quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Heróis e heroínas - modelos arquetipicos






Por: Hellen Reis Mourão
Nos contos de fadas, encontramos a figura do herói, ou heroína. Uma figura para a qual torcemos e com a qual nos emocionamos. Suas peripécias e façanhas nos fazem sonhar e nos arrebatam da realidade em que vivemos.
O herói é abstrato e nos mostra algo ideal. Geralmente seu nascimento não é habitual. Esse nascimento é comumente acompanhado de algo miraculoso, de diferente, e algumas vezes o casal parental não pode conceber.
Outra característica marcante é que ele ou ela deve passar por certo numero de provas para poder alcançar seu objetivo.
Mas esse fascínio que essas figuras nos causam é devido a um caráter irracional do herói. O herói e a heroína não são seres humanos comuns, são figuras arquetípicas.

De acordo com Von Franz em O feminino nos contos de fadas, o herói e a heroína dos contos de fadas representam um ego arquetípico que é edificado pelo Self. Ele é o impulso latente para a produção do ego, por isso as crianças que estão no estágio de formação do ego se encantam tanto com essas figuras. Os heróis são um modelo ideal do Complexo do ego. Eles representam um modelo de comportamento da personalidade consciente. Aquele que age em harmonia com seus instintos e com a totalidade psíquica.
A psique com seus arquétipos é uma possibilidade virtual, e necessita do ego para a realização concreta na realidade, senão são apenas possibilidades.
O arquétipo no inconsciente coletivo não tem forma e nem pode ser nomeado, somente quando atinge o limiar da consciência passa a ter uma forma definida e um padrão de comportamento.
Portanto a totalidade da psique necessita do ego encarnado para se realizar de forma efetiva.

Entretanto, nosso ego tem a tendência de se dissociar da totalidade psíquica e o que é pior oferecer oposição a ela, o que gera inúmeras neuroses.
Levando em consideração que o ego nasce do inconsciente, porque o inconsciente cria algo que lhe causa tanto transtorno?
É comum dizermos que nós seres humanos nos diferenciamos dos animais por termos livre arbítrio. Bem os animais, seguem seus instintos, não oferecem resistência a eles e não questionam seus atos.
Nós humanos questionamos, resistimos e interferimos justamente porque temos a consciência da finitude do ego. Sabemos que o ego é frágil e impotente diante do inconsciente. Como dizia Freud, não somos donos de nossa própria casa.
Mas é justamente nesse conflito gerado pela angustia da duvida e da dissociação que ocorre a consciência. A totalidade além de querer que estejamos em consonância com ela, ainda quer que façamos isso com consciência.
Mas ter essa consciência é uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. Prometeu roubou o fogo dos deuses para dar aos homens. Zeus como forma de vingança enviou Pandora a Epimeteu e esta abre uma caixa que ele guardava a mando de seu irmão, Prometeu. Ao abrir a caixa de lá saiu todos os males que viriam para tornar a vida do homem em um caos, entretanto, ela fecha rapidamente esta, restando dentro apenas o mal que acabaria com a esperança.
Isto mostra que o fogo que traz consciência traz justamente a consciência do bem e do mal.
Além disso, atender a um pedido do Self causa um medo terrível. O ego está acostumado com aquilo que ele conhece, com a zona de conforto, mesmo que esta não seja tão confortável assim. Ele não deseja mudança, pois um dos maiores prazeres e talvez a maior paixão do homem é a preguiça.
Atender algo que vem do Self traz medo porque tem um caráter numinoso, uma força tremenda que pode mudar a personalidade consciente e fazer com percamos o controle! E o que o ego mais gosta é de controle. Por isso é muito penoso às vezes começar um novo relacionamento, entrar em um novo emprego, ou ter uma nova proposta de vida.
Estar à mercê do oceano do inconsciente e não saber para onde ele nos levará é assustador, mas os Heróis e Heroínas nos contos de fadas nos dão uma pista de que perder o controle vale a pena e que superar o medo traz a tona nossos mais preciosos desejos e a possibilidade de realizarmos na realidade prática.
Escolha seu herói, ou sua heroína e aprenda com ele, observe, sinta e aprenda de que forma ele segue seu instinto, seu faro e como ele não oferece resistência ao que tem que ser.