quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A Função inferior nos contos de fadas



Por: Hellen Reis Mourão

Na obra Tipos Psicológicos, Carl Jung nos forneceu um sistema de orientação do ego que se baseia em sua relação com o mundo exterior e interior por meio das funções psíquicas (sensação, intuição, pensamento e sentimento) e das atitudes (introvertida e extrovertida).
As funções psíquicas foram divididas em dois grupos: racionais (pensamento e sentimento) e irracionais (sensação e intuição). As funções racionais, Jung classificou como julgativas e as irracionais funções apreciativas.
Todos nós em nosso desenvolvimento psíquico acabamos por desenvolver uma função, que passa a ser então, usada com maior facilidade pelo ego em seu manejo com o mundo. A essa função Jung deu o nome de função principal.
Mas esse desenvolvimento da função superior se da à custa da repressão da função inferior, ou seja, aquela que é oposta à superior. Assim ocorre como todos nós, isso faz parte do nosso desenvolvimento como seres humanos. No entanto, em determinado momento da vida devemos olhar para ela e nos debruçar sobre qual o ensinamento ela tem para nos trazer.
Na formação da personalidade humana existe uma imensa gama de possibilidades de desenvolvimento, mas em geral desenvolvemos e formamos aquelas possibilidades que mais se adaptam ao meio ambiente. É uma forma arcaica de sobrevivência.
O homem é um ser gregário e que precisa se sentir pertencente e aceito.
Por exemplo, alguém que possui uma boa inteligência e que vive em um lar onde o racional e o estudo são valorizados irá desenvolver ainda mais seu intelecto. E mesmo que essa não seja sua tendência natural, irá desenvolver o intelecto para estar em consonância com esse ambiente. No entanto, a função oposta, o sentimento, ficará indiferenciada e arcaica. Essa pessoa excluirá as tendências sentimentais de suas escolhas.
Sobre a problemática da função inferior falei com mais detalhes em um texto anterior.
Aqui, nesse texto, quero comentar como a função inferior aparece nos contos de fadas e como os mesmos mostram caminhos para a aceitação e solução dessa parte da personalidade que fica encoberta pelo medo.
Alguns contos de fadas como As três plumas dos Grimm e a Czarina Virgem, o herói é uma figura desajeitada, é o filho mais jovem e desprezado pelo pai e irmãos.

Esses heróis desajeitados e inadaptados correspondem à função psíquica menos desenvolvida, ou seja, a inferior.
Outros contos onde o herói parece não estar adaptado a realidade do local, ou que não faz parte da corte e é alguém do povo e pobre, também mostram de forma menos clara a função inferior.
No conto de fadas Cinderela, também vemos a heroína como um símbolo da função inferior. A madrasta representa a função superior já desgastada e em mau funcionamento e as duas irmãs, como funções auxiliares da consciência, já não têm força para auxiliar o ego.
A estrutura então que se forma no conto é a seguinte: dois filhos são inteligentes e amados representando o fundamento básico para a construção das duas funções auxiliares no ser humano — e o filho mais novo, ou enteado, seria o Tolo representando a base da construção da função inferior. Contudo o Tolo não é somente isso, ele é também o herói, e toda a história está centrada nele (Von Franz, 2005).
O herói ou a heroína nessa estrutura é o mais novo(a) ou mais fraco(a), sendo sempre desprezado.
O fato de serem heróis significa que a função inferior desprezada é capaz de resolver problemas que a consciência não dá mais conta, liberando energia e um novo valor para a consciência do ego.
Em termos práticos essa é aquela situação, onde ficamos paralisados e não vemos solução para o nosso problema e tudo o que fazemos conscientemente dá errado. Os meios costumeiros e normais e agir não funcionam mais e nos sentimos impotentes e devemos lançar mão de uma atitude inusitada e estranha. É aquele momento em que fazemos justamente aquilo que dissemos que nunca iríamos fazer.
Temos que solucionar um problema com o nosso lado mais fraco e a vida acaba exigindo de nós uma nova atitude e forma de viver.
Um intuitivo, que possui dificuldade em lidar com o lado prático da vida e que vive no mundo das possibilidades, terá que olhar para o aqui e agora e assumir compromissos com a dura realidade.
Os contos de fadas podem então nos mostrar como transformar essa parte mais fraca, inadaptada e desprezada em herói ou heroína.
Geralmente os dois irmãos mais amados e mais hábeis não assumem a tarefa ou não conseguem realizá-la de forma consistente. Isso significa que quando precisamos desenvolver nossa função inferior as funções auxiliares só são capazes de alcançar o simples, trivial e habitual. Elas não são capazes de trazer o verdadeiro valor e o extraordinário.

Para isso precisamos ousar, transgredir, encontrar o inusitado em nossas vidas.
É importante também citar que alguns contos de fadas com essa estrutura deixam em aberto qual das quatro funções representa o herói ou a heroína e qual das atitudes vemos ali, se extrovertida ou introvertida. Isso significa que se trata de uma fôrma que será preenchida com a vida humana.
Cinderela por exemplo, se mantém introvertida, mas quando vai ao baile possui características extrovertidas, não deixando e forma clara qual a sua atitude mais habitual.
O conto então só documenta a questão fundamental e essencial do desenvolvimento da função inferior.
Mas isso não é uma regra, alguns mostram de forma mais clara qual é a função representada pelo herói.

O que é mais importante compreender então, é que o conto de fadas, traz uma infinita escala de possibilidades e vem sempre dizer algo ao homem, tocando profundamente em sua alma.
Conhecer o seu conto favorito, ou aquele com que se identifica mais pode colocar em movimento aquilo que ainda não pode se expressar.
Em momentos em que nos encontramos na encruzilhada e que não conseguimos solucionar problemas de forma costumeira, o conto pode nos auxiliar a trazer o inusitado e o diferente. Ele nos ensina que o que estamos desprezando em nós é justamente aquilo que precisamos para modificar a nossa vida.

Referências bibliográficas:
DIECKMANN, H. Contos de fadas vividos. São Paulo: Paulinas, 1986.
VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A Solutio nos contos de fadas

Por: Hellen Reis Mourão 
Na alquimia, ou opus alquímica, a prima matéria deve ser submetida a uma série de operações químicas a fim de transformá-la na Pedra Filosofal.
Uma dessas operações alquímicas a qual a prima matéria pode ser submetida é a Solutio.
A Solutio está ligada ao elemento água e consiste em transformar um sólido em um liquido. O sólido então se dissolve, se desmancha no liquido, sendo por ele engolido.

A água era então considerada como útero, e a Solutio, em termos psicológicos, um retorno ao útero, configurando uma regressão da libido (antes investida no ego) ao inconsciente, para fins de purificação e renascimento.
Psicologicamente trata-se de um retorno a matriz, que simboliza o inicio e fim da vida, para que aspectos endurecidos na nossa personalidade, que não aceitam mudanças, “desmanchem” e suavizem. Ela então simboliza aquilo que Carl Jung denominou de regressão da libido.
Esse é um estado pré-consciente, onde o ego se encontra simbolicamente como um feto na barriga da mãe, por isso representa o renascimento. Essa experiência aparece nos textos alquímicos, narrada tanto de forma agradável como de forma desagradável.
O ego imaturo acha essa sensação prazerosa e pode ficar preso, rendido, o que é perigoso e posteriormente gera muita ansiedade.
Essa operação simboliza um desejo de dissolução. O perigo é que a autonomia do ego, conquistada a duras penas, fica dissolvida e presa nesse “útero” simbólico.
Isso pode se manifestar nos estados de nostalgia e saudades (como forma mais branda), ao desejo de união mística até o desejo de inconsciência do alcoólico.
Um desejo de aniquilamento e de autodissolução é comum a todos os seres humanos, mas quando se mantém por tempo demasiado acaba sendo destrutivo. No aspecto negativo pode levar a neurose e a psicose; ou até a morte. Porém, a favor do processo de individuação, sendo temporária ela leva a renovação psicológica e a um renascimento psicológico.
A Solutio tem um duplo efeito: o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma forma regenerada, por essa razão o batismo é um símbolo da Solutio.
Portanto, do lado positivo, aspectos nossos que não se encontram em consonância com o Self podem morrer e renascer de forma rejuvenescida na Solutio.
Na Mitologia grega a deusa Afrodite, tem uma ligação especial com a água, pois ela nasce da espuma do mar. Por essa razão o amor pode ser um poderoso agente de Solutio. Os perigos da Solutio também aparecem representados na mitologia pelas ninfas e as sereias, que atraem os homens com o seu canto levando-os ao afogamento.

Como a Alquimia trata de processos do inconsciente coletivo, podemos observar o os símbolos alquímicos também nos contos de fadas.
No conto A Bela e a Fera, a heroína após conviver com a Fera durante um tempo começa a ter saudades da casa de origem e assim pede ao amado para visitar o pai e as irmãs. Esse lar de origem e essa saudade, representam a regressão da libido, que vai do ego diferenciado ao inconsciente original.
Esse impulso de retorno a família de origem, ou seja, ao estado indiferenciado do ego, que a heroína empreende tem como objetivo um renascimento no confronto com aspectos sombrios (as irmãs) que dificultam o processo de individuação e a relação ego – Self. O ego precisa passar por essa “limpeza” – simbolizada pela Solutio - de conteúdos que não servem mais para o desenvolvimento do individuo.
Outro conto que mostra a regressão é A Bela Adormecida. Ao cair no sono da morte, a princesa e toda a corte retornam ao estado indiferenciado que o sono representa (Sim nós realizamos a Solutio todos os dias quando dormimos).

No conto dos Grimm intitulado, O velho Rinkrank, a princesa cai em uma armadilha criada por seu pai, para seus pretendentes: ela acaba sendo confinada no interior de uma montanha de vidro.
A montanha costuma representar o útero materno. No conto a heroína não tem mãe, só o pai, o que constitui um complexo paterno, e ao ser confinada de modo regressivo no interior do vaso alquímico, ela entra na Solutio para uma posterior transformação
Em outro conto de Grimm denominado A Princesa Enfeitiçada, o herói precisa seguir a princesa, que todas as noites voa ao interior de uma montanha para se encontrar com o espírito que nela vive.
O herói então precisa entrar no interior da caverna para salvar a sua anima, que está enfeitiçada. Esse é um movimento regressivo, que o ego empreende para redimir aspectos contaminados da psique.
A Solutio está associada à função sentimento.
Essa função nos da o valor as coisas e também o autovalor. É uma função de apreciação e que rege os relacionamentos, uma vez que ela mostra se gosto ou não de algo ou alguém e até onde posso ir sem que atinja a minha auto-estima.
Por isso a Solutio se liga ao principio de Eros, pois é ele quem promove a união e o significado que o sentimento traz quando apreciamos alguém.
Por essa razão vemos no Mito Eros e Psique que a heroína também cai no sono da morte, na dissolução, no inconsciente, para que ocorra a redenção do amado. Pois no amor existe o desejo de se dissolver e ser contido pelo ser amado.
O estar apaixonado leva a uma dissolução do ego nos sentimentos. Perdemos o limite do que é o sujeito e o objeto. Por essa razão vemos que os casais apaixonados passam a se comportar, inconscientemente, de forma semelhante.
O sentimento é uma função de apreciação, por isso, o gostar, o apreciar alguém pode dissolver vários complexos. O gostar nos faz “derreter” por alguém.
Portanto, nos contos de fadas vemos essa operação alquímica como criativa e transformadora. Existe perigo nessa jornada? Sim! O perigo de se perder no outro e o de não querer assumir responsabilidades e encarar a realidade da vida.
Mas no aspecto positivo saímos renovados, transformados e rejuvenescidos.





terça-feira, 16 de junho de 2015

Os arquétipos da Umbanda




 
Por: Hellen Reis Mourão

A Umbanda é uma religião tipicamente brasileira, que sintetiza outras religiões bastante conhecidas do brasileiro como: o catolicismo, o espiritismo e o candomblé.
O termo "Umbanda" ou "embanda" é oriundo da língua quimbunda de Angola, significando "magia" ou "arte de curar". Após o Congresso de 1941, foi estabelecido que "umbanda" vinha das palavras do sânscrito aum e bhanda, termos que foram traduzidos como "o limite no ilimitado", "Princípio divino, luz radiante, a fonte da vida eterna, evolução constante".
Os adeptos costumam celebrar o surgimento da Umbanda em 15 de novembro, quando o médium chamado Zélio Fernandino de Morais Zélio foi convidado a se sentar à mesa da sessão na Federação Espírita de Niterói, quando incorporou um espírito que se levantou durante a sessão e foi até o jardim para buscar uma flor e colocá-la no centro da mesa, contrariando a regra de não poder abandonar a mesa uma vez iniciada a sessão. Em seguida, Zélio incorporou espíritos que se apresentavam como negros escravos e índios.
No dia seguinte, na residência da família de Zélio, os membros da Federação Espírita se reuniram visando comprovar a veracidade do que havia sido declarado. Zélio novamente incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que declarou que os velhos espíritos de negros escravos e índios de nossa terra poderiam trabalhar em auxílio dos irmãos encarnados, não importando a cor, raça ou posição social. Neste dia então, foi fundado o primeiro terreiro de umbanda chamado de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.
As giras na Umbanda acontecem por meio da incorporação das entidades que dão passes e consultas as pessoas que lá buscam sua ajuda. Estão presentes no culto o uso de velas, pembas, defumadores, banhos de ervas, pontos cantados e pontos riscados.

Os espíritos, ou entidades que trabalham na Umbanda são organizados por falanges ou linhas. E cada linha esta sob o comando de um Orixá. Em geral temos as seguintes linhas, que podem variar de casa em casa:
- Caboclos: espíritos dos índios ancestrais;
- Pretos Velhos: espíritos muito sábios de antigos escravos brasileiros;
- Erês: espíritos de crianças divinas;
- Baianos: espíritos bem brasileiros vindos da Bahia;
- Boiadeiros: espíritos intrépidos de boiadeiros desencarnados;
- Marinheiros: espíritos de marinheiros desencarnados;
- Exus: espíritos menos evoluídos que em vida foram criminosos ou pecadores notórios e que agora auxiliam os encarnados;
- Pombas giras: espíritos femininos equivalentes aos Exus que representam mulheres da noite e também bruxas e feiticeiras.

Conforme a Psicologia Analítica as religiões, assim como os mitos e contos de fadas, trazem para a consciência imagens arquetípicas que estão presentes no inconsciente coletivo.
Como a Umbanda é uma religião tipicamente brasileira, ela traz elementos importantes sobre a nossa cultura e sobre a consciência coletiva dos brasileiros que devem ser analisados com respeito.
Para Carl Jung, o nosso inconsciente tende a trazer elementos compensatórios para a nossa consciência. Por exemplo, muitas vezes quando estamos tendo uma atitude consciente que precisa ser mudada e que já não nos traz benefícios, podemos ter sonhos que indiquem o caminho da mudança.
Com as religiões, os mitos e os contos, também podemos aprender novos caminhos e formas de enxergar a vida e compensar atitudes que já não são mais positivas.
Na Umbanda se analisarmos as linhas das entidades veremos que cada uma delas traz um elemento desprezado pela atitude consciente habitual do brasileiro.
E como desprezamos e não tratamos com respeito o inconsciente tende a compensar essa atitude transformando-os em divindades e os colocando em um patamar de quase deuses.

Os caboclos representam nossos índios, tão perseguidos e devastados pela nossa cultura ocidental pelo advento da tecnologia. O índio, ou caboclo nos traz a sabedoria da terra, sendo os responsáveis pelo conhecimento das matas e das ervas.
Estamos no auge do devastamento da natureza e ela clama por um novo olhar. E por meio dos caboclos da Umbanda podemos compreender a nossa falta com a natureza e o quanto a sabedoria nela contida nos faz falta.
Os pretos velhos já representam duas imagens arquetípicas: a do negro escravo e a do velho.
Trazemos ainda em nosso inconsciente uma culpa internalizada pela escravidão e pela forma que ainda tratamos os negros em nosso país. Nossa sociedade ainda é bastante preconceituosa e essas divindades negras, que na Umbanda são altamente reverenciadas e respeitadas, nos mostram o valor do sofrimento e da humildade que o negro carrega em si.

O velho também é uma figura bastante desvalorizada em nossa cultura, pois somos uma sociedade que teme a velhice e a morte, esquecendo que a idade pode nos trazer a sabedoria e que esse é um ciclo pelo qual inevitavelmente vamos passar. A questão é aceitar conscientemente e se abrir ao aprendizado ou não.
Os Erês são as nossas crianças. Pode não ser tão obvio que não valorizamos a infância, mas sim, cada vez mais nossas crianças estão deixando de viver a infância e se ocupando com atividades impostas pelos pais para que elas possam se tornar grandes profissionais.
Além disso, as crianças estão cada vez mais se tornando sexualizadas, perdendo o caráter de ingenuidade e inocência. A criança hoje quase não brinca mais, pois tem muitas atividades e tecnologia a sua disposição.
Esse panorama da criança traz um déficit enorme para nossa consciência, pois ela representa o futuro, a renovação e a espontaneidade. E cada vez mais nos tornamos massificados, perdendo nossa espontaneidade e capacidade de aceitar o novo e a renovação.
O baiano é tipicamente brasileiro e representa um povo bastante estereotipado e desprezado. Ele é visto como preguiçoso e que não se dispõe ao trabalho.
Nossa sociedade ocidental visa o trabalho e o dar resultados de forma frenética e com isso o baiano pode nos mostrar aspectos como o descanso e a calma que são necessários. Somos uma sociedade impaciente, esquizofrênica e que não tem tempo para nada! Precisamos o baiano que pede calma, tranquilidade e paciência.

Marinheiros e boiadeiros não chegam a ser figuras desprezadas de forma tão intensa quanto os anteriores, mas não são também valorizados. São figuras bastante heróicas e que precisam enfrentar os perigos da natureza. 
Os boiadeiros, representam o cangaceiro, o homem do sertão, que vive em extrema dificuldade em um clima desértico. Mais uma figura do Nordeste do país vista com pouco valor.
O marinheiro, homem do mar já vive perto da água (ao contrário do boiadeiro) e de lá tira o seu sustento e alimento. 
Do mar retiramos nosso sustento psíquico, uma vez que lá se encontra uma riqueza incalculável. mas também o mar representa a morte, pois também é um grande cemitério. E o marinheiro representa aquele que consegue navegar as águas do inconsciente sem ser tragado. O marinheiro é o herói que vive o constante perigo de ser tragado pelos processos regressivos do inconsciente, mas que o enfrenta e sai com o sustento.


Mas nenhuma figura foi tão incompreendida e perseguida como Exu e Pomba Gira.
Exu é um Orixá do Candomblé. É uma figura brincalhona, trapaceira, que representa a sexualidade masculina e é o mensageiro dos Orixás.
Na Umbanda ele foi tomado como entidade que dá conselhos e proteção, sendo considerada a entidade mais próxima ao homem.

O Exu antes mesmo do advento da Umbanda já havia sido considerado pelo catolicismo como demônio.
Devido a essa influência Católica na colonização e formação político-social do Brasil, Exu passa ser desvalorizado na consciência coletiva brasileira e a Umbanda então resgata essa figura trazendo-a para muito próximo do homem, pois para a Umbanda cada um de nós tem um Exu pessoal que cuida de nossa defesa física e psíquica.
Sem esse arquétipo fica impossível a comunicação com os “deuses”, ou seja, com o inconsciente e também se torna impossível a fertilidade, uma vez que no Candomblé, Exu representa a fecundação do óvulo.
A pomba gira é tida como o equivalente feminino de Exu e está associada a figuras femininas desprezadas pela sociedade como a bruxa, a prostituta e a feiticeira. No entanto, esse feminino desprezado precisa ser novamente reintegrado a consciência, pois com o advento do Patriarcado, a figura feminina se tornou unilateral.
O catolicismo nos apresenta Maria, uma figura benevolente, virgem, mãe e destituída dos aspectos sombrios, como a sexualidade feminina e a intuição profunda.
A pomba gira traz de volta a sexualidade, a sensualidade da mulher e o conhecimento mais profundo do bem e do mal – uma vez que o mal entrou por meio da mulher, essa se tornou uma grande conhecedora desse aspecto.
Então, ela é necessária, pois esse aspecto do feminino é o que encanta, seduz e traz prazer.
Portanto, vemos na Umbanda aspectos desprezados da consciência coletiva brasileira que precisam novamente de um olhar e de conscientização. Não são aspectos literais, mas imagens do nosso inconsciente que se manifestam trazendo partes nossas esquecidas e não assimiladas ainda. Por essa razão ainda se manifestam de forma religiosa e ritualística. Assim que a consciência coletiva assimilar esses aspectos, novas formas se manifestarão e poderemos entrar em contato com novas formas de nós mesmos.






quinta-feira, 30 de abril de 2015

Reinações de Narizinho





Por: Hellen Reis Mourão 
Reinações de Narizinho é uma obra do grande escritor brasileiro Monteiro Lobato, escrita em 1931.
O livro deu o impulso para a série Sitio do Pica Pau Amarelo.
Apesar de a obra conter algumas passagens inadequadas com o tom preconceituoso em relação à negra Tia Anastácia (aceito na época do lançamento), a obra é uma das mais importantes da literatura infantil.
Composta de capítulos onde mesclam os personagens do sitio com personagens famosos do imaginário infantil, a obra é um conto de fadas brasileiro.
Reinações de Narizinho faz parte da cultura brasileira e ainda se mantém como adaptação para a televisão até os dias atuais. Por essa razão, mesmo tendo alguns conteúdos preconceituosos, seu conteúdo permanece por ser universal.
A heroína da obra, Narizinho é uma menina chamada Lucia. Neta de Dona Benta e mora no sítio com sua avó e com Tia Nastácia. Tem sete anos possui pele morena jambo. É uma curiosa, sonhadora e sapeca. Seu apelido é devido ao seu nariz arrebitado.

Ou seja, Narizinho é muito diferente da menina branca apresentada no programa de televisão.
Narizinho passa férias no sitio da avó juntamente com Pedrinho, seu primo. Na obra, além de sua avó e de Tia Anastácia, vivem no sítio a boneca Emilia, o sábio Visconde de Sabugosa e Rabicó um leitão guloso e preguiçoso.

Para começarmos a analisar Narizinho é bom pontuarmos que é um conto de fadas brasileiro, por isso certas peculiaridades são diferentes dos contos clássicos europeus. A obra traz implicitamente um Brasil ideal na concepção de Lobato e um ideal infantil também.
Narizinho não é uma princesa. Ela é uma menina muito viva e faceira e que vive em maio a um mundo de imaginação. E esse é o grande valor da obra; o de valorizar o mundo de fantasias da criança.
Pois é assim que a mente infantil funciona: ela funde, por vezes, fantasia com realidade e não fica claro qual é o limite entre uma e outra. Isso significa que estamos no mundo do inconsciente, com suas figuras arquetípicas.
As crianças vivem em maior intensidade dentro desse mundo do inconsciente e conforme Carl Jung, o ego (centro da consciência) é formado pelos choques com a realidade. E esse choque vem por parte da família, principalmente dos pais, que frustram por vezes as birras e os caprichos desnecessários da criança. Dessa forma, com esses choques, ela descobre que não pode tudo e que existem limitações externas e internas para sua atuação.
Mas esses choques não devem ser intensos a ponto de causar uma ruptura e uma dissociação. E momentos onde a criança necessita se deixar levar pela imaginação são necessários, para que ela aprenda com o brincar a colocar na realidade esse mundo arquetípico.
Dona Benta, que ama e mima os netos, raramente repreendendo-os. A avó é a famosa “mãe com açúcar” e no mundo infantil a avó representa um paraíso onde tudo é possível. E nesse Brasil ideal de Monteiro, passar as férias no sitio da avó seria uma forma espetacular de trabalhar em meio a natureza o mundo do imaginário.
Sobre os pais não temos informações. Mas nesse mundo de fantasias eles não aparecem com suas leis e ordem.
A menina possui uma boneca – Emilia - que foi feita por Tia Anastácia que começa a falar ao engolir uma pílula falante do Doutor Caramujo.
A boneca, como por exemplo, no conto da Vasalisa a sabida, pode ser considerado um fetiche no qual encarna o espírito da mãe. Ela substitui a figura materna positiva.
Em Reinações a boneca é espevitada e atrevida e quando aprende a falar diz tudo o que pensa, mas levando os personagens a reflexão. E ela não vem da mãe de Narizinho, mas da Tia Anastácia, que confeccionou a boneca.

Tia Anastácia é descendente de escravos e trabalha no sitio ao que parece de bom grado. Ela tem uma relação maternal com Narizinho e Pedrinho e opina sobre diversos assuntos com as crianças e com Dona Benta.
Dona Benta simboliza a herança cultural africana do brasileiro. Por meio da boneca ela nos presenteia com a sabedoria da terra e não com o conhecimento lógico. Ela mostra o quanto às tradições africanas estão inseridas em nosso inconsciente coletivo. Simbolizando a culinária e a crendice que herdamos.
Dona Benta já possui uma função dupla: a matriarcal e patriarcal. Ela cuida das crianças, mas também gerencia o sitio na parte alimentar e econômica. Ela possui um aspecto de Velha Sabia que conseguiu unir em si os princípios masculinos e femininos.
É ela quem transmite conhecimento as crianças por meio das histórias que ela conta. Ela estimula a imaginação e a criatividade, e cuida deles sem a repressão e cobranças dos pais.
Ela é também uma mulher a frente de seu tempo. Na década de 1930 quando a obra foi escrita, o papel da mulher na sociedade era muito limitado, contudo, Dona Benta administra uma propriedade rural, mesmo tendo mais de 60 anos. Além de possuir cultura e capacidade de aceitar o novo.
Infelizmente hoje as escolas perderam o habito da leitura e “contação” de histórias para as crianças. Em Reinações, Monteiro Lobato, mostra o quanto é importante deixar que as histórias oníricas entrem na realidade da criança para o desenvolvimento da criatividade.
Além disso, Lobato nos mostra a importância da valorização desse mundo imaginário e de fantasias na formação dos pequenos por parte dos adultos, além da arte de ensinar a negociação entre a fantasia e a realidade.
Reinações mostra que o mundo infantil deve ser respeitado e que deve ser estimulada uma atitude critica na criança diante desse material da fantasia. Ela precisa desses momentos para passar por essas experiências e os adultos também.
A imaginação do homem moderno foi massacrada pelo desenvolvimento tecnológico e o ato de brincar com suas fantasias e tentar compreende-las é algo que deve ser retomado, pois trazer um pouco de fantasia para a realidade do adulto pode trazer novas perspectivas e tirar um pouco da carga da realidade.
Hoje o homem moderno deve aprender a arte da negociação entre esses dois mundos: o interno com seus sonhos e fantasias e o externo com suas demandas, para que a vida se encha com um fluxo de mais perspectivas.
Bem há muito mais a se falar sobre a obra. Deixei alguns personagens de fora, mas posteriormente, em outro texto, venha analisá-los. Assim ficamos com um gostinho de “quero mais”.


terça-feira, 7 de abril de 2015

A busca da sentido


Por: Hellen Reis Mourão
Joseph Campbell em sua obra O Poder do Mito, afirma que a experiência que o ser humano mais procura é a de se sentir vivo. Essa seria a base do sentido da vida.
Infelizmente hoje uma profusão de doenças psíquicas como a depressão - que vem se tornando o mal do século - ocorre devido a um embotamento do homem em relação a si próprio e a vida.
A maioria de nós não sabe qual o sentido de estarmos nessa vida e apenas sobrevive. Trabalha, come, dorme, passeia, mas por dentro não se sente vivo.
O avanço tecnológico e intelectual nos trouxe muitos benefícios em termos intelectuais, de saúde e culturais, entretanto com ele tivemos uma perda substancial de contato com o inconsciente.
Nossa cultura ocidental voltada para ”o fazer”, “o acontecer” e para a atitude extrovertida nos anestesiou e denegriu tudo o que é voltado para o subjetivo, para o interior. Perdemos a paciência em esperar que as coisas aconteçam no tempo certo.
Observamos essa atitude ocidental na forma como lidamos com a literatura do “espírito” como a mitologia e os contos de fadas.
Hoje nos interessamos mais em nos anestesiarmos com as noticias do dia e os acontecimentos do momento, deixando assim de valorizar o encontro com algo que irá falar a nossa alma
Antigamente os contos eram formas de entretenimento do adulto. Atualmente são vistos como entretenimento infantil. Conforme Von Franz (2010), isso ocorreu devido a uma tendência do homem moderno em infantilizar os conteúdos do inconsciente.

Além disso, atualmente não possuímos uma mitologia sagrada que norteie a consciência. O mito cristão foi durante muito tempo uma fonte de vida espiritual para o homem, no entanto, como tudo na vida, hoje ele se tornou um sistema petrificado.
Von Franz (2011) explica que os símbolos coletivos do Self se desgastam. As religiões, as convicções e as verdades, tudo envelhece e precisa ser renovado. Tudo o que dirigiu uma sociedade por determinado tempo é deficiente, no sentido que envelhece. A consciência humana costuma desinteressar-se ao longo do tempo.
Por essa razão e pelo fato de não possuirmos algo que venha substituir esse sistema já desgastado, o homem ocidental se volta cada vez mais para a busca de uma anestesia contra a falta de sentido de sua vida.
Vicio de todas as formas como jogos, bebidas, sexo, computador, fanatismo religioso, trabalho e até o vício em pensar, são formas de anestesia e também de busca de transcendência da vida cotidiana.
Entretanto, essa busca tem sido externa o que a torna efêmera. Vemos nos contos de fadas o tema da busca do tesouro difícil de encontrar, como uma jóia preciosa, uma fonte de água da vida ou um animal sagrado, que irá trazer a solução para a situação desgastada da consciência coletiva.
Esse tesouro é algo difícil mesmo, pois requer o enfrentamento de forças sombrias da psique, contudo por mais difícil que seja esse enfrentamento o resultado é mais sólido e permanente do que a busca efêmera de algo externo. O tesouro é interno e está no mais profundo de cada individuo.
Hoje vem acontecendo uma profusão de revisitações e adaptações dos contos de fadas para o cinema e televisão, trazendo de volta essas histórias ao mundo adulto. O que vejo de forma bastante positiva, pois eles mostram de forma simbólica a iniciação do mundo infantil para o adulto; as mortes e as ressurreições simbólicas necessárias pelas quais precisamos passar.

Isso mostra também que a consciência coletiva está em busca de algo que está faltando nos ensinamentos cristãos.
Não temos mais ritos de passagem, que nos indique o momento das transições da vida, por isso a psique coletiva de forma compensatória nos traz no entretenimento os caminhos que indiquem como podemos seguir em nossa jornada rumo a individuação. É uma pena que hoje ainda seja somente um entretenimento.
A análise é uma das formas mais beneficia o processo de individuação, contudo existem outros meios de despertar o sentido de nossa alma e dos símbolos, favorecendo assim a individuação.
Infelizmente para nós ocidentais que perdemos o contato com essa literatura do espírito, o mais indicado para o processo de individuação é a psicoterapia, pois assim é possível buscar seu mito pessoal e se preencher consigo mesmo.
A água da vida está no interior de cada um, mas é preciso ter coragem para empreender essa viagem até o mais recôndito da própria alma e assim conhecer seus desejos mais profundos.
Toda vez que alguém se depara com seus desejos mais profundos, surge o medo na mesma proporção, pois algo de numinoso e transformador vêm daí.
Medo e desejo caminham juntos, mas o mais importante é saber para qual face da mesma moeda você vai olhar: para o desejo com a fonte da vida ou o medo com seus aspectos aprisionantes?


Bibliografia:
CAMPBELL, J. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.
VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.
_________________. O gato – Um conto da redenção feminina 3 ed. Paulus. São Paulo: 2011.