quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Introversão e Extroversão – Limpando conceitos




Por: Hellen Reis Mourão
O médico suíço Carl Gustav Jung, criou em 1921 com sua obra Tipos Psicológicos os termos extroversão e introversão.
Hoje esses termos se tornaram jargões usuais. É comum definirmos pessoas como extrovertidas e introvertidas, pois todos nós conhecemos pessoas fechadas, ariscas, difíceis de conhecer (introvertidos) e pessoas abertas, sociais, joviais e que sempre estão se relacionando (extrovertidos).
 Mas será que sabemos do que estamos falando quando nos referimos a alguém dessa forma?
Por essa razão vamos analisar o que é extroversão e introversão.
Conforme Carl Jung (1991), extroversão e introversão mostram tipos gerais de atitudes, e elas se distinguem pela direção de interesse e movimento da libido, ou seja, da energia psíquica.

Em outras palavras, a atitude da consciência será determinada pela direção de interesse em relação ao objeto.
Por objeto, entendemos tudo aquilo que não é o sujeito e que não se liga a pessoa e seu mundo interior, seus desejos e seus medos, incluindo pessoas e estímulos externos.
Os introvertidos são aqueles que hesitam, recuam e enxergam o contato com o objeto com receio e como se fosse algo pesado, massacrante. O mundo externo os desgasta e isso faz com que ajam de forma a atribuir ao objeto um superpoder.
Já os extrovertidos partem rápido e de forma confiante ao encontro do objeto. Aparentemente o objeto tem para ele uma importância enorme, mas no fundo o objeto não tem tanto valor assim e por isso é necessário aumentar a sua importância.
Resumindo, conforme Silveira (1981) na extroversão a libido fui sem embaraços ao encontro do objeto. Na introversão a libido recua diante do objeto, pois este parece ter sempre em si algo de ameaçador que afeta intensamente o indivíduo.
Para exemplificar as duas atitudes, vejamos as heroínas do conto de fadas moderno da Disney, o filme Frozen.

As duas irmãs do filme apresentam atitudes bem marcantes e opostas. Anna é extrovertida, jovial, se intromete em tudo e vive em busca relacionamentos, principalmente com sua irmã a introvertida Elza para qual o mundo externo é assustador. Sua personalidade é mais grave e desconfiada que a de Anna. Seus medos a assolam levando-a a reclusão. Ela busca se precaver de qualquer dispêndio de energia e acredita que o mundo externo enxerga seus dons como malignos.
Esse filme também vem ilustrar bem o que Jung diz sobre o fato das atitudes em relação ao objeto serem funções de adaptação. Cada uma das irmãs se adaptou ao meio em que vivia forma particular e individual.
Além disso, o fato das duas virem da mesma família mostra que as atitudes em relação ao objeto não são escolhas conscientes, mas inconscientes e instintivas.
Entretanto, a despeito de ser algo natural e de adaptação inconsciente essas atitudes também mostram um mecanismo de defesa do ego em relação ao inconsciente. A atitude oposta assusta e é motivo de desconfiança.
Mas vejamos como isso ocorre.
O inconsciente sempre visa à compensação da atitude consciente, e nesse movimento de compensação, um movimento inconsciente de introversão ocorre naqueles cuja personalidade consciente é extrovertida, e um movimento inconsciente de extroversão naqueles cuja personalidade consciente é introvertida (Silveira, 1981).
Nesse caso, podemos dizer de forma simplificada que o inconsciente do extrovertido é introvertido e vice-versa. Por essa razão é comum nos apaixonarmos pelo tipo oposto, mostrando que buscamos a completude pela projeção.
Mas a consciência tem a tendência a se defender e temer aquilo que é desconhecido, que lhe é inconsciente. A consciência tende a se manter na zona de conforto. Contudo, toda atitude radical é prejudicial e pode gerar neurose.
E dessa forma podemos compreender que o que o introvertido teme é o mundo externo e os objetos. Ele teme porque supervaloriza. Ele teme porque pode se perder ali, e sair do controle. E o extrovertido teme seu mundo interno, teme ficar sozinho e entrar em contato com seu mundo subjetivo, suas emoções e mais ainda teme se definir com sujeito.
E dentro desse dilema, é saudável que cada um busque colocar em sua vida um pouco da atitude oposta. É claro que isso deve ocorrer dentro do limite de cada um, pois uma mudança de tipo pode ser extremamente desgastante e afetar o bem estar psicológico e fisiológico do indivíduo. Por ser algo tão delicado, é importante então que se faça esse processo dentro da psicoterapia, com o auxilio de um profissional, que irá auxiliar o indivíduo a assimilar aos poucos e dentro do seu limite seu lado oposto. 

Bibliografia: 
JUNG, C. G. Tipos Psicológicos 8. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. 
SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 7 ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1981.