sexta-feira, 30 de maio de 2014

A função inferior




 Por: Hellen Reis Mourão
A função inferior é nosso calcanhar de Aquiles, onde está a nossa ferida mortal, aquilo que não gostamos de ver em nós. Onde “pagamos mico”, nos embaraçamos.
Aquilo que te fere, que te toca, que te da vontade de gritar, chorar...Sua ferida mortal!
Sendo a porta do inconsciente quando cutucada se abre para a sombra, ativa complexos e detona o ego.
É como pisar em formigueiro, em questão de segundos seu pé está lotado de formigas. As formigas são complexos que “engolem” o ego.
Muitos me perguntam como assimilar a função inconsciente¿
Eu respondo: é impossível!
Essa é uma idéia ilusória do ego, que podemos ”assimilar” a função inferior. Pois ela é o inconsciente. Ela é o portal por onde passam os nossos conteúdos sombrios. E é humanamente impossível assimilar todo o inconsciente. Cada vez que você se conscientiza de um conteúdo sombrio, logo vem outro.
Somos completamente incapazes de exercer um controle consciente da função inferior, somos o tempo todo arrastados por ela e incapazes de pôr um freio, e pará-la.
O ego é uma parte ínfima do sistema psíquico, mas é extremamente arrogante. Na verdade é o ego quem deve se render a ela, pois ela é maior que ele.
Existe uma variedade de testes para “detectar” o nosso tipo psicológico. Todos que começam a estudar Jung ficam fascinados e curiosos para se identificar com um tipo. E quando descobrem se sentem importantes por serem intuitivos, ou pensadores lógicos. E o ego acaba inflando mais e a atitude consciente fica mais unilateral.
Eu confesso que já cai também nessa tentação. O ego pode ser incomodo insolente!
Mas o que é importante lembrar é que a função inferior é muito maior que a superior. O ego é apenas uma pequenina ilha vagando em meio a um oceano que é o inconsciente. Somos uma partícula ínfima!
O ego não quer sofrer, se identifica com uma função como forma de defesa. Mas essa defesa quando perdura se torna neurose.
Render-se pode causar vergonha, mas devemos nos eliminar a identificação com uma função e aprender a navegar em outros mares. Começando devagar com as auxiliares, que já ampliarão a percepção do mundo e de si mesmo.
Sem a função inferior todo o processo da vida e de desenvolvimento psíquico iria se petrificar e estagnar em uma atitude unilateral da consciência.
Von Franz, em A Função Inferior compara as quatro funções com quatro portas, sendo que a quarta e inferior nós não possuímos a chave. Essa porta nunca será fechada, pois é nela que devemos sucumbir, sermos derrotados afim de que possamos nos desenvolver.

Através dela as figuras como sombra e anima/animus podem passar. E é comum que essas instâncias psíquicas estejam contaminadas pela nossa função inferior. Assim um intuitivo, por exemplo, pode se apaixonar por uma mulher tipo sensação, projetando a sua anima e função inferior nela.
Nossa função inferior pode nos aparecer em sonhos com um aspecto animal, pois ela é primitiva. Sendo primitiva fazemos um esforço descomunal para não expormos nosso lado animal e nossa inferioridade aos outros. E nessa hora usamos o nosso controle habitual, valendo-se de uma persona bem desenvolvida.
Mas esse lado animal da função inferior nos liga aos nossos instintos mais profundos, perdidos, aos antepassados e a toda história da humanidade.
Outro ponto importante a ser mencionado e que causa muita confusão, é o que diz respeito a assimilação. Como disse, assimilação da função inferior é impossível, primeiro porque se assimilarmos ela toda, fechamos a porta do inconsciente. Segundo, que assimilação de uma função é algo muito profundo.
Como diz Von Franz, em A função inferior:
“Assimilar uma função significa viver com ela no primeiro plano. O fato de alguém cozinhar ou costurar um pouco não significa que a função sensação foi assimilada. A assimilação significa que toda a adaptação da vida consciente recai naquela função por algum tempo. A passagem para uma função auxiliar ocorre quando se sente que a atual maneira de viver se tornou “sem vida”, quando se fica, de modo mais ou menos constante, entediado consigo mesmo e com as próprias atividades.”
Concluindo, ser tocado pela função inferior, traz a sensação de colapso interior, de um sentimento de impotência.
Ela vai acontecer quando o domínio da consciência e a atual situação de vida do individuo se tornou obsoleta e “sem sentido”. Seu modo de vida é sem vida, sem libido, sem Eros. Ela vem para vencer a tirania da função dominante, que aprisiona o ego.
Entretanto, ela irá trazer as camadas mais profundas do inconsciente até nós. Devemos nos comprometer com ela. Ela pede um compromisso, e não apenas visitas esporádicas. Somente assim, ela poderá promover mudanças em toda a estrutura da personalidade.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A importância dos contos de fada




 Por: Hellen Reis Mourão
Durante toda a história da humanidade, o homem, mesmo não tendo consciência disso, procurou manter um relacionamento com o inconsciente coletivo e seus arquétipos.
Entre os povos antigos isso se dava por meio da interpretação dos sonhos e das estórias contadas ao redor de fogueiras.
Os contos de fada, assim como os mitos, as lendas e as fabulas, falam a linguagem da alma. São similares aos nossos sonhos e as nossas fantasias.
Observe qualquer menina quando tem o contato com os contos pela primeira vez. Elas se encantam com as princesas, com as fadas, com as rainhas. Elas vivem aquilo em suas brincadeiras, em sua fantasia.

Marie Louise Von Franz, uma das maiores expoentes no estudo dos contos de fada, diz que os contos são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo, pois eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa (Von Franz, 2005).
Quando nos tornamos adultos perdemos esse contato, dando primazia à consciência, e parte desse mundo arquetípico vai para o inconsciente.
Mas retomar a leitura e a compreensão dos contos, pode se tornar um refrigério para a alma. Neles podemos resgatar impulsos, sonhos e instintos perdidos.
Em sua obra A interpretação dos contos de fada, ela distingue os contos dos mitos.
“Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fada existe um material cultural consciente muito menos específico e, conseqüentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique.”
Portanto, os contos estão em uma camada mais profunda da psique coletiva.
Ainda na mesma obra Von Franz (2005) diz:
“Para mim os contos de fada são como o mar, e as sagas e os mitos são como ondas desse mar; um conto surge como um mito, e depois afunda novamente para ser um conto de fada. Aqui novamente chegamos à mesma conclusão: os contos de fada espelham a estrutura mais simples, mas também a mais básica — o esqueleto — da psique.”
Mas as diferenças são ainda mais visíveis, pois nos contos o herói ou a heroína não agem em nome, ou sob a ação de algum Deus. Aliás, seu mundo não é governado por essas forças, mostrando que os contos estão destituídos do aspecto cultural.
Além disso, nos mitos o herói geralmente é punido por haver desrespeitado alguma lei divina, já nos contos não há essa espécie de moralidade. O herói é impelido à ação por outros motivos, que podem ser até inusitados.
Entretanto Eliade (1972) aponta nem sempre é verdade que o conto indica uma "dessacralização" do mundo mítico, mas está mais para uma camuflagem dos motivos e dos personagens míticos; mostrando que houve uma "degradação do sagrado".
Os deuses podem ser discernidos nas imagens dos protetores, adversários e companheiros dos heróis. Mesmo camuflados continuam cumprindo sua função.
Os contos apesar de terem se tornado entretenimento para crianças atualmente apresentam um conteúdo que se refere a uma realidade séria: a iniciação, ou seja, a passagem, através de uma morte e ressurreição simbólicas, da ignorância e da imaturidade infantil para a idade espiritual do adulto.
Neles encontramos temas como: provas iniciatórias, descida ao inferno e ascensão ao céu, morte e ressurreição, casamento com a princesa ou príncipe.


No trabalho psicoterápico, as imagens dos contos servem para ilustrar situações de vida, nas quais as pessoas passam. Muitos se identificam com determinada situação ou personagem levando a uma compreensão do que deve ser feito no momento.
Os contos possuem a mesma função dos sonhos. Eles podem confirmar, criticar, compensar e até mesmo curar uma atitude consciente, desde que o individuo se abra àquele ensinamento.
Nessas narrativas podemos observar que o inconsciente quer compartilhar conosco uma experiência original, ou seja, uma experiência arquetípica.
Segundo, Von Franz (2005), eles descrevem apenas um fator psíquico desconhecido chamado Self. Mas como ele é extremamente complexo são necessárias milhares de versões para que esse fato se manifeste na consciência e mesmo assim, quando se manifesta ainda não se esgota.
Como o conteúdo dos contos trata de um material tão afastado da nossa consciência, tão primevo, tão comum a humanidade que sua linguagem é muito diferente da qual a consciência está habituada. O que deixa sua interpretação mais difícil.
Por isso, o conto de fada, e seus personagens, sempre mostram um pouco de com cada um de nós, mesmo que não queiramos reconhecer as bruxas, ogros, madrastas e vilões dentro de nós, eles estão ali, nos mostrando nossas sombras, medos e conflitos internos.
Essas estórias, portanto, trazem o mundo dos arquétipos para o nosso dia a dia, trazendo sentido a vida! Mostram-nos como viver o nosso destino, que passamos por momentos felizes, de conflitos, de perdas, mas que se nos abrirmos ao aprendizado desses momentos iremos encontrar o tesouro interno. Aquele que irá enriquecer as nossas vidas e nos encher de significado.
Cada conto de fadas com sua linguagem simbólica possibilita que a psique se manifeste. Fornecendo às energias instintivas uma direção simbólica e um conteúdo cheio de sentido. Sua leitura reaviva conteúdos inconscientes, possibilitando sua integração na consciência, e assim apontando o caminho para a resolução de conflitos.
Infelizmente hoje nossa sociedade está mais focada nas notícias do dia e nos problemas do momento, e nos esquecemos da literatura do espírito. Aquela que fala direto à alma. Perdemos com isso, algo de nossa infância que é a capacidade de nos encantar, de nos surpreender.

Se hoje os contos representam um divertimento ou uma evasão, é apenas para a consciência banalizada do homem moderno; pois na psique profunda, os enredos iniciatórios conservam sua seriedade e continuam a transmitir sua mensagem e a produzir mutações.
Portanto, os contos, assim como os mitos, oferecem um modelo para a vida, um modelo vivificador e encorajador que permanece no inconsciente contendo todas as possibilidades positivas da vida. Por essa razão, conhecer os contos nos ajuda compreender as nossas razões de viver e isso muda toda a nossa disposição de vida, podendo muitas vezes mudar nossa própria condição psicológica (Von Franz, 2005).
Quando a pessoa se identifica com um conto passa a perceber que seu problema não é único e já foi resolvido de diversas formas ao longo da historia da humanidade. Isso diminui a pretensão do ego, torna o individuo mais humilde e aberto as repostas do inconsciente e mesmo que o conto tenha muitos séculos de existência ele terá um efeito estimulante e novo na psique levando o individuo a uma compreensão e entendimento de seu conflito.
 na sua forma mais simples, plena e concisa. Muito mais que a Mitologia!
Em sua obra A interpretação dos contos de fada, ela distingue os contos dos mitos.
“Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fada existe um material cultural consciente muito menos específico e, conseqüentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique.”
Portanto, os contos estão em uma camada mais profunda da psique coletiva.
Ainda na mesma obra Von Franz diz:
“Para mim os contos de fada são como o mar, e as sagas e os mitos são como ondas desse mar; um conto surge como um mito, e depois afunda novamente para ser um conto de fada. Aqui novamente chegamos à mesma conclusão: os contos de fada espelham a estrutura mais simples, mas também a mais básica — o esqueleto — da psique.”
Como atualmente carecemos de mitos, um retorno aos contos de fada tem se feito presente com uma força tremenda. Basta observar a quantidade de filmes e séries, sobre o tema, que estão sendo produzidas atualmente.

No trabalho de psicoterapia, as imagens dos contos servem para ilustrar situações de vida, nas quais as pessoas passam. Muitos se identificam com determinada situação ou personagem levando a uma compreensão do que deve ser feito no momento.
Os contos possuem a mesma função dos sonhos. Eles podem confirmar, criticar, compensar e até mesmo curar uma atitude consciente, desde que o indivíduo se abra àquele ensinamento.
Sua linguagem, assim como as dos sonhos, dos mitos e lendas, é simbólica por isso a sua escuta e leitura, possibilita que a psique se manifeste. Ativando processos inconscientes e facilitando a integração desses conteúdos psíquicos afetados com a consciência.
Por isso, o conto de fada, e seus personagens, sempre tem a ver com cada um de nós, mesmo que não gostemos de reconhecer as bruxas, ogros, madrastas e vilões dentro de nós. Mas eles estão ali, nos mostrando nossas sombras, medos e conflitos internos.
Essas histórias, portanto, trazem o mundo dos arquétipos para o nosso dia a dia, elas dão sentido a vida! Mostram-nos como viver o nosso destino, passando por momentos felizes, de conflitos, de perdas, mas que se nos abrirmos ao aprendizado desses momentos iremos encontrar o tesouro interno. Aquele que irá enriquecer as nossas vidas e nos encher de significado.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Tempo





Por: Hellen Reis Mourão
Tempo!
Quantas vezes nos deparamos com o problema do tempo?
Gostaríamos de ter mais tempo para fazer mais coisas!
O quanto não sonhamos com um futuro feliz! Sonhamos em encontrar a pessoa dos nossos sonhos, almejamos um emprego melhor, o carro do ano, tudo o que venha nos trazer felicidade...no futuro!
Ou quantas vezes nos pegamos lamentando o passado, lembrando de nossas infelicidades, quando nossos corações foram partidos, quando fomos agredidos, abandonados, ou nos pegamos pensando em coisas que deveríamos ter feito, mas não fizemos.
O tempo cronológico é uma invenção da consciência. Nosso ego, nossa mente é capaz de se locomover pelo para o passado e para o futuro. E o que é pior, vivemos constantemente neles. Raramente estamos no presente.
Ekchart Tolle, em O Poder do Agora comenta;
“Para o ego, o momento presente dificilmente existe. Só o passado e o futuro são considerados
importantes. Essa total inversão da verdade explica por que, para o ego, a mente não tem função. O ego está sempre preocupado em manter vivo o passado, porque pensa que sem ele não seríamos ninguém. E se projeta no futuro para assegurar a continuação de sua sobrevivência e buscar algum tipo de escape ou satisfação lá adiante.
Ele diz assim: “Um dia, quando isso ou aquilo acontecer, vou ficar bem, feliz, em paz”. Mesmo quando o ego parece estar preocupado com o presente, não é o presente que ele vê, porque constrói uma imagem completamente distorcida, a partir do passado. Ou então reduz o presente a um meio para obter o fim desejado, um fim que sempre consiste em um futuro projetado pela mente. Observe sua mente e verá que é assim que ela funciona.”

Portanto nosso ego está estruturado para representar e estabelecer o mundo, e as coisas dentro do espaço e tempo.
Mas isso não existe no inconsciente. Todos os conteúdos que surgem no limiar de nossa consciência advindos do inconsciente se encontram simultaneamente no presente.
Para Carl Jung no inconsciente existe a relatividade do espaço e do tempo. Além disso, de acordo com a neurociência o inconsciente nos “protege”, o que nos permite andar na rua ao mesmo tempo em que falamos ao celular e em que pensamos no que vamos comer no jantar, sem com isso sermos atropelados.
Quantas vezes você estava dirigindo e pensando na vida quando milagrosamente chegou ao seu destino, sem saber exatamente como¿
Isso aconteceu porque o inconsciente está no presente!
Nós, seres humanos, com o nosso ego, vivemos em um estado de nostalgia e torpor. Ansiamos pela profundeza materna, pelo seio acalentador e fugimos do presente, constantemente. E muitas vezes fazemos isso nos anestesiando com drogas, comida, sexo, jogos e compras em excesso.
Ora vivemos pensando no passado, ou ansiamos por um futuro milagroso. Tentamos conservar a infância e a eterna juventude, e fugimos da vida. Mas essa só acontece no momento presente. E a realidade é que vamos definhar. Cabelos brancos aparecerão, a pele enrugará.
Negamos à libido o fluxo da vida quando negamos os estágios inevitáveis da vida. Amadurecer em nossa sociedade atual é um grande problema, pois negamos a morte. Como diz Jung, a fuga da vida não nos liberta da lei do envelhecimento e da morte.
É por isso que atualmente, doenças psíquicas como a depressão e a ansiedade crônica, atingem números alarmantes.
Em sua obra Símbolos da Transformação, Carl Jung alerta sobre o perigo de ignorarmos o inconsciente. E esse perigo se encontra na invasão.
“A invasão do inconsciente torna-se um perigo real para o consciente quando este não é capaz de captar e integrar compreensivamente os conteúdos trazidos.”
“Os conteúdos que então invadem o consciente representam, de forma arquetípica, aquilo que o consciente deveria ter vivenciado para não estacionar.”

O que o inconsciente deseja é que vivamos o presente, da forma que a vida se apresenta, assim diminuímos expectativas e frustrações.
A transmutação da realidade está em aceita-la e ser vivida em sua plenitude.
Esse é o sacrifício que deve ser feito!





quinta-feira, 1 de maio de 2014

Hermes - O psicopompo




 Por: Hellen Reis Mourão
Hermes era Filho do deus Zeus e da deusa Maia. Nasceu num dia quatro (número que lhe era consagrado), numa caverna do monte Cilene, ao sul da Arcádia. O menino revelou-se de uma precocidade extraordinária, apesar de enfaixado e colocado no vão de um salgueiro, árvore sagrada, símbolo da fecundidade e da imortalidade, o que traduz, de saída, um rito iniciático.
No mesmo dia em que veio à luz, desligou-se das faixas, demonstração clara de seu poder de ligar e desligar, e viajou até a Tessália. Lá furtou uma parte do rebanho de Admeto, guardado por Apolo.
Amarrou ramos na cauda dos componentes do rebanho, para que, enquanto andassem, fossem apagando os próprios rastros. Numa gruta sacrificou duas novilhas aos deuses, dividindo-as em doze porções, embora os imortais fossem apenas onze: é que acabava de promover-se a décimo segundo. Encontrou uma tartaruga no caminho, retirou-lhe a carapaça e, com as tripas das novilhas sacrificadas, fabricou a lira.
Apolo descobriu o roubo e o acusou formalmente perante Maia, que negou que pudesse o menino, nascido há poucos, dias ter praticado semelhante delito. Apolo apelou para Zeus, que interrogou ao filho, persistindo este na negativa. Zeus, convencido da mentira do filho, obrigou-o a prometer que nunca mais mentiria, no que Hermes concordou. Zeus, contudo, acrescentou que Hermes não estaria obrigado a dizer a verdade por inteiro.
Apolo ficou encantado com o som que Hermes arrancava da lira, trocando assim o rebanho roubado pelo instrumento.
Em outra ocasião, Hermes criou a “flauta de Pã”. Tendo Apolo gostado da flauta, propôs-lhe uma troca: ofereceu em troca o “cajado de ouro” (Caduceu), que usava para guardar o gado. Hermes aceitou, pedindo, além do cajado de ouro, lições de adivinhação.
Apolo assentiu. Desse modo, o caduceu de ouro passou a figurar entre os atributos principais de Hermes, que, de resto, ainda aperfeiçoou a arte divinatória, auxiliando a leitura do futuro por meio de pequenos seixos.

Os mitos descrevem Hermes como uma divindade complexa, com muitos atributos e funções. Todas associadas à flexibilidade, inconstância, imparcialidade, ausência de fixação, e também associadas a características secundárias a estas, como a sedução, a mentira, a adivinhação, astúcia, etc. Essas características plasmaram a imagem de Hermes em formas diversas, a saber:
Deus agrário, protetor dos pastores nômades indo-europeus e dos rebanhos.
Tem qualidade de “Trickster”, pela astúcia utilizada ao ter furtado o rebanho de Apolo, tornando-se o símbolo de tudo que remeta a astúcia, ardil e trapaça; amigo e protetor dos comerciantes e dos ladrões.
Hermes é um dos “menos olímpicos dos imortais”, pois gostava de se misturar com os homens. Zeus disse-lhe certa vez; -“Hermes, tua mais agradável tarefa é ser o companheiro do homem; ouves quem estimas”, ampliando-lhe, assim, as funções (companheiro do homem, dispensador de bens).
Regente das estradas, pois se locomovia com incrível velocidade, devido as sandálias de ouro que usa. Não se perdia na noite porque dominava as trevas. Para agradecê-lo ou para obter bons lucros, os viajantes lançavam pedras aos caminhos, em honra ao deus. A pedra tem, neste caso, um significado especial, simboliza a união do crente com o Deus, ao qual as mesmas características são consagradas; na pedra está a força, a perpetuidade e a presença do divino (protetor dos viajantes, das estradas).
Conhecedor dos caminhos, sem ponto fixo e sem morada definida, Hermes era mensageiro dos deuses entre si, é mensageiro entre estes e os homens. Realiza a função de psicopompo, conduzindo assim as almas dos mortos a Hades, e também trazendo-as à luz, quando solicitado.
É aquele que transmite toda ciência secreta. Não sendo apenas um deus olímpico, mas igualmente ou, sobretudo um "companheiro do homem", Hermes tem o poder de lutar contra as forças ctônias (terrenas), porque as conhece. Todo aquele que recebeu deste deus o conhecimento das fórmulas mágicas tornou-se invulnerável a toda e qualquer obscuridade. Aquele que é iniciado pelo luminoso Hermes é capaz de resistir a todas as atrações das trevas, porque se tornou igualmente um "perito".

Como dito anteriormente, Hermes, assim como o romano Mercúrio, o africano Exu, o egípcio Thot e o hindu Ganesha, representa o arquétipo do psicopompo
Psicopompo é uma palavra que tem origem no grego psychopompós, junção de psyché (alma) e pompós (guia) e designa um ente cuja função é guiar ou conduzir a percepção de um ser humano entre dois ou mais eventos significantes.
Arquétipo que efetua a tarefa de revelar um símbolo ou sentido de orientação, necessário para a continuidade da trajetória individual de quem o encontra.
Este guia interior pode ser de natureza humana, (na mitologia grega como Ariadne), animal (coelho de Alice no País das Maravilhas) ou espiritual (como no caso de Hermes).
Quando nos encontramos em um estado de identificação unilateral com nosso ego e a vida consciente, podemos ser surpreendidos por eventos que desestruturam nosso equilíbrio emocional. Nessas ocasiões Hermes se fará presente, fazendo traquinagens a fim de restabelecer a integridade psíquica, levando o individuo a lidar com neuroses, somatizações e outras dificuldades psíquicas.
A capacidade desse Deus de lidar com os três níveis – o inferior, o terreno e o superior, o torna capaz de transitar e trazer mensagens destes planos. Em uma análise profunda, é capaz de trazer mensagens do inconsciente para a consciência, possibilitando que os conteúdos reprimidos (sombra) e o nosso lado não digno sejam elaborados e ressignificados.
Além disso, a capacidade de conduzir almas por estes planos o torna, sob o ponto de vista da psicologia analítica, um condutor dos seres em sua transmutação e em seu processo de individuação.
Portanto, a presença deste arquétipo é de importância vital para o processo psicoterapêutico e de individuação, uma vez que esse é um trabalho em conjunto de negociação entre inconsciente e consciente.
O ato de se tornar consciente, portanto, deve passar pelo nosso lado menos bonito, menos digno, aquilo que não agrada o coletivo e que constantemente desprezamos, mas que é extremamente necessário para entrarmos em contato com outros lados de nossa personalidade. Pois somente aquilo que evitamos é que pode nos curar!