terça-feira, 16 de junho de 2015

Os arquétipos da Umbanda




 
Por: Hellen Reis Mourão

A Umbanda é uma religião tipicamente brasileira, que sintetiza outras religiões bastante conhecidas do brasileiro como: o catolicismo, o espiritismo e o candomblé.
O termo "Umbanda" ou "embanda" é oriundo da língua quimbunda de Angola, significando "magia" ou "arte de curar". Após o Congresso de 1941, foi estabelecido que "umbanda" vinha das palavras do sânscrito aum e bhanda, termos que foram traduzidos como "o limite no ilimitado", "Princípio divino, luz radiante, a fonte da vida eterna, evolução constante".
Os adeptos costumam celebrar o surgimento da Umbanda em 15 de novembro, quando o médium chamado Zélio Fernandino de Morais Zélio foi convidado a se sentar à mesa da sessão na Federação Espírita de Niterói, quando incorporou um espírito que se levantou durante a sessão e foi até o jardim para buscar uma flor e colocá-la no centro da mesa, contrariando a regra de não poder abandonar a mesa uma vez iniciada a sessão. Em seguida, Zélio incorporou espíritos que se apresentavam como negros escravos e índios.
No dia seguinte, na residência da família de Zélio, os membros da Federação Espírita se reuniram visando comprovar a veracidade do que havia sido declarado. Zélio novamente incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que declarou que os velhos espíritos de negros escravos e índios de nossa terra poderiam trabalhar em auxílio dos irmãos encarnados, não importando a cor, raça ou posição social. Neste dia então, foi fundado o primeiro terreiro de umbanda chamado de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.
As giras na Umbanda acontecem por meio da incorporação das entidades que dão passes e consultas as pessoas que lá buscam sua ajuda. Estão presentes no culto o uso de velas, pembas, defumadores, banhos de ervas, pontos cantados e pontos riscados.

Os espíritos, ou entidades que trabalham na Umbanda são organizados por falanges ou linhas. E cada linha esta sob o comando de um Orixá. Em geral temos as seguintes linhas, que podem variar de casa em casa:
- Caboclos: espíritos dos índios ancestrais;
- Pretos Velhos: espíritos muito sábios de antigos escravos brasileiros;
- Erês: espíritos de crianças divinas;
- Baianos: espíritos bem brasileiros vindos da Bahia;
- Boiadeiros: espíritos intrépidos de boiadeiros desencarnados;
- Marinheiros: espíritos de marinheiros desencarnados;
- Exus: espíritos menos evoluídos que em vida foram criminosos ou pecadores notórios e que agora auxiliam os encarnados;
- Pombas giras: espíritos femininos equivalentes aos Exus que representam mulheres da noite e também bruxas e feiticeiras.

Conforme a Psicologia Analítica as religiões, assim como os mitos e contos de fadas, trazem para a consciência imagens arquetípicas que estão presentes no inconsciente coletivo.
Como a Umbanda é uma religião tipicamente brasileira, ela traz elementos importantes sobre a nossa cultura e sobre a consciência coletiva dos brasileiros que devem ser analisados com respeito.
Para Carl Jung, o nosso inconsciente tende a trazer elementos compensatórios para a nossa consciência. Por exemplo, muitas vezes quando estamos tendo uma atitude consciente que precisa ser mudada e que já não nos traz benefícios, podemos ter sonhos que indiquem o caminho da mudança.
Com as religiões, os mitos e os contos, também podemos aprender novos caminhos e formas de enxergar a vida e compensar atitudes que já não são mais positivas.
Na Umbanda se analisarmos as linhas das entidades veremos que cada uma delas traz um elemento desprezado pela atitude consciente habitual do brasileiro.
E como desprezamos e não tratamos com respeito o inconsciente tende a compensar essa atitude transformando-os em divindades e os colocando em um patamar de quase deuses.

Os caboclos representam nossos índios, tão perseguidos e devastados pela nossa cultura ocidental pelo advento da tecnologia. O índio, ou caboclo nos traz a sabedoria da terra, sendo os responsáveis pelo conhecimento das matas e das ervas.
Estamos no auge do devastamento da natureza e ela clama por um novo olhar. E por meio dos caboclos da Umbanda podemos compreender a nossa falta com a natureza e o quanto a sabedoria nela contida nos faz falta.
Os pretos velhos já representam duas imagens arquetípicas: a do negro escravo e a do velho.
Trazemos ainda em nosso inconsciente uma culpa internalizada pela escravidão e pela forma que ainda tratamos os negros em nosso país. Nossa sociedade ainda é bastante preconceituosa e essas divindades negras, que na Umbanda são altamente reverenciadas e respeitadas, nos mostram o valor do sofrimento e da humildade que o negro carrega em si.

O velho também é uma figura bastante desvalorizada em nossa cultura, pois somos uma sociedade que teme a velhice e a morte, esquecendo que a idade pode nos trazer a sabedoria e que esse é um ciclo pelo qual inevitavelmente vamos passar. A questão é aceitar conscientemente e se abrir ao aprendizado ou não.
Os Erês são as nossas crianças. Pode não ser tão obvio que não valorizamos a infância, mas sim, cada vez mais nossas crianças estão deixando de viver a infância e se ocupando com atividades impostas pelos pais para que elas possam se tornar grandes profissionais.
Além disso, as crianças estão cada vez mais se tornando sexualizadas, perdendo o caráter de ingenuidade e inocência. A criança hoje quase não brinca mais, pois tem muitas atividades e tecnologia a sua disposição.
Esse panorama da criança traz um déficit enorme para nossa consciência, pois ela representa o futuro, a renovação e a espontaneidade. E cada vez mais nos tornamos massificados, perdendo nossa espontaneidade e capacidade de aceitar o novo e a renovação.
O baiano é tipicamente brasileiro e representa um povo bastante estereotipado e desprezado. Ele é visto como preguiçoso e que não se dispõe ao trabalho.
Nossa sociedade ocidental visa o trabalho e o dar resultados de forma frenética e com isso o baiano pode nos mostrar aspectos como o descanso e a calma que são necessários. Somos uma sociedade impaciente, esquizofrênica e que não tem tempo para nada! Precisamos o baiano que pede calma, tranquilidade e paciência.

Marinheiros e boiadeiros não chegam a ser figuras desprezadas de forma tão intensa quanto os anteriores, mas não são também valorizados. São figuras bastante heróicas e que precisam enfrentar os perigos da natureza. 
Os boiadeiros, representam o cangaceiro, o homem do sertão, que vive em extrema dificuldade em um clima desértico. Mais uma figura do Nordeste do país vista com pouco valor.
O marinheiro, homem do mar já vive perto da água (ao contrário do boiadeiro) e de lá tira o seu sustento e alimento. 
Do mar retiramos nosso sustento psíquico, uma vez que lá se encontra uma riqueza incalculável. mas também o mar representa a morte, pois também é um grande cemitério. E o marinheiro representa aquele que consegue navegar as águas do inconsciente sem ser tragado. O marinheiro é o herói que vive o constante perigo de ser tragado pelos processos regressivos do inconsciente, mas que o enfrenta e sai com o sustento.


Mas nenhuma figura foi tão incompreendida e perseguida como Exu e Pomba Gira.
Exu é um Orixá do Candomblé. É uma figura brincalhona, trapaceira, que representa a sexualidade masculina e é o mensageiro dos Orixás.
Na Umbanda ele foi tomado como entidade que dá conselhos e proteção, sendo considerada a entidade mais próxima ao homem.

O Exu antes mesmo do advento da Umbanda já havia sido considerado pelo catolicismo como demônio.
Devido a essa influência Católica na colonização e formação político-social do Brasil, Exu passa ser desvalorizado na consciência coletiva brasileira e a Umbanda então resgata essa figura trazendo-a para muito próximo do homem, pois para a Umbanda cada um de nós tem um Exu pessoal que cuida de nossa defesa física e psíquica.
Sem esse arquétipo fica impossível a comunicação com os “deuses”, ou seja, com o inconsciente e também se torna impossível a fertilidade, uma vez que no Candomblé, Exu representa a fecundação do óvulo.
A pomba gira é tida como o equivalente feminino de Exu e está associada a figuras femininas desprezadas pela sociedade como a bruxa, a prostituta e a feiticeira. No entanto, esse feminino desprezado precisa ser novamente reintegrado a consciência, pois com o advento do Patriarcado, a figura feminina se tornou unilateral.
O catolicismo nos apresenta Maria, uma figura benevolente, virgem, mãe e destituída dos aspectos sombrios, como a sexualidade feminina e a intuição profunda.
A pomba gira traz de volta a sexualidade, a sensualidade da mulher e o conhecimento mais profundo do bem e do mal – uma vez que o mal entrou por meio da mulher, essa se tornou uma grande conhecedora desse aspecto.
Então, ela é necessária, pois esse aspecto do feminino é o que encanta, seduz e traz prazer.
Portanto, vemos na Umbanda aspectos desprezados da consciência coletiva brasileira que precisam novamente de um olhar e de conscientização. Não são aspectos literais, mas imagens do nosso inconsciente que se manifestam trazendo partes nossas esquecidas e não assimiladas ainda. Por essa razão ainda se manifestam de forma religiosa e ritualística. Assim que a consciência coletiva assimilar esses aspectos, novas formas se manifestarão e poderemos entrar em contato com novas formas de nós mesmos.