quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Runas e A jornada iniciática

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Por: Hellen Reis Mourão


As runas são um sistema de letras utilizado para a escrita na língua germânica. Principalmente na Escandinávia, Ilhas Britânicas e Alemanha (regiões habitadas pelos povos germânicos) do século II ao XI.
Os caracteres rúnicos têm sido encontrados gravados em pedras, e em menor número em ossos e peças de madeira, assim como em pergaminhos e placas metálicas.
O alfabeto rúnico germânico primitivo tem 24 runas, e era utilizado nas atuais Alemanha, Dinamarca e Suécia. É conhecido como Futhark antigo (devido às suas primeiras seis letras serem 'F', 'U' 'Th', 'A', 'R', e 'K' - ᚠᚢᚦᚨᚱᚴ).
Além de alfabeto, as runas eram utilizadas como sistema de oráculo e para a magia. Isso faz das runas um complexo sistema iniciático, por onde os mistérios eram ensinados.
A origem das runas é incerta, se perde no tempo. Mas a origem mitológica dos mistérios rúnicos é descrito no poema “Havamal”, como uma revelação iniciática obtida com intenso sofrimento por Odin.
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O Deus se sacrificou para alcançar a sabedoria e esse conhecimento profundo. Ele se auto-imolou durante nove dias e nove noites para o segredo das runas.
Por isso, as runas apresentam também um caráter iniciático. Mais que um oráculo, as runas mostram o caminho da vida humana.
As runas mostram um caminho iniciático e de transformação. As 24 runas formam uma totalidade, que inclui a matéria e o divino.
Assim como o Tarot, as runas tem sua origem e antecipação nos padrões profundos do inconsciente coletivo, com acesso a potenciais de maior percepção à disposição desses padrões (Nicholls, 2007).
Elas fazem a ponte, como imagens simbólicas, entre o inconsciente e o consciente.
Uma viagem pelos símbolos rúnicos é uma viagem ao interior de nós próprios e das camadas do inconsciente coletivo. O acesso ao irracional e ao ancestral em nós.
No texto vou tratar não do aspecto divinatório e oracular, mas desse aspecto iniciático das runas. Utilizando para isso o antigo Furthak, com 24 runas.
O antigo Furthak três Ættir, (usado para criar um código numérico usa do na divisão das runas em subgrupos de oito caracteres) cada um tendo certas características comuns e sendo regi do por um deus e uma deusa.
O primeiro Ættir é regido por Frey e Freyja, deuses da fertilidade. E trata de assuntos de caráter material. Força de vontade, generosidade, conhecimento, ação e energia, são as características desse grupo de runas.
Iniciando com a força de vida da runa Fehu, e finalizando com a transformação máxima da runa Dagaz (que pode simbolizar a morte física).
As 8 primeiras runas mostram o caminho inicial do ego humano em busca de sua força e colocação no mundo material, com o trabalho, relacionamentos e alegria.
É a energia da primeira metade da vida, que disponibiliza libido para a construção do ego e da vida externa. A busca do trabalho, do relacionamento, do conhecimento, da energia, da força e da alegria.
São as qualidades que o ego precisa alcançar para atingir a satisfação e o desenvolvimento iniciais: força vital, libido (Fehu), força de trabalho (Uruz), força para encarar os desafios (Thurisaz), inspiração e conhecimento (Ansuz), ritmo e agilidade (Raidho), o fogo das paixões (Kenaz), habilidade em dar e receber (Gebo) e alegria (Wunjo).
O segundo Ætt é regido pelo deus Heimdall, que era o guardião da ponte Bifrost (que une o reino dos deuses aos humanos). Ou seja, vemos nesse caminho uma transição, uma ponte que leva a um novo estado.
Trata-se da iniciação em si, com os obstáculos a serem superados.
Para isso é necessário que ocorra a morte da ingenuidade do ego e seu apego aos desejos apenas transitórios. É um caminho que irá levar a transcendência, por meio do sofrimento.
Aqui temos o plano emocional/psicológico, o confronto com as sombras, com a paralisação, com a separação, a solidão, e o renascimento e a cura. Aqui os desejos do ego são frustrados para que um centro mais profundo da personalidade se manifeste e se alcance um novo patamar de consciência.
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A ação do destino nas três primeiras runas. A dor da criação da consciência e a morte (Hagalaz), o despertar do fogo interno que purifica a consciência (Naudhiz) e do gelo da consciência (Isa), o crescimento da semente e o renascer pós a morte (Jera), o crescimento da arvore, como símbolo da consciência do processo de individuação (Eihwaz), o desenvolvimento da habilidade de compreender e usar as forças do Ørlög/Destino (Perthro), a conexão com a divindade interna (Algiz) e o nascer do Sol, o renascimento (Sowilo).
O terceiro, regido pelo deus Tyr, deus da guerra e da justiça.
Tyr perdeu sua mão, para se sacrificar pelos outros deuses. Portanto, ele é o deus da ordem e da lei. Aqui temos a necessidade de se sacrificar por algo maior que nós.
Temos a justiça divina, aquilo que foi plantado será colhido agora. Aqui é o desenvolvimento da força espiritual e o encontro da matéria com o espírito.
Ocorre aqui a união dos dois primeiros. A matéria purificada, agora pode atuar na vida humana com sabedoria. Aqui é o encontro com a maturidade e a preparação para a morte. Uma nova força retorna, mas não mais infantilizada e impulsiva. O ser sai de sua individualidade e se volta agora, transformado, para atuação no coletivo. Aqui o ego abrange o outro e acolhe sua ancestralidade. E assim acontece a transformação completa da personalidade.

Temos o encontro do principio paterno celeste (Tiwaz), com o materno terreno, a Grande Mãe (Berkano), o auxilio espiritual (Ehwaz), o outro como espelho e a autoestima (Mannaz), o poder da intuição feminina como Anima (Laguz), a fertilidade do masculino como Animus (Ingwaz), a herança ancestral (Othala) e a completa mudança (Dagaz).


Referências bibliográficas:
FAUR, M. Mistérios nórdicos: deuses, runas, magia, rituais. São Paulo: Pensamento, 2007.
NICHOLS, S. Jung e o Tarot – Uma jornada arquetípica. São Paulo: Cultrix, 2007.



sábado, 9 de julho de 2016

A diferença entre Mitos e Contos de Fadas


Por: Hellen Reis Mourão
Na Psicologia Analítica o estudo dos mitos e dos contos de fadas possui uma importância capital no entendimento dos processos psíquicos que se desenvolvem no inconsciente coletivo.
Ambos apresentam uma realidade sobrenatural, fabulosa e mágica. Contudo, existem diferenças importantes entre eles.
MITOS
Os mitos mostram como as coisas passaram a existir. Falam do gesto criador.
As forças da natureza - como a noite, a chuva, o sol – eram caracterizadas por um deus ou deusa, que teve sua criação descrita na Mitologia. O mesmo ocorre com coisas mais abstratas como o amor, a guerra, etc.

O mito trata então de uma ação criadora e de como o homem se relaciona com a criação, sendo ele mesmo também uma criação divina. No mito sobre a morte, por exemplo, vemos como nos tornamos mortais.
Eles, portanto, explicam a existência de algo no mundo, explicando fatos que eram desconhecidos da ciência.



CONTOS DE FADAS
Os contos de fadas mostram uma situação em que já há uma condição pré-existente. Neles há um problema que é coletivo, mas que não modifica - apenas afeta- a condição humana no mundo.
Os problemas narrados nos contos de fadas espelham ritos de iniciação e formas de como resolver os conflitos e os problemas. Tudo já existe e não há gesto criador.
Nos contos há um herói ou heroína que vive uma série de conflitos, onde seres mágicos o auxiliam ou o atrapalham.
No entanto, os mitos são freqüentemente misturados aos contos ou, então, aquilo que se reveste do prestígio de mito em uma tribo será apenas um simples conto na tribo vizinha (Eliade, 1972).
Além disso, os grandes mitos decaem com a civilização a que pertencem, mas os temas básicos podem sobreviver como temas de contos de fada, migrando ou então permanecendo no mesmo país (Von Franz, 2005)
Para Von Franz (2005), os contos de fada são como o mar, e as sagas e os mitos são como ondas desse mar; um conto surge como um mito, e depois afunda novamente para ser um conto de fada.
Isso ocorre, pois, dentro da Mitologia temos as narrativas heróicas, que espelham os ritos de passagem e de amadurecimento, assim como os contos de fadas.
As civilizações antigas possuíam seus ritos iniciatórios que tinham como base essas narrativas heróicas.
Por isso, pode-se supor que os mitos possuíam essas duas funções: a de explicar o surgimento de algo no mundo e mostrar ritos de iniciação.
O mito de Eros e Psique é uma prova dessa imagem de rito de passagem, assim como os 12 Trabalhos de Hércules.

O conto seria então uma espécie de “camuflagem” dos motivos e personagens míticos, sem deixar de perder suas características e sem ser menos importante.
Conforme Eliade (1972), se os Deuses não mais intervêm sob seus próprios nomes nos mitos, seus perfis ainda podem ser discernidos nas figuras dos protetores, dos adversários e companheiros do herói. Eles estão camuflados, mas continuam a cumprir sua função.
Outra informação importante é a diferença entre contos, lendas e fábulas.


FABULAS
As fábulas também possuem um aspecto mágico. Geralmente os protagonistas são animais, mas seu um caráter é didático e moralizante. A natureza – na forma de animais – possui características humanas, simbolizando comportamentos morais bons ou ruins.


LENDAS
Já as lendas tratam de uma história também fantástica, mas seu argumento é retirado da tradição do local. Os relatos das lendas misturam fantasia com realidade. Relatam de forma maravilhosa um acontecimento que suscitou estranhamento, surpresa ou até mesmo medo em uma determinada comunidade. Ou seja, um episódio real gerou um acontecimento imaginário.

Para concluir o assunto, vemos nesse vasto material maravilhoso e fantasioso dos mitos, contos de fadas, lendas e fábulas, que a despeito das diferenças entre eles, eles continuam nos encantando, assombrando, trabalhando nossos medos, nos trazendo lições morais e éticas e nos auxiliando em nossas jornadas iniciatórias.
Que nós nunca percamos nossa capacidade de nos encantar e que permaneçamos abertos ao imaginário e ao mítico, para compreendermos que nossas vidas diárias não são insignificantes e que existe um mundo além desse material.

Bibliografia:
ELIADE, M. – Mito e realidade. São Paulo, Perspectiva: 1972.

VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O Corvo – Conto dos irmãos Grimm


Por: Hellen Reis Mourão

Houve, uma vez, uma rainha cuja filhinha pequena, ainda de colo, era impertinente até não se aguentar. Certo dia, a menina estava tão mal humorada que era impossível aturá-la; a mãe lançou meio de todos os recursos para acalmá-la, mas em vão.
Querendo distraí-la, a rainha abriu a janela e, vendo alguns corvos esvoaçando em volta do castelo, disse, num assomo de impaciência:
- Gostaria que fosses um corvo, pelo menos estarias voando e brincando lá com os outros e me deixarias em paz. Mal acabou de pronunciar essas palavras, eis que a menina se transformou, subitamente, num corvo e saiu dos braços da mãe pondo-se a voar pela janela fora. Foi voando diretamente para a floresta, onde ficou durante muito tempo e seus pais nada mais souberam dela. Passados alguns anos, certo dia um jovem atravessava a floresta e, de repente, ouviu uma voz; olhou para todos os lados sem descobrir ninguém. A voz tornou a fazer-se ouvir, então olhando naquela direção, viu, pouco distante, um corvo e compreendeu que era ele quem estava falando.
- Escuta, meu jovem, - dizia o corvo; - eu sou filha de um rei e alguém me encantou, transformando-me em corvo. Tu, se quisesses, poderias libertar-me!
- E que devo fazer para isso? - perguntou o jovem.
- Continua andando sempre para diante na floresta; lá ao longe, encontrarás uma casinha habitada por uma velha. Ao chegares lá, ela te virá ao encontro e te oferecerá de comer e beber, mas nada aceites; pois, se comeres ou beberes alguma coisa, cairás em sono profundo e perderás a oportunidade de me libertar. No jardim atrás da casa, há um montículo de tufo, senta-te lá em cima e fica esperando por mim. Durante três dias, às duas horas da tarde, chegarei numa carruagem. No primeiro dia, a carruagem virá puxada por quatro cavalos brancos; no segundo dia, por quatro cavalos alazões, e no terceiro dia, por quatro cavalos negros. Porém, se não estiverdes acordado e eu te encontrar dormindo, não me poderei libertar.
O jovem prometeu fazer tudo quanto ela lhe pedia, mas, ao despedir-se, o corvo disse, suspirando:
- Prevejo que não me libertarás; acabarás por aceitar qualquer coisa da velha e cairás em sono pesado!
O jovem protestou, dizendo que nada aceitaria e, mais uma vez, reiterou promessa de ajudá-la. Mas quando chegou à casa indicada, saiu de dentro a velhinha, dizendo:
- Ah, pobre homem! Como estás esfalfado! Descansa um pouco e come alguma coisa para refazer as forças.
- Não, - disse o homem, - não quero comer nem beber nada.
A velha, porém, insistiu com muita habilidade até que, sem jeito de continuar recusando, o homem aceitou um gole de bebida. Depois agradeceu e foi postar-se no monte de tufo a fim de aguardar a chegada do corvo. Assim que sentou, foi tomado de tal canseira que teve de deitar-se um pouco para descansar, mas com a firme intenção de não se deixar vencer pelo sono. Os olhos, porém, logo se lhe fecharam e ele caiu em sono tão pesado que nada deste mundo conseguiria acordá-lo. Às duas horas em ponto, chegou o corvo, na bela carruagem puxada por quatro cavalos brancos, mas vinha muito triste, dizendo para si mesmo: eu sei que o encontrarei dormindo! De fato, quando chegou ao jardim viu que ele estava dormindo realmente. Então, desceu da carruagem e, aproximando-se dele, sacudiu-o várias vezes, chamando-o em voz alta, mas em vão; o homem não acordou.
No dia seguinte, ao meio-dia, a velha foi levar-lhe comida e bebida mas ele não queria aceitar nada; contudo, a velha tanto fez e tanto disse que ele acabou por beber um pouco do copo que ela lhe apresentava. Por volta das duas horas, ele dirigiu-se ao monte de tufo no jardim a fim de aguardar o corvo; mas, também dessa vez, a canseira era tão grande que não conseguia ficar de pé, obrigando-o a deitar-se. Imediatamente, ferrou em sono profundo. As duas horas, chegou o corvo na carruagem puxada por quatro cavalos alazões; vinha tristonho, pois sabia que o encontraria dormindo. Desceu da carruagem e tentou despertá-lo; chamou-o, sacudiu-o, em vão; nada o despertava.
No dia seguinte, a velha censurou-o porque não queria comer nem beber, dizendo:
- Onde já se viu, passar tanto tempo sem comer nem beber! Quer por acaso morrer?
O homem continuava a recusar tudo; a velha, porém, colocou em frente um prato bem cheio de comida e um copo de vinho; ao sentir aroma tão apetitoso, o homem não resistiu e bebeu um gole de vinho. Em seguida, foi ao jardim a fim de aguardar a princesa encantada; mas sentiu ainda maior cansaço que nos dias precedentes; então, deitou-se um pouco e não tardou a adormecer como uma pedra. As duas horas, chegou o corvo na carruagem puxada por quatro cavalos pretos; desceu dela e fez o impossível para despertá-lo; sacudiu-o, chamou-o, inutilmente. Então, colocou junto dele um pão, um pedaço de carne e uma garrafa de vinho, que tinham a propriedade de nunca acabar. Depois, enfiou-lhe no dedo um anel, dentro do qual havia o seu nome gravado e, por último, deixou-lhe uma carta, explicando direitinho tudo o que lhe deixava e tudo o que havia acontecido, dizendo mais: "vejo bem que aqui não és capuz de me libertar; contudo, se desejas realmente fazê-lo, vem ter comigo no castelo de ouro de Stromberg. Podes bem fazê-lo, eu sei com toda a certeza." Em seguida, voltou para a carruagem coberta de luto e rumou, velozmente, para o castelo de ouro de Stromberg. Assim que acordou, percebendo que dormira bastante, o jovem ficou extremamente aflito e murmurou:
- Certamente ela já passou por aqui e deve ter ficado aborrecida, pois não a libertei!
Nisso, caiu-lhe sob o olhar as coisas aí deixadas; pegou imediatamente na carta e leu o que continha; assim ficou sabendo o que acontecera e, também, o que ainda podia fazer. Levantou-se depressa e pôs-se a caminho em procura do castelo de ouro, embora não sabendo onde o mesmo se situasse. Já havia corrido mundo a valer, quando chegou a uma floresta muito densa; vagueou por ela durante quinze dias sem encontrar o caminho de saída. Uma tarde, em que as sombras da noite baixavam mui rapidamente, deixou-se cair junto de uns arbustos, para descansar, pois já não podia mais de tão cansado, e não tardou a adormecer. Pela manhã do dia seguinte, continuou a perambular e, ao anoitecer, quis novamente deitar-se ao pé de uma moita para descansar e dali a pouco ouviu gemidos e lamentos tão altos que o impediram de dormir. Na hora em que é costume acenderem-se as luzes, ele viu uma luzinha brilhando não muito distante; levantou-se depressa e dirigiu-se em sua direção. Andou um pouco e chegou a uma grande casa que, de longe, porém, parecia pequena, porque estava meio escondida atrás de um gigante. O jovem estacou, pensando: "Se entras e o gigante te descobre, és um homem liquidado!" Todavia, armando-se de coragem, foi-se aproximando. Assim que o gigante o viu, gritou:
- Oh, chegas em boa hora; já faz muito tempo que não como nada! Vou engulir-te já como jantar.
- Deixa disso, - respondeu o jovem, - não gosto de ser engolido; se queres comer tenho aqui o bastante para te satisfazer o apetite.
- Se é verdade o que dizes, então podes ficar sossegado que não te comerei; falei em engolir-te porque estou com muita fome e nada tenho para comer.
Sentaram-se à mesa e o homem pôs-se a servir pão, carne e vinho até não acabar mais.
- Gosto muito disto, - disse o gigante, e comeu à vontade. Daí a pouco o jovem perguntou:
- Podes indicar-me onde fica o castelo de ouro de Stromberg?
- Vou procurar no mapa que tem todas as cidades, aldeias e casas. Foi ao quarto buscar o mapa e procurou o castelo, mas não constava.
- Não importa, - disse o gigante, - tenho outros mapas mais completos lá no armário; talvez encontremos o que procuras.
Procuraram inutilmente, o castelo não constava. O homem queria continuar o caminho, mas o gigante pediu- lhe que esperasse ainda alguns dias, até seu irmão voltar; não demoraria, fora aí por perto em busca de víveres.
Quando o irmão do gigante voltou, perguntaram-lhe se sabia onde ficava o tal castelo; ele respondeu:
- Depois do almoço, quando matar a fome, procurarei no mapa.
Mais tarde subiram os três ao quarto do segundo gigante e procuraram em todos os mapas aí existentes, em todos os velhos papéis, e tanto procuraram que acabaram por descobrir o castelo de Stromberg. Mas ficava a muitas e muitas milhas de distância.
- Ah, - disse tristemente o jovem, - como poderei chegar lá?
- Eu tenho duas horas de tempo disponíveis, - disse o gigante, - posso levar-te só até às vizinhanças, porque preciso estar de volta logo para amamentar o menino que temos.
Assim fizeram. O gigante levou-o até um lugar que ficava a duzentas horas do castelo, dizendo que o resto do caminho podia fazê-lo sozinho. Com isso voltou, e o homem continuou a andar dia e noite até que por fim chegou ao castelo de ouro de Stromberg. O castelo porém, fora construído sobre uma montanha toda de vidro. A princesa encantada tivera de percorrer, em volta, toda a montanha até poder entrar. O homem ficou muito contente vendo-a lá e queria subir até ela, mas, cada vez que tentava subir, tornava a deslizar pelo vidro abaixo. E, vendo que não o conseguia, pensou consigo mesmo: "ficarei esperando por ela aqui em baixo." Então, construiu uma pequena cabana e ficou aí um ano inteiro; todos os dias avistava a princesa passeando de carruagem no alto da montanha, mas ele não podia ir ter com ela. Certo dia, estando na choupana, viu três bandidos brigando e se esmurrando; então gritou-lhes:
- Deus esteja convosco!
Ao ouvir esse grito os bandidos estacaram, olhando de um lado para outro, mas, não vendo ninguém, recomeçaram a esmurrar-se com mais vigor. O homem gritou pela segunda vez:
- Deus esteja convosco!
Os bandidos tornaram a olhar em volta, mas, não vendo ninguém, voltaram à luta. O homem gritou pela terceira vez:
- Deus esteja convosco! - pensando: "vai lá ver por que é que estão se esmurrando."
Foi e perguntou aos bandidos a razão daquela luta; então um deles disse que tinha achado um pau que tinha o poder de abrir qualquer porta em que batesse. O segundo disse que tinha achado um capote e quem o vestisse se tornaria invisível, e o terceiro disse que tinha achado um cavalo com o qual era possível ir a qualquer lugar, mesmo ao cimo da montanha de vidro. E agora estavam brigando porque não chegavam a um acordo: não sabiam se ficar com os objetos em comum, ou reparti-los e cada qual ir-se com o seu achado. O homem então propôs:
- Eu quero fazer uma troca com esses objetos; dinheiro, na verdade, não tenho; mas possuo algo que vale muito mais. Antes porém, quero experimentar se o que dissestes é realmente certo.
Os três bandidos aceitaram a proposta. Deixaram- no montar no cavalo, vestiram-lhe o capote e puseram-lhe na mão o pau; de posse de tudo isso, o homem tornou-se invisível; então pegou no pau e espancou valentemente os três bandidos, gritando: - Ai tendes o que mereceis, seus vagabundos! Estais satisfeitos?
E saiu a correr pela montanha acima; quando chegou ao alto, encontrou o portão do castelo fechado; bateu-lhe com o pau e logo ele se escancarou. Entrou e subiu as escudas indo até onde se encontrava a princesa, que estava sentada numa sala, tendo em frente uma taça de ouro cheia de vinho. Como, porém, ele estivesse com o capote mágico que o tornava invisível, ela não podia vê-lo; por isso, chegando à sua presença, o homem tirou do dedo o anel que ela lhe dera e atirou-o dentro da taça, que tilintou. A princesa exclamou alegremente:
- O meu anel!... O jovem que me vem libertar deve estar aí!
Correu a procurá-lo por todo o castelo sem conseguir encontrá-lo. Ele saira do castelo e, montando no cavalo, despira o capote. Quando a princesa foi lá fora deu com ele e ficou radiante de alegria.
Descendo do cavalo, o jovem tomou a princesa nos braços e ela beijou-o muito feliz, dizendo:
- Agora me libertaste do encanto; amanhã realizaremos nosso casamento.

Esse conto mostra o motivo de redenção da princesa de sua forma animal, mostra também o tema do sono paralisante, mas sendo aqui o masculino que dorme e como atua o complexo materno negativo na psique feminina e masculina. 
Vou iniciar a análise do conto com a questão do complexo materno negativo.
Conforme Jung (2008) o arquétipo materno é a base do chamado complexo materno.
Nos contos de fadas vemos os arquétipos em sua forma mais concisa e pura (Von Franz, 2005). Por essa razão temos nas bruxas, madrastas e mães terríveis o lado negativo do arquétipo materno. 

No inicio do conto é a própria mãe que usa enfeitiça a filha. A mãe profere as palavras e a transformação ocorre.
Em termos pessoais, vemos manifesto na psique da mulher um complexo materno negativo.
Essa mulher então desenvolverá uma defesa muito forte contra tudo o que é materno.
Confome Jung (2008):
“Todos os processos e necessidades instintivos encontram dificuldades inesperadas; a sexualidade não funciona ou os filhos não são bem-vindos, ou os deveres maternos lhe parecem insuportáveis, ou ainda as exigências da vida conjugal são recebidas com irritação e impaciência.”
Vê-se no inicio do conto que a rainha tem dificuldade na questão maternal. Ela não consegue agüentar impertinência infantil. Seu instinto materno é ferido.
E a mulher com esse lado ferido irá passar isso para sua filhinha, como forma de maldição. Ela não reconhece seu valor enquanto mulher e acaba transmitindo isso para a filha.
A maldição é que esse tipo de mulher precisa de uma grande quantidade de calor e atenção, que não encontraram como convinham em suas mães. Elas são suscetíveis e se sentem e constante estado de estarem sendo abandonadas.
A maior dificuldade está em superar a ferida e o ressentimento.
Carl Jung (2008) ressalta que ela casar-se por acaso, seu casamento serve apenas para livrar-se da mãe ou então o destino lhe impinge um marido com traços de caráter semelhantes ao da mãe.
O conto então mostra como a mulher com complexo materno negativo pode atravessar uma jornada iniciática e desenvolver sua personalidade entrar em um relacionamento de forma mais plena e inteira.
Esse aspecto negativo do arquétipo materno irá reaparecer no conto na forma da velha que lança o feitiço do sono no rapaz.
Rainha e velha mostram o aspecto sombrio do feminino. O aspecto imperfeito da mãe natureza negligenciado pela consciência coletiva e que refletem nas mães pessoais.
O rapaz também possui um complexo materno que o deixa paralisado em sua masculinidade e ação.
Esse conto então mostra uma iniciação dupla, pois ambos caem em maldição. A princesa que procurou seu salvador também terá de salvá-lo. Esse conto mostra tanto uma jornada feminina, quanto uma masculina que também está amaldiçoada.
Aqui anima e animus se encontram também sob os domínios do arquétipo sombrio da mãe.
Sobre o corvo é interessante ressaltar que se trata de um animal que simboliza a morte, a solidão, o azar, o mau presságio. Mas, pode simbolizar a astúcia, a cura, a sabedoria, a fertilidade, a esperança. Essa ave está associada ao profano, à magia, à bruxaria e à metamorfose.
Vemos aqui um simbolismo profano e pagão que foi reprimido pelo cristianismo. A bruxaria e a magia na verdade se tratavam de um conhecimento da terra e não do alto; o conhecimento das ervas e dos elementos.
Na verdade o corvo sempre teve uma conotação positiva para as tradições da antiguidade. O cristianismo foi um dos propulsores da acepção negativa atribuída ao corvo e, atualmente, espalhada pelo mundo. Desde então, para esse animal necrófago (que se alimenta de carne putrefata) é considerado como mensageiro da morte e então associado ao mal.
Isso mostra a maturidade do Ocidental cristão diante da morte.
Na Mitologia Grega, o corvo era consagrado a Apolo, e para eles essas aves desempenhavam o papel de mensageiro dos deuses visto que possuíam funções proféticas. Por esse motivo, esse animal simbolizava a luz uma vez que para os gregos, o corvo era capaz de conjurar a má sorte.
Na Mitologia Nórdica, encontramos o corvo como o companheiro de Odin (Wotan), deus da sabedoria, da poesia, da magia, da guerra e da morte. Na Mitologia Escandinava, dois corvos aparecem empoleirados no Trono de Odin: "Hugin" que simboliza o espírito, enquanto "Munnin" representa a memória; e juntos simbolizam o princípio da criação.

Toda essa sabedoria foi perdida com o desenvolvimento de nosso lado racional, intelectual, pois com o advento do Cristianismo o homem moderno passou a ter uma atitude bastante infantil diante do mal, do feminino e da morte. Reprimimos nossa intuição e passamos a desconhecer os ciclos da vida, onde a morte e a putrefação o corpo ocorrem.
Além disso, na Índia, a caça ao corvo é proibida, já que essa ave representa a alma dos mortos, e dar de comer a um corvo significa alimentar os antepassados (Paz, 1995). Sozinha então a princesa, carrega em si a alma de seus antepassados, fazendo não apenas uma redenção pessoal, mas uma coletiva e familiar.
Ela pede ajuda a um jovem (animus) que enfrenta a velha (arquétipo materno negativo.
Pois, bem para ajudar a princesa ele deve ir à casa da velha e não comer nada durante a estadia lá. Mas ele falha e por três vezes a princesa parece e ele está dormindo.
Ela prevê que isso iria ocorrer e mesmo assim continua sua jornada, sabendo que a falha dele faz parte de sua iniciação e redenção.
Essa é uma compreensão difícil para um ego imaturo. Queremos resultados rápidos e instantâneos e temos pouca consideração pela falha, principalmente quando se trata de relacionamentos.
Saber que se está no caminho certo, mesmo diante de obstáculos e desafios e mesmo assim manter a integridade e a certeza é um empreendimento para poucos.
Ela chega a primeira vez com uma carruagem com quatro cavalos brancos, depois com cavalos alazões (avermelhado) e por fim com cavalos pretos.
Temos aqui alusões a uma transformação alquímica que ocorre com o sono do jovem.
O numero quatro para Jung está associado a totalidade. O cavalo está associado ao instinto sexual, libido. Suas acepções simbólicas são provenientes de figuras lunares, em que associa a Terra ao seu papel de mãe suprema, e à Lua, por isso relaciona-se com a vegetação, as renovações cíclicas, a sexualidade, os sonhos e as adivinhações.
O branco, o vermelho e o preto fazem uma alusão as fases alquímicas denominadas: albedo, rubedo e nigredo.

A Albedo é um estado de paz, paradisíaco, de inocência. Simboliza a purificação. No entanto, esse estado não é passível de durar, pois é irreal. Representa a brancura, o clareamento, o entendimento, o conhecimento, a tranqüilidade. Mas essa fase não deve durar para sempre, ela deve ser colorida por outra cor, para incitar vida.
A Rubedo é a fase do vermelho, que significa vida, paixão e fogo. É a libido em atuação plena. Simboliza a iluminação, pois passar pelo fogo é deixar queimar as escórias que ainda existem.
A Nigredo significa a ignorância e o acordar, bem como as fases críticas, como nascimento e morte, ou as transformações que o corpo sofre na transição entre a infância e a adolescência e, ou deste a jovem e daí à clássica crise dos quarenta ou à velhice. Psicologicamente está associada à morte, mas a morte das ilusões egóicas. Durante vidas nos identificamos a uma infinidade de conceitos e costumamos tomá-los como verdade absoluta; rígida e estática. Na Nigredo há a morte desses apegos ilusórios e padrões que já não nos servem mais.
Isso significa que a consciência entra então na Nigredo, na noite escura da alma.
A moca deixa para o rapaz uma garrafa de vinho, um pedaço de pão e carne. E lhe escreve dizendo que esse alimento era inesgotável. Esta parece ser uma alusão ao mito de Cristo e a Santa Ceia, onde comemos o pão e a carne, que simbolizam a carne e o sangue de Cristo. E assim foi instituída a eucaristia.
Aqui então temos uma alusão ao alimento espiritual, onde se alimenta do próprio Deus. Além do Cristianismo, nos Mistérios Eleusinos, os adeptos consumiam o pão, alimento associado à Deméter (a deusa arquetípica do poder materno da terra), e o vinho – associado a Dioniso - a bebida divina que eleva a pessoa, mediante a embriaguez extática, a um estado de júbilo que a destacava de sua condição comum do cotidiano, ou, em outras palavras, a eleva a uma fusão com o divino; tal experiência sagrada seria proporcionada pela ação dionisíaca.
Isso representa a assimilação da potência simbólica da divindade. Em termos psicológicos é o contato com o Self. O rapaz ao se alimentar anteriormente cai no sono, pois aquele alimento não o satisfaz. Isso significa que enquanto a consciência se alimenta de algo transitório, como os desejos egóicos, ela cai no sono da inconsciência e se sente constantemente insatisfeita. O propósito advém desse centro da totalidade.
Ela lhe da um anel com seu nome. O anel também é um símbolo do Self e simboliza o casamento, o compromisso que ele precisa estabelecer com a anima.
Após isso ele sai em busca dela e segue em direção ao castelo de ouro de Stromberg.

Aqui temos um caso de redenção dupla. A princesa enfeitiçada precisa libertar seu salvador, para que ele possa cumprir sua missão.
O herói nesse caso precisa antes da ajuda da anima, pois ele ainda se encontra preso a um complexo materno, onde a anciã lhe oferece prazer. Esse prazer infantil o deixa na preguiça e na inconsciência.
Ele então encontra um gigante que quer devorá-lo. Ele lhe dá a comida e o gigante lhe indica o caminho até a princesa. Os gigantes representam a natureza em estado selvagem, em seu estado primitivo antes de ter sido anexada à civilização. É a força da natureza que pode ser destrutiva, pois gigantes são muitas vezes desajeitados e mal-intencionados. Representa então a força da nossa própria natureza que foi reprimida e renegada. Nossa parte destrutiva, devoradora, desajeitada, mas que possui muita força.
E o herói faz dessa parte de sua natureza sua amiga, pois o gigante não comia, ou seja, a consciência parou de alimentar esses aspectos e assim ele se tornou perigoso.
Então o gigante lhe indica o caminho do castelo. Ele passa a viver ao sopé da montanha a espera do momento certo, e aguarda por um ano.
Até que ele engana três ladrões e adquire um cajado que abre as portas, capa que o torna invisível e o cavalo que vai a qualquer lugar. E assim culmina na libertação e casamento.
O numero três se repete nesse conto, e em outros contos também é bem recorrente. O três é o numero da salvação, resolução harmônica do conflito da queda, é o desdobramento do Uno em trindade. Isso significa que em cada alma humana, existe a possibilidade de salvação.
Aqui Logos – animus e Eros – anima se encontram em conflito. O Logos preso no complexo materno e imaturo e Eros amaldiçoado pelo mesmo complexo materno disfuncional.
Um ano – tempo que o salvador aguarda – simboliza os 12 meses do ano. Na Astrologia, o tempo que o Sol leva para passar pelas 12 casas zodiacais. Isso significa passar por uma iniciação e realizar um ciclo de conhecimento da vida. O amadurecimento que antes não havia. Apenas após aprender os mistérios da vida nos 12 meses, ele está apto a agir. E assim chegar a Coniunctio, ou seja ao casamento alquimico e interno.



Referências bibliográficas:
EDINGER, E.F. – Anatomia da psique: O simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix: 2006.
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
PAZ, N. Mitos e ritos de iniciação nos contos de fadas. Cultrix – Pensamento. São Paulo: 1995.

VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Qual o seu conto de fadas preferido na infância?



Por: Hellen Reis Mourão

Todos nós temos um conto (ou uma história) que na infância adorávamos ler e reler. Nosso conto favorito, ou aquele que nos dava muito medo.
No processo analítico, por vezes gosto de perguntar qual foi o conto que marcou a infância do analisando. Esse conto pode auxiliar no processo de cura e na individuação.
O conto de fadas favorito tem um papel relevante na infância, pois é nessa época que a estrutura psíquica está se formando e aponta de forma teleológica para possíveis problemáticas na vida adulta.
Durante a infância mudamos de contos favoritos, no entanto, a problemática fundamental permanece a mesma, e assim a escolha se dá em um conto semelhante.
Com a psicanálise vemos que as formações primitivas infantis são de grande importância, pois formam uma realidade psíquica – a despeito da realidade exterior – nos quais as raízes das neuroses se formam.
Sua importância vital na análise é a de que ele abrange o fundo mágico – mitológico que forma a base do complexo central do paciente.
Os contos de fadas mostram uma camada mais profunda, primitiva e arcaica do inconsciente coletivo, do que os mitos. Por essa razão é mais humano e mais relacionado com a vida que o mito.
Assim na análise, ao acessarmos os contos de fadas trazemos conteúdos muito arcaicos e primitivos pessoais e coletivos, mas é justamente esse que contém, com mais ênfase, elementos compensatórios para a consciência.
Durante a análise esse conto predileto pode ir e voltar várias vezes. Pode-se aprofundar o tema e assim levar a pessoa a uma compreensão gradativa. O tema pode se apresentar sob outros pontos de vista.
Em um primeiro momento o ego se identifica com a figura do herói, o que dá base e sustentação para o processo. Mas com o tempo o complexo de ego se desidentifica com essa figura e começa a observar os outros personagens, como os adversários, como forma de ampliação de consciência, fazendo com que a pessoa compreenda que os personagens do conto são complexos com os quais ele pode dialogar e estabelecer uma relação. Eles existem, como realidade psíquica, dentro da pessoa.
As pessoas podem se identificar com um herói ou heroína via função principal do ego. Os tipos intuitivos costumam se identificar com Alice no País das maravilhas, por exemplo. Pode ocorrer também a identificação por uma função auxiliar.
Sabendo disso, passa – se a conhecer, o que é mais importante, a função inferior da pessoa. É essa que precisa ser trabalhada e conhecida.

Alguns contos de fadas já trazem a função inferior no herói, como o conto As três penas, dos Grimm. Nesse caso uma identificação, pode significar que o ego está tomado pela função inferior.
Para finalizar, existem muitas possibilidades dentro do trabalho com os contos de fadas. Mas ao realizar esse encontro com seu conto predileto, é possível acessar emoções escondidas, desejos inconfessos e que foram reprimidos, medos e traumas.
Lembro-me de amar o conto Soldadinho de Chumbo, do Andersen, na infância, e a cada leitura, acesso uma parte do conto, me emociono novamente e trago lembranças esquecidas.
Assim, com os contos de fadas, podemos trazer de volta a capacidade de nos encantar, emocionar, fantasiar, criar, se espantar. Trazer nossa criança esquecida e assim acessar possibilidades novas, novos projetos, novos horizontes.








terça-feira, 26 de abril de 2016

Nix - A Noite


Por; Hellen Reis Mourão
Nix é a deusa da noite. Filha do Caos e irmã de Érebo, a escuridão, ela representa o feminino primordial.
Essa deusa representa a noite com seus mistérios e segredos. Patrona das bruxas e feiticeiras, que a cultuavam por acreditarem que ela proporciona fertilidade à terra fazendo brotar ervas encantadas.
Homero se refere a Nix com o epíteto "A domadora dos Homens e dos Deuses", demonstrando como os outros Deuses respeitavam-na e a temiam, pois ela tem total controle sobre vida e morte, tanto dos homens como dos Deuses.
Em uma variante da cosmogonia órfica, Nix põe um ovo, do qual nasce Eros, enquanto Urano e Géia se formam das duas metades da casca partida. Ou seja, da noite e da escuridão, nasce o desejo de união (Eros), o amor.
Da união de Nix com seu irmão Érebo, também nasce: Éter (luz celestial) e Hemera (Dia). Da escuridão é que nasce a luz. Dois opostos Nix e Érebo (trevas e inconsciente) e Éter e Hemera (luz e consciência).

Nota-se que da matéria informe (Caos) - prima mater da alquimia – nasce a escuridão (inconsciente), e das trevas (Nix e Érebo), nasce a luz (consciência).
Conforme Brandão (1986), enquanto Érebo personifica as trevas subterrâneas, inferiores, Nix personifica as trevas superiores, de cima. Ela percorre o céu, coberta por um manto sombrio, sobre um carro puxado por quatro cavalos negros e sempre acompanhada das Queres (espíritos femininos, filhas de Tânato, simbolizam o destino cruel, fatal e impossível de escapar).
Os filhos de Nix são divindades que habitam o mundo subterrâneo e representam forças indomáveis que nenhum outro Deus pode conter. Na versão de Ésquilo, as Erínias (vingança) são filhas de Nix.
Nix (como todos os outros deuses) possui um aspecto benéfico, que é a beleza da noite, a sedução e o mistério; e outro maléfico, que é a maldição e terror noturno.
Simboliza a primeira deusa da morte e é a primeira deusa das Trevas. Sendo então o feminino primordial, o inconsciente com nossas sombras que nos causam tanto terror.
Representa a mãe primordial, o útero devorador, aquele que a consciência patriarcal tanto teme.
Com o advento do Patriarcado e a ascensão de Zeus ao poder, Nix se tornou uma deusa esquecida e renegada ao esquecimento. Mesmo assim, Zeus a temia profundamente, pois ela tem o controle da imortalidade dos deuses, podendo tirá-la e transformar um deus em mortal, como fez com Cronos, após este ser destronado por seu filho Zeus.  
Um poder enorme e absoluto!
Nix, como deusa lunar, simboliza o tempo das gestações, das germinações que vão surgir à luz do dia em manifestações de vida. Junto com Érebo, representa inconsciente primordial, de onde, tudo nasce. Com seu irmão, simboliza o uroboros primordial.
Símbolo da riqueza de todas as potencialidades de existência humana, mas também da destruição da mesma. Não respeitar essa força de germinação e de morte, pode ser perigoso.
Temos um destino e é tarefa árdua para o ego ocidental aceitá-lo.
A noite é o símbolo do indeterminado, daquilo que não enxergamos, ou vemos parcialmente. Nela se misturam pesadelos, íncubos, súcubos e monstros, mas também desejos inconfessos e potencialidades, pois em nossa sombra não se encontra apenas o mal, mas um potencial muito maior do imagina o ego limitado.

BRANDÃO, J. – Mitologia Grega Vol. 1, Petrópolis: Vozes, 1986.