quinta-feira, 30 de abril de 2015

Reinações de Narizinho





Por: Hellen Reis Mourão 
Reinações de Narizinho é uma obra do grande escritor brasileiro Monteiro Lobato, escrita em 1931.
O livro deu o impulso para a série Sitio do Pica Pau Amarelo.
Apesar de a obra conter algumas passagens inadequadas com o tom preconceituoso em relação à negra Tia Anastácia (aceito na época do lançamento), a obra é uma das mais importantes da literatura infantil.
Composta de capítulos onde mesclam os personagens do sitio com personagens famosos do imaginário infantil, a obra é um conto de fadas brasileiro.
Reinações de Narizinho faz parte da cultura brasileira e ainda se mantém como adaptação para a televisão até os dias atuais. Por essa razão, mesmo tendo alguns conteúdos preconceituosos, seu conteúdo permanece por ser universal.
A heroína da obra, Narizinho é uma menina chamada Lucia. Neta de Dona Benta e mora no sítio com sua avó e com Tia Nastácia. Tem sete anos possui pele morena jambo. É uma curiosa, sonhadora e sapeca. Seu apelido é devido ao seu nariz arrebitado.

Ou seja, Narizinho é muito diferente da menina branca apresentada no programa de televisão.
Narizinho passa férias no sitio da avó juntamente com Pedrinho, seu primo. Na obra, além de sua avó e de Tia Anastácia, vivem no sítio a boneca Emilia, o sábio Visconde de Sabugosa e Rabicó um leitão guloso e preguiçoso.

Para começarmos a analisar Narizinho é bom pontuarmos que é um conto de fadas brasileiro, por isso certas peculiaridades são diferentes dos contos clássicos europeus. A obra traz implicitamente um Brasil ideal na concepção de Lobato e um ideal infantil também.
Narizinho não é uma princesa. Ela é uma menina muito viva e faceira e que vive em maio a um mundo de imaginação. E esse é o grande valor da obra; o de valorizar o mundo de fantasias da criança.
Pois é assim que a mente infantil funciona: ela funde, por vezes, fantasia com realidade e não fica claro qual é o limite entre uma e outra. Isso significa que estamos no mundo do inconsciente, com suas figuras arquetípicas.
As crianças vivem em maior intensidade dentro desse mundo do inconsciente e conforme Carl Jung, o ego (centro da consciência) é formado pelos choques com a realidade. E esse choque vem por parte da família, principalmente dos pais, que frustram por vezes as birras e os caprichos desnecessários da criança. Dessa forma, com esses choques, ela descobre que não pode tudo e que existem limitações externas e internas para sua atuação.
Mas esses choques não devem ser intensos a ponto de causar uma ruptura e uma dissociação. E momentos onde a criança necessita se deixar levar pela imaginação são necessários, para que ela aprenda com o brincar a colocar na realidade esse mundo arquetípico.
Dona Benta, que ama e mima os netos, raramente repreendendo-os. A avó é a famosa “mãe com açúcar” e no mundo infantil a avó representa um paraíso onde tudo é possível. E nesse Brasil ideal de Monteiro, passar as férias no sitio da avó seria uma forma espetacular de trabalhar em meio a natureza o mundo do imaginário.
Sobre os pais não temos informações. Mas nesse mundo de fantasias eles não aparecem com suas leis e ordem.
A menina possui uma boneca – Emilia - que foi feita por Tia Anastácia que começa a falar ao engolir uma pílula falante do Doutor Caramujo.
A boneca, como por exemplo, no conto da Vasalisa a sabida, pode ser considerado um fetiche no qual encarna o espírito da mãe. Ela substitui a figura materna positiva.
Em Reinações a boneca é espevitada e atrevida e quando aprende a falar diz tudo o que pensa, mas levando os personagens a reflexão. E ela não vem da mãe de Narizinho, mas da Tia Anastácia, que confeccionou a boneca.

Tia Anastácia é descendente de escravos e trabalha no sitio ao que parece de bom grado. Ela tem uma relação maternal com Narizinho e Pedrinho e opina sobre diversos assuntos com as crianças e com Dona Benta.
Dona Benta simboliza a herança cultural africana do brasileiro. Por meio da boneca ela nos presenteia com a sabedoria da terra e não com o conhecimento lógico. Ela mostra o quanto às tradições africanas estão inseridas em nosso inconsciente coletivo. Simbolizando a culinária e a crendice que herdamos.
Dona Benta já possui uma função dupla: a matriarcal e patriarcal. Ela cuida das crianças, mas também gerencia o sitio na parte alimentar e econômica. Ela possui um aspecto de Velha Sabia que conseguiu unir em si os princípios masculinos e femininos.
É ela quem transmite conhecimento as crianças por meio das histórias que ela conta. Ela estimula a imaginação e a criatividade, e cuida deles sem a repressão e cobranças dos pais.
Ela é também uma mulher a frente de seu tempo. Na década de 1930 quando a obra foi escrita, o papel da mulher na sociedade era muito limitado, contudo, Dona Benta administra uma propriedade rural, mesmo tendo mais de 60 anos. Além de possuir cultura e capacidade de aceitar o novo.
Infelizmente hoje as escolas perderam o habito da leitura e “contação” de histórias para as crianças. Em Reinações, Monteiro Lobato, mostra o quanto é importante deixar que as histórias oníricas entrem na realidade da criança para o desenvolvimento da criatividade.
Além disso, Lobato nos mostra a importância da valorização desse mundo imaginário e de fantasias na formação dos pequenos por parte dos adultos, além da arte de ensinar a negociação entre a fantasia e a realidade.
Reinações mostra que o mundo infantil deve ser respeitado e que deve ser estimulada uma atitude critica na criança diante desse material da fantasia. Ela precisa desses momentos para passar por essas experiências e os adultos também.
A imaginação do homem moderno foi massacrada pelo desenvolvimento tecnológico e o ato de brincar com suas fantasias e tentar compreende-las é algo que deve ser retomado, pois trazer um pouco de fantasia para a realidade do adulto pode trazer novas perspectivas e tirar um pouco da carga da realidade.
Hoje o homem moderno deve aprender a arte da negociação entre esses dois mundos: o interno com seus sonhos e fantasias e o externo com suas demandas, para que a vida se encha com um fluxo de mais perspectivas.
Bem há muito mais a se falar sobre a obra. Deixei alguns personagens de fora, mas posteriormente, em outro texto, venha analisá-los. Assim ficamos com um gostinho de “quero mais”.


terça-feira, 7 de abril de 2015

A busca da sentido


Por: Hellen Reis Mourão
Joseph Campbell em sua obra O Poder do Mito, afirma que a experiência que o ser humano mais procura é a de se sentir vivo. Essa seria a base do sentido da vida.
Infelizmente hoje uma profusão de doenças psíquicas como a depressão - que vem se tornando o mal do século - ocorre devido a um embotamento do homem em relação a si próprio e a vida.
A maioria de nós não sabe qual o sentido de estarmos nessa vida e apenas sobrevive. Trabalha, come, dorme, passeia, mas por dentro não se sente vivo.
O avanço tecnológico e intelectual nos trouxe muitos benefícios em termos intelectuais, de saúde e culturais, entretanto com ele tivemos uma perda substancial de contato com o inconsciente.
Nossa cultura ocidental voltada para ”o fazer”, “o acontecer” e para a atitude extrovertida nos anestesiou e denegriu tudo o que é voltado para o subjetivo, para o interior. Perdemos a paciência em esperar que as coisas aconteçam no tempo certo.
Observamos essa atitude ocidental na forma como lidamos com a literatura do “espírito” como a mitologia e os contos de fadas.
Hoje nos interessamos mais em nos anestesiarmos com as noticias do dia e os acontecimentos do momento, deixando assim de valorizar o encontro com algo que irá falar a nossa alma
Antigamente os contos eram formas de entretenimento do adulto. Atualmente são vistos como entretenimento infantil. Conforme Von Franz (2010), isso ocorreu devido a uma tendência do homem moderno em infantilizar os conteúdos do inconsciente.

Além disso, atualmente não possuímos uma mitologia sagrada que norteie a consciência. O mito cristão foi durante muito tempo uma fonte de vida espiritual para o homem, no entanto, como tudo na vida, hoje ele se tornou um sistema petrificado.
Von Franz (2011) explica que os símbolos coletivos do Self se desgastam. As religiões, as convicções e as verdades, tudo envelhece e precisa ser renovado. Tudo o que dirigiu uma sociedade por determinado tempo é deficiente, no sentido que envelhece. A consciência humana costuma desinteressar-se ao longo do tempo.
Por essa razão e pelo fato de não possuirmos algo que venha substituir esse sistema já desgastado, o homem ocidental se volta cada vez mais para a busca de uma anestesia contra a falta de sentido de sua vida.
Vicio de todas as formas como jogos, bebidas, sexo, computador, fanatismo religioso, trabalho e até o vício em pensar, são formas de anestesia e também de busca de transcendência da vida cotidiana.
Entretanto, essa busca tem sido externa o que a torna efêmera. Vemos nos contos de fadas o tema da busca do tesouro difícil de encontrar, como uma jóia preciosa, uma fonte de água da vida ou um animal sagrado, que irá trazer a solução para a situação desgastada da consciência coletiva.
Esse tesouro é algo difícil mesmo, pois requer o enfrentamento de forças sombrias da psique, contudo por mais difícil que seja esse enfrentamento o resultado é mais sólido e permanente do que a busca efêmera de algo externo. O tesouro é interno e está no mais profundo de cada individuo.
Hoje vem acontecendo uma profusão de revisitações e adaptações dos contos de fadas para o cinema e televisão, trazendo de volta essas histórias ao mundo adulto. O que vejo de forma bastante positiva, pois eles mostram de forma simbólica a iniciação do mundo infantil para o adulto; as mortes e as ressurreições simbólicas necessárias pelas quais precisamos passar.

Isso mostra também que a consciência coletiva está em busca de algo que está faltando nos ensinamentos cristãos.
Não temos mais ritos de passagem, que nos indique o momento das transições da vida, por isso a psique coletiva de forma compensatória nos traz no entretenimento os caminhos que indiquem como podemos seguir em nossa jornada rumo a individuação. É uma pena que hoje ainda seja somente um entretenimento.
A análise é uma das formas mais beneficia o processo de individuação, contudo existem outros meios de despertar o sentido de nossa alma e dos símbolos, favorecendo assim a individuação.
Infelizmente para nós ocidentais que perdemos o contato com essa literatura do espírito, o mais indicado para o processo de individuação é a psicoterapia, pois assim é possível buscar seu mito pessoal e se preencher consigo mesmo.
A água da vida está no interior de cada um, mas é preciso ter coragem para empreender essa viagem até o mais recôndito da própria alma e assim conhecer seus desejos mais profundos.
Toda vez que alguém se depara com seus desejos mais profundos, surge o medo na mesma proporção, pois algo de numinoso e transformador vêm daí.
Medo e desejo caminham juntos, mas o mais importante é saber para qual face da mesma moeda você vai olhar: para o desejo com a fonte da vida ou o medo com seus aspectos aprisionantes?


Bibliografia:
CAMPBELL, J. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.
VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.
_________________. O gato – Um conto da redenção feminina 3 ed. Paulus. São Paulo: 2011.