quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Oxum – A Afrodite afro-brasileira






Por: Hellen Reis Mourão
Pouco se tem escrito, em termos psicológicos, sobre os mitos africanos. Uma pena, já que esses mitos permeiam uma religião tipicamente brasileira, a Umbanda e vieram a fazer parte da nossa cultura via os escravos.
Um trabalho relevante, na área da psicologia analítica, é o do prof. José Zacharias, com seu livro A Dimensão Arquetípica dos Orixás.
A Mitologia Yorubá é composta pelos Orixás, que são deuses da natureza e que representam arquétipos já conhecidos nossos, mas com uma roupagem diferente.
O primeiro Orixá que vou descrever é Oxum, a senhora do Amor africana.

Oxum é a Deusa das águas doces e frescas, divindade do rio Oxum, na Nigéria.
É o orixá do ouro, do mel, da beleza, do amor e da gestação.
Exú é o orixá responsável pela fecundação. Quando ocorre a fecundação, a regência passa a Oxum, que protege o feto durante esse processo. Após o nascimento a regência passa a Iemanjá.
A ela pertence o ventre da mulher (lembrando que o feto se desenvolve dentro de uma bolsa d’água). Regente também da menstruação, da gravidez e do parto. E desempenhando, assim importante função nos ritos de iniciação, que são a gestação e o nascimento.
As mulheres que desejam ter filhos costumam se dirigir a ela.
Uma lenda interessante sobre ela é:
“Quando todos os orixás chegaram a terra, organizaram reuniões onde as mulheres não eram admitidas. Oxum ficou aborrecida por ser posta de lado e não poder participar de todas as deliberações. Para se vingar, tornou as mulheres estéreis e impediu que as atividades desenvolvidas pelos deuses chegassem a resultados favoráveis. Desesperados, os orixás dirigiram-se a Olodumaré e explicaram-lhe que as coisas iam mal sobre a terra, apesar das decisões que tomavam em suas assembléias. Olodumaré perguntou se Oxum participava das reuniões e os orixás responderam que não. Olodumaré explicou-lhes então que, sem a presença de Oxum e do seu poder sobre a fecundidade, nenhum de seus empreendimentos poderia dar certo. De volta a terra, os orixás convidaram Oxum para participar de seus trabalhos, o que ela acabou por aceitar depois de muito lhe rogarem. Em seguida, as mulheres tornaram-se fecundas e todos os projetos obtiveram felizes resultados” .
Sendo a senhora do ouro, é uma deusa da riqueza, da fartura.
Oxum domina os rios e as cachoeiras, mostrando que atrás de uma superfície aparentemente calma podem existir fortes correntes e cavernas profundas.

As lendas costumam representá-la com ricas vestes, perfumes e com colares e jóias, ou seja, tudo relacionado à vaidade. Ela é também representada com uma feminilidade elegante e coquete.
Antigamente, Oxum era associada ao cobre, pois esse era o metal mais valioso do país ioruba nos tempos mais antigos. Depois sua associação passou ao ouro. Mas o que importa é que ela rege os metais preciosos.
No Brasil, o dia da semana consagrado a ela é o sábado e sua saudação é como na África, feita pela expressão “Ore Yèyé o!!!” (“Chamemos a benevolência da Mãe !!!”).
Conforme Pierre Verger, em seu livro Orixás:
“A sua dança lembra o comportamento de uma mulher vaidosa e sedutora que vai ao rio se banhar, enfeita-se com colares, agita os braços para fazer tilintar seus braceletes, abana-se graciosamente e contempla-se com satisfação num espelho.”
Oxum também é ligada aos feitiços, devido a sua ligação com a Iá Mi Oxoronga, feiticeira poderosíssima e também roubou de Orumilá os segredos da leitura dos búzios, os quais qual divide com Exú. Portanto, a intuição, os encantamentos são partes de sua faceta, tanto que, a maioria das mães de santo são filhas de Oxum.
Mas Oxum também tem seu lado sombrio. E esse lado se manifesta em sua vaidade extrema, levando a competição desenfreada com outras. Em uma de suas lendas, Oxum matou Iansã, devido à inveja de sua beleza.
Outra lenda muito famosa de Oxum e que mostra sua sombra é aquela em que ela manipula Obá, levando-a a cortar sua própria orelha e servir no jantar para Xangô.
Oxum também podia ser vingativa, competitiva e dissimulada.

Pode-se afirmar, então que Oxum representa um arquétipo predominantemente feminino. Ela remete aos mistérios da feminilidade. É o símbolo do poder feminino da fecundação e da continuidade da vida.
Sem esse arquétipo, é impossível, como descrito no mito acima, levar a cabo qualquer empreendimento. Sem ele não há fertilidade, não há prosperidade. Pois não há gestação.

Oxum é, então, a “mãe das mães”. Nos arcanos maiores do Tarot encontramos esse arquétipo no trunfo número 3, A Imperatriz. Que simboliza criatividade, sucesso, gestação, encanto, amabilidade e cortesia.
Outro paralelo, enquanto deusa da fertilidade e da maternidade, pode ser feito com Demeter, a deusa grega da fecundidade da terra.
Sua sensualidade, intuição, demonstra toda sabedoria feminina, toda manifestação criativa.
A ela pertencem todas as manifestações criativas, sensuais e alegres. A dança, a música, toda forma de arte, a culinária e também a cura.
Como deusa do amor, tem paralelos com Afrodite, Vênus, Ishtar, Astarte. Sendo também uma deusa alquímica, transformadora (ver post sobre Afrodite).
Como senhora do ouro, simboliza o que é incorruptível. Os nossos valores, não apenas materiais, mas valores espirituais também.
Quando esse arquétipo se torna presente na vida do individuo, seja homem ou mulher, traz criatividade, imaginação fecunda, alegria de viver e desfrutar os prazeres da vida. Proporciona também graça, leveza, amabilidade, diplomacia e paciência para com os dissabores da vida, trazendo a doçura do mel e frescor de suas águas.
 
ZACHARIAS, J. J. M. Zacharias. Oriaxé – A dimensão arquetípica dos Orixás. São Paulo: Vetor, 1998.
VERGER, P. F. Orixás. Círculo do Livro.
LIMA, L. F. de. Oxum. Coleção Orixás. Rio de Janeiro: Pallas, 2008.
BARCELLOS, M. C. Os orixás e a personalidade humana. de Janeiro: Pallas, 2010.