e impediu que as atividades desenvolvidas pelos deuses chegassem a resultados favoráveis. Desesperados, os orixás dirigiram-se a Olodumaré e explicaram-lhe que as coisas iam mal sobre a terra, apesar das decisões que tomavam em suas assembléias. Olodumaré perguntou se Oxum participava das reuniões e os orixás responderam que não. Olodumaré explicou-lhes então que, sem a presença de Oxum e do seu poder sobre a fecundidade, nenhum de seus empreendimentos poderia dar certo. De volta a terra, os orixás convidaram Oxum para participar de seus trabalhos, o que ela acabou por aceitar depois de muito lhe rogarem. Em seguida, as mulheres tornaram-se fecundas e todos os projetos obtiveram felizes resultados” .
Sendo a senhora do ouro, é uma deusa da riqueza, da fartura.
Oxum domina os rios e as cachoeiras, mostrando que atrás de uma superfície aparentemente calma podem existir fortes correntes e cavernas profundas.

As lendas costumam representá-la com ricas vestes, perfumes e com colares e jóias, ou seja, tudo relacionado à vaidade. Ela é também representada com uma feminilidade elegante e coquete.
Antigamente, Oxum era associada ao cobre, pois esse era o metal mais valioso do país ioruba nos tempos mais antigos. Depois sua associação passou ao ouro. Mas o que importa é que ela rege os metais preciosos.
No Brasil, o dia da semana consagrado a ela é o sábado e sua saudação é como na África, feita pela expressão “Ore Yèyé o!!!” (“Chamemos a benevolência da Mãe !!!”).
Conforme Pierre Verger, em seu livro Orixás:
“A sua dança lembra o comportamento de uma mulher vaidosa e sedutora que vai ao rio se banhar, enfeita-se com colares, agita os braços para fazer tilintar seus braceletes, abana-se graciosamente e contempla-se com satisfação num espelho.”
Oxum também é ligada aos feitiços, devido a sua ligação com a Iá Mi Oxoronga, feiticeira poderosíssima e também roubou de Orumilá os segredos da leitura dos búzios, os quais qual divide com Exú. Portanto, a intuição, os encantamentos são partes de sua faceta, tanto que, a maioria das mães de santo são filhas de Oxum.
Mas Oxum também tem seu lado sombrio. E esse lado se manifesta em sua vaidade extrema, levando a competição desenfreada com outras. Em uma de suas lendas, Oxum matou Iansã, devido à inveja de sua beleza.
Outra lenda muito famosa de Oxum e que mostra sua sombra é aquela em que ela manipula Obá, levando-a a cortar sua própria orelha e servir no jantar para Xangô.
Oxum também podia ser vingativa, competitiva e dissimulada.

Pode-se afirmar, então que Oxum representa um arquétipo predominantemente feminino. Ela remete aos mistérios da feminilidade. É o símbolo do poder feminino da fecundação e da continuidade da vida.
Sem esse arquétipo, é impossível, como descrito no mito acima, levar a cabo qualquer empreendimento. Sem ele não há fertilidade, não há prosperidade. Pois não há gestação.

Oxum é, então, a “mãe das mães”. Nos arcanos maiores do Tarot encontramos esse arquétipo no trunfo número 3, A Imperatriz. Que simboliza criatividade, sucesso, gestação, encanto, amabilidade e cortesia.
Outro paralelo, enquanto deusa da fertilidade e da maternidade, pode ser feito com Demeter, a deusa grega da fecundidade da terra.
Sua sensualidade, intuição, demonstra toda sabedoria feminina, toda manifestação criativa.
A ela pertencem todas as manifestações criativas, sensuais e alegres. A dança, a música, toda forma de arte, a culinária e também a cura.
Como deusa do amor, tem paralelos com Afrodite, Vênus, Ishtar, Astarte. Sendo também uma deusa alquímica, transformadora (ver post sobre Afrodite).
Como senhora do ouro, simboliza o que é incorruptível. Os nossos valores, não apenas materiais, mas valores espirituais também.
Quando esse arquétipo se torna presente na vida do individuo, seja homem ou mulher, traz criatividade, imaginação fecunda, alegria de viver e desfrutar os prazeres da vida. Proporciona também graça, leveza, amabilidade, diplomacia e paciência para com os dissabores da vida, trazendo a doçura do mel e frescor de suas águas.
 
ZACHARIAS, J. J. M. Zacharias. Oriaxé – A dimensão arquetípica dos Orixás. São Paulo: Vetor, 1998.
VERGER, P. F. Orixás. Círculo do Livro.
LIMA, L. F. de. Oxum. Coleção Orixás. Rio de Janeiro: Pallas, 2008.
BARCELLOS, M. C. Os orixás e a personalidade humana. de Janeiro: Pallas, 2010.