segunda-feira, 30 de junho de 2014

Considerações sobre a neurose





Estava lendo Mitos de Criação da Marie Louise Von Franz quando me deparo com um trecho que chamou a atenção. Algo já comentado por Carl Jung sobre a neurose e o processo psicoterapêutico.
Von Franz observa que nos mitos, quando um mundo novo vai ser criado, é sempre necessário um sacrifício. Alguém morre, ou um deus, ou gigante, ou uma criatura humanóide.
A vitima, nesse caso, sempre está ligada a uma condição anterior que deve morrer para que um novo mundo, ou uma nova condição consciente, se apresente.
Von Franz ainda salienta que cada passo adiante, visando à construção de mais consciência destrói o equilíbrio vivo em vigor até agora.
E é ai que entra uma questão muito delicada: o quão difícil e doloroso é para o ego se separar de uma situação neurótica.
Pois de certa forma a neurose gera uma espécie de equilíbrio, uma zona de conforto. O ego se apega a essa situação, pois em sua fantasia, ele enxerga o seu fim.
E o ego tem medo do novo, tem medo de perder o controle e não ser mais o centro.
Por essa razão há sempre certa resistência em se libertar da neurose. Ela ao mesmo tempo em que traz a cura traz um equilíbrio por compensação. Mas esse equilíbrio precisa ser rompido!
Esse é um momento delicado e crucial na psicoterapia. E até que ponto o psicoterapeuta tem a sensibilidade de perceber isso, que a pessoa não se “desgruda” de sua neurose?
É muito comum o analista cair na tentação de encaixar todos os sintomas em termos: “Resistência”, “Complexo de Édipo”, “Dominação pela anima”.
Nomear a neurose pode ser um grande perigo, porque ela ganha um significado tremendo. Não que o analista não deva conhecer a teoria, mas é como Jung mesmo disse devemos conhecer todas as teorias, dominar todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.
Pois a neurose pode ser apenas uma fantasia da neurose, um medo de se desconectar com o passado e com o que é conhecido. Devemos perder o medo de seguir em frente e deixar o fluxo da vida seguir.
Muitos analistas não conseguem ajudar seus clientes nessa tarefa de desapego, pois eles mesmos estão apegados as suas neuroses.
Mas é importante nos atentar que nenhuma vida nova pode surgir sem que ocorra um declínio e o sacrifício da que havia anteriormente.




quarta-feira, 11 de junho de 2014

A bruxa e a sedução




Por: Hellen Reis Mourão
Nessa nova safra de produções de filmes e séries com a temática de contos de fadas, uma questão interessante se apresenta na forma de uma figura: A figura da bruxa!
Em todas as produções recentes, a bruxa, ou madrasta é sempre mais sedutora, mais interessante ou até mesmo mais bonita que a princesa.
E se observarmos os contos de fadas mais famosos, como Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida, Rapunzel, a figura da bruxa está sempre presente. É uma figura que aparece repetidamente apenas mudando a roupagem.
Mas porque as bruxas seduzem tanto? Porque elas atraem tanto o nosso imaginário?
Para entendermos essa questão é importante atentarmos que se trata de um arquétipo. A bruxa/madrasta representa uma faceta do arquétipo da Grande Mãe.
No arquétipo da Grande Mãe estão inseridas a bruxa ou madrasta (a mãe diabólica, terrível), a velha sábia e a deusa que representa a fertilidade (aspectos da mãe boa).
A imagem da boa mãe representa tudo o que é belo e puro, já a mãe terrível representa aquilo que é ligado à destrutividade, à bruxaria e à animalidade.
Segundo Newman, em A Criança, o aspecto da Mãe Terrível liga-se à morte, ruína, aridez, penúria e esterilidade.

Infelizmente, com a cristianização de nossa sociedade, o aspecto diabólico da bruxa foi reprimido da imagem da Grande Mãe. Sua imagem se tornou unilateral, sendo a maior representante dessa imagem a Virgem Maria.
De acordo com Marie Louise Von-Franz, em A sombra e o mal nos contos de fadas, a bruxa é a Deusa-Mãe negligenciada, a Deusa da terra, a Deusa-Mãe em seu aspecto destrutivo.
Nisso percebe-se que todo o aspecto ctônico, toda sedução e sexualidade femininas foram suprimidas e associadas à imagem da bruxa, da feiticeira.
Entretanto, é um aspecto extremamente necessário para o desenvolvimento psicológico e para o processo de individuação.
Nos contos de fada citados, geralmente o pai (elemento masculino) é fraco ou inexistente, sendo somente redimido, após o enfrentamento da heroína com a bruxa, possibilitando a chegada do príncipe. E a mãe boa morre, dando lugar a bruxa ou madrasta, que passa a persegui-la e humilhá-la.

Entretanto, a bruxa é extremamente importante para o desenvolvimento da princesa. Sem ela não há narrativa, não há estória. Sem ela a princesa não sairia do lugar. Ela é uma força motriz que força a individuação.
Portanto, é a sombra da boa mãe negligenciada, que torna a heroína ou princesa tridimensional.
Em termos individuais a mãe terrível nos força a sair da zona de conforto. O ser humano sempre busca o prazer e o aconchego doa braços da boa mãe, e ele sempre tende a se tornar inerte nesse estado paradisíaco. Entretanto nele, não há desenvolvimento. Sem a mãe terrível para nos expulsar do paraíso não progrediríamos.
Ao aceitar o desconforto, o sofrimento e as limitações impostas pela bruxa, podemos nos desenvolver em direção a uma totalidade, capaz de integrar o bom e o ruim, o agradável e o desagradável.
Portanto, sem ela não podemos conhecer os opostos.
Além disso, a bruxa possui um caráter numinoso e por isso ela é fascinante. Ela é aterradora, pois pode manter a consciência em cativeiro, mas extremamente atraente.
Não é a toa que as produções de contos de fada hoje dão ênfase a esse personagem. Sua força enquanto mobilizadora do desenvolvimento é tremenda. Nossa consciência coletiva clama pela totalidade para que possamos dar um avanço em nosso processo de individuação e em nosso desenvolvimento coletivo.