segunda-feira, 31 de março de 2014

O Self ou Si-mesmo




 Por: Hellen Reis Mourão
Conforme Carl Jung, o Si-mesmo, ou Self, é uma imagem arquetípica do potencial mais pleno do homem, ou seja, da totalidade. Ele ocupa a posição central da psique como um todo e, portanto, do destino do indivíduo.
É mais abrangente que o ego, que a ele encontra-se subordinado. O ego, então está para o Self, assim como a parte está para o todo.
É muito difícil definir conceitualmente o Self, mas uma definição mais aproximada, mesmo que limitada, seria a da “divindade interior“, a Imago - Dei que cada indivíduo carrega em seu íntimo. Essa imago, então é capaz de produzir sentimentos maravilhosos de êxtase, mas também o mais assombroso temor e respeito.
E essa imagem é comumente projetada em divindades externas, dentro dos sistemas religiosos.
Jung foi intensamente criticado por apresentar esse conceito de Self. Foi criticado tanto por religiosos como por médicos cientistas. Os religiosos acusaram-no de tentar deduzir Deus a uma função psicológica, ao passo que os médicos estudiosos da época acusaram-no de tentar substituir a ciência pela metafísica, o tornando um místico.
Ele, infelizmente, nunca conseguiu fazer seus críticos entenderem que estava definindo uma realidade psicológica, e não de uma realidade religiosa, nem material ou metafísica.
O que ocorre é que mesmo que exista ou não um Deus literal, e mesmo que o individuo não acredite em nenhum Deus, o arquétipo do numinoso é um recurso inato da humanidade, e extremamente necessário à totalidade psicológica. Todos os indivíduos se sentem impulsionados a buscar essa totalidade, cada um com sua forma peculiar e particular de encarar o numinoso.
É uma força tremenda e compulsiva que leva o ser humano em direção ao significado, ao encontro fatídico do seu destino. Não que o eu não possua livre arbítrio, ele possui e por vezes suas escolhas atrapalham o processo de desenvolvimento da personalidade, porém seu campo de escolha é limitado dentro da órbita da consciência.
A criança, antes da formação do seu ego consciente, possui esse sentido de totalidade inato. Quando adultos esse sentimento é alcançado através de uma união do consciente com os conteúdos inconscientes da sua mente, ou seja, por meio da função transcendente, que nada mais é que o Self.
Sobre essa função Jung comenta em A Natureza da psique.
“Por "função transcendente" não se deve entender algo de misterioso e por assim dizer suprasensível ou metafísico, mas uma função que, por sua natureza, pode-se comparar com uma função matemática de igual denominação, e é uma função de números reais e imaginários. A função psicológica e "transcendente" resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes.”

O Self é tanto a fonte do processo de individuação com seu fim último.
No processo de individuação há confronto do ego com o Self, onde o mesmo deve ser reconhecido, integrado e realizado.
Entretanto, o ego, só irá se defrontar com um fragmento dessa totalidade que irá se manifestar na Imago – Dei, ou seja, na imagem arquetípica do Self. Por isso não se deve confundir o arquétipo do Self com o inconsciente tal e qual. O Self é um conteúdo especial e uma imagem arquetípica da totalidade, do potencial mais pleno do homem, a unidade da personalidade como um todo.
Quando ocorre esse encontro entre ego e essa imagem arquetípica, ele é geralmente carregado de muito temor. O ego assimila esse encontro como uma espécie de morte, pois ele terá de abdicar de ser o centro (e foi assim ele se sentiu até então!). E é nessa hora que o ego pode se esquivar do processo.
Não é nada fácil esse encontro! É por meio do Self, que o individuo é posto em confronto com o bem e mal, com o humano e divino, com o finito e o infinito. O ego compreende a sua finitude e a sua incompletude.
O Self é inumano, amoral, pois nele não há divisão entre opostos, não há bem e mal, não há masculino e feminino. Portanto, ele não se limita as nossas expectativas de moralidade.
O meio dito “junguiano” tem deturpado a noção do Self e ingenuamente falam desse encontro, descrevendo-o como um encontro com o anjo da guarda e com seres de luz. E com isso negligenciamos e negamos as trevas, buscando cada vez mais uma perfeição impossível de ser alcançada.
No dicionário crítico junguiano, é dito que Jung enfatizava que o Self deveria ser comparado a um demônio, um poder determinante sem consciência, onde as decisões éticas são relegadas ao homem, à consciência, e, com relação a intervenções do Self, que podem advir através de sonhos, por exemplo, Jung advertia que uma pessoa deve, tanto quanto possível, estar cônscia daquilo que ela decide e do que faz. Depois, se responde positivamente, não está simplesmente submissa ao arquétipo nem obedecendo a seu próprio capricho; ou, se se desvia, fica consciente de que pode estar destruindo não apenas alguma coisa de sua própria invenção, mas uma oportunidade de valor indeterminado. O poder de exercer tal discriminação é a função da consciência.
O Self, portanto, é uma realidade psicológica. Cada indivíduo possui uma imagem do divino em seu intimo, é uma imagem interior particular, influenciada pela cultura e pelo meio onde vive.
O encontro com essa imagem leva ao processo de individuação, que consiste em desempenhar seu papel único na sociedade.
Mas um dos maiores perigos desse encontro é o da inflação. O ego pode se identificar com a divindade e sucumbir ao complexo de Deus. Por isso o eu precisa ser o mais flexível possível, para estabelecer fronteiras individuais e conscientes para não sucumbir à força das imagens arquetípicas e inconscientes.
A interação entre o ego e o Self é um processo incessante, que irá se expressar na individualidade da vida de uma pessoa.
O Self fala conosco por meio dos sonhos, e escutar esses sonhos pode trazer desenvolvimento e amadurecimento à personalidade.
Em O homem e seus símbolos, Von Franz diz:
“Tudo acontece como se o ego não tivesse sido produzido pela natureza para seguir ilimitadamente os seus próprios impulsos arbitrários, e sim para ajudar a realizar, verdadeiramente, a total idade da psique.”
O Self está ai para nos dizer, que simplesmente não possuímos controle de nada. Ouvir os sonhos é procurar saber o que a totalidade quer de nós. Não estamos ao nosso próprio serviço, mas temos escolha entre realizar nosso potencial, contribuindo assim para uma sociedade mais consciente, ou atrapalhar nosso desenvolvimento e o de outros.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Valente e o resgate do feminino



Valente, uma animação produzida pela Pixar é um conto de fadas diferente do padrão.
Não há príncipe encantado!
No filme a princesa Merida, é criada pela mãe para ser uma perfeita princesa e a sucede-la como rainha.
Merida precisa seguir protocolos e etiquetas. Tudo conforme o costume dos antepassados. Ela precisa ser uma dama! Mas Merida prefere caçar com seu arco e flecha e cavalgar pelas florestas selvagens da Escócia.
Mas sua mãe tem outros planos, casa-la! Para isso organiza uma competição de forma a escolher seu futuro marido. Nesse instante, se vendo obrigada a casar, recorre à ajuda de uma bruxa. A bruxa então lhe da uma poção no intuito de mudar sua mãe.
Mas quando a poção surte efeito, a transformação da rainha não é exatamente a que Merida esperava… E ai caberá à jovem ajudar a sua mãe e a impedir que o reino entre em guerra com os povos vizinhos.

Valente é uma metáfora perfeita da redenção do feminino na relação mãe e filha.
Merida e a mãe são aspectos complementares da mesma psique. A rainha é o feminino que precisa seguir as convenções impostas, com comportamentos ditados pela sociedade e que, provavelmente, foi passado por sua mãe. Merida é o aspecto juvenil cheio de sonhos, que a mãe teve que reprimir. Ela é o aspecto indomável, selvagem que quer se casar por amor.
A rainha, por medo de sua própria sombra, tenta reprimir isso em sua filha. Mas ambas se identificam uma com a outra.
A redenção ocorre quando a menina por meio da mãe terrível simbolizada pela bruxa, mas que também possui um aspecto de velha sábia, lhe oferece o veneno que também cura.
Com a poção rainha conseguiu acessar novamente seu lado selvagem e ctônico, resgatando seus instintos femininos e maternos. E Merida por fim amadurece, se tornando capaz de assumir responsabilidades e de ser uma majestade perfeitamente feliz.




quinta-feira, 6 de março de 2014

Para que servem os mitos?





Por: Hellen Reis Mourão




Todos os povos antigos possuíam a sua própria mitologia. Cada mitologia demonstra a forma como cada povo pensava a respeito de suas origens e também como imaginavam a estrutura fundamental de sua existência. Revelando a alma de um povo.

Conforme Carlos Byington, os mitos nos mostram os caminhos que percorrem a Consciência Coletiva de uma determinada civilização durante a sua formação, e também a delineação do mapa do tesouro cultural através do qual a Consciência Coletiva de um povo pode, a qualquer momento, voltar para realimentar-se e continuar se expandindo.
Os mitos nos trazem a percepção das ideias, não são histórias literais. Não se apreende o mito via intelecto, pois o mito fala a linguagem da alma, uma linguagem simbólica.
Eles dão formas aos arquétipos, uma vez que eles não podem ser contatados diretamente pela psique, pois no inconsciente coletivo eles não possuem formas definidas.
Segundo Joseph Campbell, os mitos “transmitem mais do que um mero conceito intelectual, pois, pelo seu caráter interior, eles proporcionam um sentido de participação real na percepção da transcendência”.

Transpondo para o nível individual pode-se afirmar que os mitos nos levam a experiência de nos sentirmos vivos. Traz-nos a sensação de que nossa vida no plano físico tem ressonância com nosso mundo interior, aquele mundo que habita nosso ser mais profundo.
 

Conforme Joseph Campbell em O Poder do Mito.
“Quando a história está em sua mente, você percebe sua relevância para com aquilo que esteja acontecendo em sua vida. Isso dá perspectiva ao que lhe está acontecendo. Com a perda disso, perdemos efetivamente algo, porque não possuímos nada semelhante para pôr no lugar. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se você não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta. Mas assim que for apanhado pelo assunto, haverá um tal senso de informação, de uma ou outra dessas tradições, de uma espécie tão profunda, tão rica e vivificadora, que você não quererá abrir mão dele.”