segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O rei nos contos de fadas e a imagem do Self


Por:Hellen Reis Mourão
Os contos de fadas são recheados de figuras da realeza como reis, rainhas, princesas e príncipes.
Os reis nos contos são geralmente anônimos mostrando que se trata de um material da psique suprapessoal.
Como se trata de uma figura de grande destaque na sociedade, sua figura pode ser associada à manifestação de Deus na Terra, ou seja, eles representam a imagem do Self, aquele centro regulador da psique que se torna uma representação da atitude coletiva nos contos de fadas.
Von Franz (2005) diz que o rei incorpora um princípio divino, do qual depende o bem-estar físico e psíquico de toda a nação. É o princípio divino na sua forma mais visível, é sua encarnação e sua moradia.
Dessa forma observando a figura do rei podemos tirar alguns aprendizados sobre o Self e como a consciência coletiva (e individual) funciona mediante esse centro regulador.
Associar o rei ao Self faz sentido, pois no nível individual é desse centro regulador que depende todo o bem estar psíquico do individuo.
Nos contos de fadas o rei geralmente está velho, ou muito doente e precisa ser substituído. Ou seja, ele é incompleto.

Ora mas como um símbolo do Self pode envelhecer e precisar ser renovado?
Se transportarmos isso para o estudo das religiões a tendência dos rituais ou dogmas religiosos a tornarem-se superados depois de um tempo, a perderem seu impacto emotivo original, tornando-se fórmulas mortas. Embora adquiram qualidades positivas da consciência, como a continuidade, eles perdem o contato com a corrente irracional da vida e tendem a tornar-se mecânicos (Von Franz, 2005).
Isso vale para doutrinas religiosas e sistemas políticos que com o tempo se tornam obsoletos. Mas também para tudo em nossa vida. Quando nos tornamos conscientes de algo aquilo nos enche de vida e traz sentido a ela, no entanto quando algo fica consciente muito tempo e não nos renovamos esse conteúdo se petrifica e a vida se torna enfadonha.
Podemos então concluir que esse centro da psique não é estático e se renova constantemente e precisa ser compreendido e assimilado para que nossa vida coletiva e individual não se torne uma formula morta e sem sentido.
Entretanto em alguns contos de fadas o rei se nega a ser substituídos. Por exemplo, no conto de fadas O velho Rinkrank, dos irmãos Grimm, o rei manda construir uma armadilha contra os pretendentes a mão de sua filha, tentando evitar que o futuro genro assuma seu lugar.
No nível pessoal é possível observar que o ego, centro da consciência, possui uma estrutura em se tornar unilateral. A consciência adora ter o poder e sair desse estado é muito difícil e doloroso, mesmo que isso cause uma neurose no individuo.

Por esse motivo muitas pessoas relutam em fazer psicoterapia, ou desistem no meio do caminho, pois o ego deve abrir mão do controle e deixar que novas possibilidades surjam.
Muitas preferem se manter na unilateralidade e na neurose. É uma zona de conforto! Realmente fazer analise é um ato heróico.
Em termos coletivos vemos o quão difícil é a aceitação de algo novo por parte da consciência coletiva. No mito de Cristo vemos que ele foi humilhado e morto por trazer uma nova concepção da divindade.
Mas se quisermos evoluir e não nos tornarmos doentes precisamos lembrar que aquilo que um dia foi um bom remédio e algo excelente acaba se tornando destrutivo com o tempo. Perseverar em um curso de ação é bom até um determinado momento, por isso precisamos desenvolver uma flexibilidade e aceitar que possivelmente, em algum momento teremos que rever esse curso de ação e buscar um novo.

Bibliografia
VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.
________________ Animus e Anima nos contos de fada. Verus. Campinas: 2010.